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Velvetnirvana no Pavilhão Branco

O que tocava era Anarchy in the UK dos Sex Pistols, banda icónica inglesa de punk e rock alternativo que atuou entre 1976-78. Aos Sex Pistols seguiu-se Sparks, New Order, Talking Heads, Television, Patti Smith entre tantos outros. Uma playlist sem fim que nos acompanha pelas diferentes salas dos dois pisos do Pavilhão Branco. Estava dado o mote – para podermos ver a exposição temos também de a (incontornavelmente) ouvir.

Velvetnirvana é o nome. Este momento expositivo, feito a partir da coleção de António Neto Alves e com a curadoria de Miguel von Hafe Pérez, conta com flyers, cartazes, fotografias, edições, livros, desenhos e alguma memorabilia, todos eles relativos ao período entre as primeiras aparições dos Velvet Underground, por volta de 1965 e a data da morte do estimado vocalista dos Nirvana, Kurt Cobain, em 1994. O período escolhido não é objeto do acaso, como podemos constatar no texto que nos introduz à exposição, há a vontade de retratar uma “radicalidade” transversal ao cenário cultural desta época e que ainda hoje se faz sentir, resultado de uma atitude criativa disruptiva e inconformada, que procurava fletir os limites tanto da música (e das artes visuais) como dos diferentes modos de a(s) comunicar.

Um “(…) intrincado universo iconográfico que define a importância vital da palavra e da imagem enquanto construtores de sentido, de impulsionadores de ruturas na forma de comunicar (…)”. É deste modo que Miguel von Hafe Pérez propõe este momento que é velvetnirvana – uma oportunidade para esclarecer a importância da relação (à data ainda embrionária) entre as artes visuais e a música, as suas ramificações e, não só como essa relação possibilitou o fortificar e/ou potenciar das ideias e conceitos de muitos projetos musicais, como ainda resultou numa dinâmica cultural e social que, de alguma forma, ainda hoje nos define.

A exposição, dividida pelas quatro salas e os dois pisos do Pavilhão Branco, apresenta quatro núcleos centrais: Velvet Underground, Nova Iorque experimental, Incandescência punk e, na quarta e última sala, temos em tom sugestivo, Pós?. Além de (engenhosos) cartazes de concertos, fotografias de concertos e backstage, podemos ver desde fotografias originais de Rita Carmo do concerto dos Nirvana em Cascais em 1994, a fotografias de Pedro Fradique do concerto dos Sonic Youth no Campo Pequeno em 1993; até poemas e edições de Patti Smith ou desenhos de William S. Burroughs. Podemos contar ainda com a banana de Warhol ou o primeiro disco de Velvet Underground & Nico, não esquecendo a apresentação inédita de um políptico de cinco polaroids, ampliadas, de Paulo Nozolino. O que Miguel von Hafe Pérez procurou com esta exposição foi, através de todos estes diferentes tipos de registos, inicialmente idealizados e concebidos sem este caráter expositivo que agora lhes é outorgado, criar “uma cartografia indexical” que nos permita refletir sobre este período e nas relações aí inauguradas entre o universo das belas artes e o da música.

Experimentei velvetnirvana enquanto um recordar (e (re)descobrir) pleno. Um momento viabilizado essencialmente pela playlist que a acompanha, que faz com que não se torne numa exposição de culto ou direcionada para uma geração específica, proporcionando que gerações mais jovens, que não tenham gravadas na memória (ou no espírito) as décadas de 70, 80 e 90 possam também elas sentir as imagens com movimento (e vida). Acredito que foi isto que Miguel von Hafe Pérez, na posição de alguém que talvez com carinho guarde na memória a vivência e/ou influência deste período, quis proporcionar – um rememorar com escolta musical que vem dar largas à imaginação e que resulta numa forma de intimidade e reconhecimento para aquele que observa, mesmo que de mais tenra idade, reforçando a relevância da relação palavra-imagem enquanto “construtores de sentido” de que o texto nos fala.

Para ver até dia 29 de setembro, nas Galerias Municipais | Pavilhão Branco, Lisboa.

Rui Gueifão (Almada, 1993), vive e trabalha em Lisboa. Licenciado em Artes Plásticas na ESAD.CR e mestrando em Filosofia-Estética na FCSH – Universidade Nova de Lisboa. Já colaborou com diferentes instituições e espaços dedicados à arte contemporânea, como o Museu Fundação Coleção Berardo, Caroline Pàges Gallery e Galeria Baginski. Tem vindo, desde 2018, a produzir diferentes tipos de textos, já tendo contribuído para publicações e textos de exposições. Desenvolve e expõe o seu trabalho artístico desde 2015.

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