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vocal tract / black hole / vent shaft (part I), Diogo Tudela na Galeria Gnration

Diogo Tudela (Porto), programador, investigador e artista visual, com uma prática artística focada na ficção teórica, computação especulativa e práticas de simulação e mecatrónica, apresenta o seu mais recente projeto vocal tract / black hole / vent shaft, composto por duas peças vídeo modeladas pelo som e por uma instalação sonora física, no Gnration, em Braga, até 03 de outubro de 2020. Juntamente com a exposição, a galeria disponibilizou um minidocumentário online onde ficamos a conhecer melhor o artista e as obras em exibição.

O surgimento dos novos média são o resultado de duas narrativas ao longo dos séculos XIX e XX, nomeadamente a história da computação e a dos dispositivos de armazenamento analógicos, que convergiram devido à evolução das tecnologias, como o aparecimento dos computadores pessoais, da internet, a comercialização dos meios de captação e reprodução de imagens e sons, assim como a massificação e a manipulação da informação. Os New Media (novos média), segundo Lev Manovich, um dos investigadores mais proeminentes da área em The Language of New Media (2001) afirma que “são os sítios da internet, a modelação e a animação 2D e 3D, a realidade virtual, a multimédia, os jogos de computador, as instalações interativas, o vídeo digital, o cinema e as interfaces homem-computador”. vocal tract / black hole / vent shaft é um projeto expositivo que se insere na New Media Art, termo utilizado para englobar as práticas artísticas que se apropriam dos novos meios digitais para a materialização de obras, introduzindo temas e conceitos da cultura popular e dos meios de comunicação, de forma crítica e autorreferencial. Um sistema do mundo da arte centrado nas possibilidades criativas e sociais das novas tecnologias.

Ao longo da exposição somos conduzidos pelo som e pela luz dos projetores, computadores e aparelhos electrónicos. Na primeira sala temos the vsss (vocal sphincteral sound system), 2020, uma instalação sonora de seis canais, criada através de uma voz gutural, especializada num movimento circular e manipulada em tempo real por dois discos de cera, semelhantes a pele disforme, sobre dois gira-discos em rotação, onde braços robóticos exploram de forma não linear a sua superfície, interpretando a sua informação cromática, através de sensores, ao mesmo tempo que um computador nos mostra código a correr, relembrando-nos o percurso da informação, desde a sua digitalização até à sua materialização em paisagem sonora. No mesmo local temos o vídeo oral anal wormhole (2020), que nos demonstra um tubo de tecido humano modelado digitalmente a flutuar numa tela de projeção. Por último, na sala dois, temos a instalação vídeo voice the constructor (2020) numa superfície de madeira e metal, criada através de excertos de filmes eróticos e pornográficos, onde vozes e imagens são manipulados temporalmente. Os corpos e os sons estão a ser sugados por uma espécie de buraco negro, ambos num movimento abstrato.

O antropólogo David Le Breton, em “O corpo enquanto acessório da presença: Notas sobre a obsolescência do homem” (2004) explora a ideia “do fim do corpo”. Correntes da cibercultura que antevêem a humanidade apenas  a navegar no ciberespaço, ideologias que anunciam que seremos todos máquinas, ou o artista plástico Stelarc, que acredita que o corpo tornou-se obsoleto face ao novo contexto tecnológico, como na sua mais recente criação Reclining StickMan (2020). Le Breton ainda conclui que “Se o homem não existe a não ser por intermédio das formas corporais que o colocam no mundo, qualquer modificação da sua forma implica uma outra definição da sua humanidade. (…) Pensar o corpo é uma outra forma de pensar o mundo”. vocal tract / black hole / vent shaft proporciona a reflexão sobre o corpo, enquanto fragmento, abstração, ou algoritmo, assim como sobre a voz e a fala, através da abordagem do fenómeno vocal a partir da topologia do buraco negro, o que por sua vez contribui para o pensamento sobre a realidade tecnológica e mediática contemporânea.

Annie Martins (Porto, 1990) cofundadora do Coletivo de curadoria Hera, é mestranda em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP. Igualmente foi investigadora do Projeto CHIC apoiando na integração de Filmes de Artista no Plano Nacional de Cinema e no Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses. Licenciada em Cinema pela ESTC do IPL (2007-2010) e em Gestão do Património pela ESE do IPP (2013-2017) colabora como Diretora de Arte em ficções e programas de televisão, assim como começou a escrever para a revista Umbigo.

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