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Homo Kosmos (cough, cough) de Tiago Borges & Yonamine na Galeria Avenida da Índia em Lisboa

A exposição Homo Kosmos (cough cough), de Tiago Borges (Luanda, 1973) e Yonamine (Luanda, 1975), com curadoria de Tobi Maier, tem vindo a impactar quem a visita desde a sua abertura nas Galerias Municipais – Galeria Avenida da Índia no passado mês de julho. Símbolos que remontam a antigas civilizações, à origem do mundo, a uma era tecnológica ou a um mundo interplanetário, olhos que nos observam, imagens e vídeos projetados, o som do hungo que assinala um ritmo, uma repetição, um loop contínuo, constituem estímulos que afectam todos os sentidos e nos conduzem a um estado de transe que se traduz em sentimentos que oscilam entre a angustia e a euforia. Antagonismo pautado por uma visão daquilo que o mundo é e daquilo que gostaríamos que o mundo fosse.

A colaboração entre Tiago Borges e Yonamine não é novidade. Em 2014 desenvolveram em conjunto o projeto AfroUFO a propósito da Bienal de São Paulo. Homo Kosmos (cough, cough) dá continuidade a esse início colaborativo. Não é por acaso que os dois artistas se encontram, os seus percursos cruzam histórias e experiências pessoais comuns, nomeadamente a Guerra Civil de Angola, que ambos viveram de perto desde a infância até ao início da fase adulta. Forçados ao exílio, ao confinamento e à convivência com inúmeros episódios racistas e de grande violência física e psicológica, construíram paralelamente pensamentos e convicções comuns que se traduzem no trabalho de ambos.

Homo Kosmos (cough, cough) constitui uma única obra, uma visão partilhada de ambos, que se situa entre o passado e o futuro e que olha para um presente dominado pela tecnologia e por um ritmo demasiadamente acelerado, onde a discriminação e a destruição da natureza se sobrepõem ao igualitarismo e à preservação do mundo natural.  Um gesamtkunstwerk que propõe uma reflexão acerca de questões como o racismo e a discriminação, a história de África pós-colonialista, a tecnologia, questões climáticas, a aceleração do ritmo de vida numa era dominada pelo capitalismo e uma aspiração a um novo mundo, livre de preconceitos, mais consciente e unido.

Uma rocha, suspensa no teto, reflete imagens aproximadas do mar, de rios, da terra e de campos, elementos naturais, vivos, que contrastam com os troncos e flores pintados de negro dispostos no chão e suspensos no tecto, naturezas mortas, que convocam a devastação florestal proporcionada por incêndios que este ano destruíram grande parte da floresta amazónica. De repente, a rocha suspensa no tecto ao invés de invocar a beleza do mundo natural lembra um meteorito prestes a embater na Terra e a destruí-la.

Um pouco mais adiante, vislumbra-se o desenho de um “porco branco” onde se encontram assinaladas as diferentes partes do seu corpo que dão origem a diferentes tipos de carne para consumo humano. Lêem-se expressões como “suíno cultura” ou “secretos de porco branco” num mural onde o preto foi pintado de branco por cima do branco que foi pintado de preto e assim sucessivamente, num “perpetual loop”. Esta ideia de repetição perpétua de um gesto ou de uma ação que nos aflige e que nos revolta é reforçada pelo som que Cabuenha, músico e mestre de capoeira, produziu para a exposição cujo hungo, instrumento musical antecessor do berimbau, assinala um ritmo contínuo de repetição.

Cicatrizes de um racismo vivido na primeira pessoa são ainda representadas através das figuras que flutuam no espaço concebidas por Yonamine. Trajes de Klu Klux Klan em plástico transparente personificam os fantasmas de um racismo que não se esconde e que persiste nos dias de hoje. Sobre elas são projetadas imagens de África, de vivências pessoais, de fábricas em funcionamento, de indivíduos na azáfama do dia a dia pautada por um capitalismo destruidor que atravessam os corpos daqueles espectros aterradores e embatem nos nossos próprios corpos.

Pontualmente, uma espécie de cápsulas de viagem distribuídas pelo espaço da galeria transportam-nos do passado para o futuro ou do futuro para o passado. Surgem sob a forma de três ecrãs em vidro assentes em estruturas de madeira que nos convidam a sentar e observar os reflexos que incidem sobre a sua superfície. Imagens que se sobrepõem num único plano fundem passado, presente e futuro.

O léxico da exposição é completado por símbolos desenhados ou projetados. Mãos com os dedos em chamas, ícones provenientes do universo digital, planetas, representações que lembram a molécula do ADN e, talvez um dos mais perturbadores, um Mickey Mouse, símbolo da modernidade, que traz na sua mão a chave da vida, representação egípcia associada à fertilidade e à vida após a morte, e que ri maleficamente perante a fatalidade do nascimento no mundo atual.

Todas estas representações, para além de distribuídas ao longo de todo o espaço da galeria, encontram-se reunidas no interior de uma black box, que assinala o início ou o fim da exposição. Iluminados por luz negra, os “hieróglifos” são completados por um vídeo que sobrepõe uma diversidade de imagens e colagens objecto de memórias de vários tempos que vão desde a herança colonialista à conquista do espaço. O ambiente escuro lembra o de uma caverna cuja imagética, símbolo do nascimento, do ventre materno e local onde normalmente ocorrem rituais de iniciação, poderá metaforizar um retorno às origens, uma passagem para outro mundo, para um novo cosmos.

É neste contexto que surge o homo cosmos representado sob a forma de uma pequena escultura da figura humana trespassada por pregos, parafusos, seringas, facas, canetas, pincéis. Uma clara alusão às esculturas nkisi oriundas do Congo mais especificamente às esculturas nkisi nkondi, figuras utilizadas em rituais que estabelecem um intermédio entre o mundo real e o mundo sobrenatural.

Homo Kosmos (cough cough) constitui uma espécie de constelação que é completada pelas estrelas negras desenhadas a giz que convocam o universo das pinturas de Chris Ofili. Um sistema que constrói uma espécie de astronomia africana. Um imaginário pautado pelo desejo de um mundo melhor, repleto de ironia “cough, chough” e expressão de uma piada.

Homo Kosmos (cough cough) de Tiago Borges e Yonamine, com curadoria de Tobi Maier poderá ser vista nas Galerias Municipais – Galeria Avenida da Índia até 4 de outubro.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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