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Resposta Aberta: Uta Bekaia

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Uta Bekaia é um artista multimédia georgiano nascido em 1974. Reside e trabalha atualmente em Nova Iorque e Tbilisi. Estudou Design Industrial na Academia Tbilisi Mtsire. Estreou-se como artista na AMA (Avant-Guard Fashion Assembly) com uma performance escultórica. Cria performances e instalações com esculturas usáveis, explorando o seu contexto cultural histórico, códigos genéticos e os ciclos do universo. É atualmente artista residente na ART OMI, Nova Iorque.

 

Josseline Black – Numa reflexão sobre este recente período de isolamento forçado, como tem articulado a sua intervenção no discurso público? Qual é o seu papel nesta conversa mais ampla?

Uta Bekaia – A primeira reação foi o medo do desconhecido. Investiguei a história das pandemias mundiais e a influência destas na humanidade. Aprendi que, após cada surto pandémico, brotou um tempo de mudança cultural e social. Passei do susto a algo também novo na minha vida.

À medida que adentrava na solidão, comecei a sentir a calma e o silêncio, elementos inexistentes numa grande cidade. Ao meditar, cozinhar, exercitar, ler, compreendi que vivemos no mundo isolados da natureza e do tempo natural. Estamos sempre com pressa, com medo de perder algo, de nunca termos tempo para processar as nossas ações. Desconectar-me desta histeria foi uma descoberta espantosa. Compreendi que esta matriz feita pelo homem pode ser facilmente manipulada. Vi-me como uma pequena, mas decisiva parte de um universo maior. Isolado, senti-me mais ligado do que nunca ao mundo e às pessoas circundantes.

JB – A sua prática artística mudou com o isolamento?

UB – Pela primeira vez, dei-me permissão para me expressar através da minha experiência pessoal. A prática artística tornou-se um reflexo do tempo em que vivo, sem a loucura da pressão das influências do statu quo artístico contemporâneo. O dogma de estar à altura dos “padrões” perdeu espaço e a ansiedade provocada por ele simplesmente desapareceu.

JB – De que forma a pandemia influenciou a sua capacidade prática de produzir trabalho?

UB – Trancado em casa, não tive acesso ao meu estúdio. Comecei a desenvolver um projeto na minha mesa de jantar. Foi interessante encontrar uma forma de trabalhar o projeto sem recursos. Mas, como qualquer ser humano numa situação extrema, encontrei forma de criar. As aguarelas e o papel tornaram-se o meu meio para um projeto intitulado Sea, Sea, Swallow Me, projeto escapista onde quero criar um mundo apocalíptico a partir da perspetiva de uma criança.

JB – Qual é a sua abordagem à colaboração neste momento?

UB – Durante este período, o diálogo com colegas artistas e/ou pensadores foi uma prática espantosa para todos. Inaugurei podcasts na Geórgia sobre temas deferentes, da prática espiritual às finanças. Para mim, esta tem sido a maior e mais bem-sucedida colaboração até ao momento.

JB – Como definiria o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

UB – Tendo em conta que humanidade está sempre à espera do apocalipse, a pandemia de 2020 permitiu-nos compreender melhor o que isso significa. Trancados nos nossos apartamentos, esse mini-fim deu-se num home-studio e na falta de papel higiénico, em vez de terramotos e incêndios. Mas, qual fénix, acredita que saiamos disto mais sagazes do que antes. Já há grandes mudanças a acontecer no mundo, o movimento Black Lives Matter nos EUA, por exemplo. E acredito que haverá mais. Este tempo permitiu-nos contemplar e refletir.

JB – Vê potencial para um apoio renovado à produção cultural, apesar das macro e microeconomias atravessarem atualmente uma rápida reestruturação?

UB – Sinto que as mudanças estão a chegar ao negócio da arte contemporânea altamente comercializada. A luz incidirá onde antes não havia espaço para perguntas. Sinto que a revolução da mente está a fazer-se e o que a escuridão cederá à luminosidade.

JB – E.M Cioran escreve: “perante as grandes perplexidades, tentemos viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como responde a esta proposta?

UB – Estou a ter dificuldade em compreender isto ☺

JB – Como é que este período está a influenciar a sua perceção da alteridade em geral?

UB – É um bom momento para alterar a construção social, ver como esta se está a desmoronar e aquilo que existe no seu avesso. É um grande momento para parar e contemplar a ação e a reação ao ambiente. É uma ótima altura para encontrar serenidade no caos.

JB – Como é que a sua utilização da tecnologia e da virtualidade está a evoluir o paradigma dentro do qual produz o seu trabalho?

UB – Como todos neste planeta, a tecnologia tornou-se a ferramenta da qual mais dependo.

JB – Qual é a sua posição sobre a relação entre a catástrofe e a solidariedade?

UB – Em situações extremas, estamos juntos. A humanidade mostrou reiteradamente que o que nos torna inteiros é a devastação. Acho que é isso que nos interliga.

JB – Qual é a sua utopia neste momento?

UB – A minha utopia é aquele mundo que tenho o dom de criar à minha volta, para mim e para os outros nele interessados.

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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