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Music for the Weekend #015 — Protest Songs: We are in this Together

Canto mole em letra dura / Nunca fez revoluções… Quando o status quo quer que tudo se mantenha comme il faut, irá sempre aparecer uma canção de protesto a pedir mudança. Foi sempre assim, das baladas medievais dedicadas ao ficcional Robin Hood até ao moderno hip hop, porque uma canção pode ser um extraordinário veículo para a consciêncialização de um problema ou de uma causa, no intuito de expor injustiças, quase sempre num desejo autêntico de encontrar soluções na construção de um estribilho e refrão que exponham as emoções sentidas e partilhadas por muitos para que esses assim amadureçam sentimentos ainda pouco percecionados.

De inflexíveis e duros de roer retratos sobre o ódio racial, a contundentes mensagens contra a injustiça ou a idiotice da guerra, a música sempre teve um papel importante na demanda de mudança. Seja um cântico negro a denunciar o sofrimento da escravatura, um “hino de estádio” com uma mensagem subversiva sobre a iniquidade feminina ou mesmo uma pequena limerick musicada que nos alinhe na necessidade de soluções ambientais as melhores canções de protesto falam não apenas das questões do seu tempo, mas transcendem as épocas em que são escritas para se tornarem expressões políticas atemporais. O hip-hop talvez continue a ser a música mais politicamente engajada da nossa era atual mas, ao longo de várias décadas, jazz, folk, funk e rock contribuíram com algumas das melhores canções de protesto ideológico de todos os tempos.

Roland Barthes defendia que a ideologia é um sistema semiótico de segundo grau, no entanto a abordagem aos atos de protesto cantado apresenta um interesse particular, não apenas por causa de seu conteúdo, mas principalmente por causa da forma como assim chegam tão melhor ao recetor. Como que para reivindicar Umberto Eco quando este defendia que tanto o meio como a própria mensagem poderão estar carregadas de significados culturais, a canção de protesto para ser eficiente deve sentir o “todo” que aflige uma sociedade mas encapsulando esses sentimentos de forma simples e compreensível, quase bite-size. Black Lives Matter, uma pequena frase com quilos de significado implícito num país onde um antigo presidente afirmou que “sem debate nem critica nenhuma nação ou república pode sobreviver”.

No entanto o protesto quase sempre põe os “protestantes” também em check, porque inúmeras vezes o establishment refuta as ideias expressas como desobediência a valores “mais altos”. Thoreau escreveu que “a desobediência é o verdadeiro pilar da liberdade. Os obedientes serão escravos” e, quando da guerra do Vietnam ou, no nosso caso da guerra ultramarina, muito artista brandiu a pena contra a espada até que nenhuma mãe achasse que podia perder mais um filho num conflito liderado por idiotas. A cantiga é uma arma que serve, abusando do título do brilhante poema de Cesar Cruz, para alentar os perturbados e desassossegar os confortados. E enquanto houver disparidades sociais, económicas, raciais, sempre que se marchar em direção a um doom inevitável, haverá música a ser feita para a voz de quem queira ainda mudar o mundo.

People get ready, there’s a train comin’
You don’t need no baggage, you just get on board

Era inevitável esta semana eu abordar o tema da canção de protesto. Porque, reafirmando o ponto de vista anterior de que estamos perante canções atemporais podemos concluir que L’empire du côté obscur, rap de 1997 dos IAM, não é de todo sobre o Star Wars, nem Power in the Darkness dos TRB, completo com uma paródia política a um velho fuddy duddy a queixar-se do estado do país em que vive, é tongue in cheek na sua asserção máxima não fosse ser em 1978 um retrato daqueles que votaram pelo Brexit 38 anos depois. Começo com I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free cantado por Nina Simone e continuo logo de seguida para For What it’s Worth, escrita por Stephen Stills e que muitas vezes é referenciada como uma canção anti-guerra. Na realidade Stills escreveu esse hit dos Buffalo Springfield em resposta aos motins relacionados com o recolher obrigatório no Sunset Strip nos finais dos 60. Daí a frase “There’s battle lines being drawn / Nobody’s right if everybody’s wrong”.

Da grande Sharon Jones com os seus The Dap Kings a interpretar um clássico de Woodie Guthrie que até é ensinado na escola a muitos miúdos que não conseguem perceber a rebelde alternativa ao God Bless America escrito pelo cantautor representando o operário americano e os seus direitos de igualdade perante as classes sociais mais abastadas até à Luta Livre, novo projeto do Luís Varatojo e de quem aqui deixo Iniquidade, escolhi sempre canções que nos fazem pensar nos assuntos que versam.

Fiquem de pé, vamos investigar, vamos saber, vamos aprender! Ei!
Vamos ouvir, vamos entender, vamos pensar! Ei!
Permitam-nos entender, libertem-nos para sabermos mais

Palavras na voz de Natacha Atlas, a sabedoria é poder e aprender é estarmos em revolução, constante. Acabo com uma magnifica rendição de Strange Fruit por Kandance Springs. O original foi escrito pelo escritor, professor e compositor judeu Abel Meeropol em 1937 e gravado dois anos mais tarde por Billie Holiday como protesto aos linchamentos de afro americanos nos estados sulistas. Esta canção é considerada “o início do movimento dos direitos cívicos” nos Estados Unidos.

Este fim de semana todos poderiam ter o direito de se manterem calados no entanto assim não o recomendo.

#staysafe #musicfortheweekend

Nina Simone – I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free
Buffalo Springfield – For What It’s Worth
Edwin Starr – War
Gil Scott-Heron – The Revolution Will Not Be Televised
IAM – L’empire du côté obscur
Chico Buarque – Apesar De Você
he Specials – Ghost Town (Extended Version)
Sam Cooke – A Change Is Gonna Come
Tom Robinson Band – Power in the Darkness
Joni Haastrup – Free My People
A Tribe Called Quest – We The People…
Radiohead – Idioteque
Eddie Kendricks – My People… Hold On
K.I.M. – Meat Is Murder
Natacha Atlas – Batkallim Recharged (Dogbeats vs. Natacha Atlas)
Boris Vian – Le déserteur
Advanced Chemistry – Fremd im eigenen Land
Creedence Clearwater Revival – Fortunate Son
hompson Twins – Revolution
James Brown – It’s A Man’s Man’s Man’s World
X-Ray Spex – Oh Bondage, Up Yours!
Stevie Wonder – Living For The City
Luta Livre – Iniquidade
Marvin Gaye – What’s Going On
The Staple Singers – Masters Of War
Prince – Baltimore
The Impressions – People Get Ready
Kamal Keila – Agricultural Revolution
Rage Against the Machine – Killing in the Name
The Isley Brothers – Fight The Power
Public Enemy – Fight The Power
Crosby, Stills, Nash, & Young – Ohio
The Gossip – Standing In The Way Of Control (Le Tigre Remix)
NWA – Express Yourself (Extended Mix)
Mickey 3D – Respire
Sharon Jones & The Dap Kings – This Land Is Your Land
Grandmaster Flash & The Furious Five – The Message
The Sex Pistols – God Save The Queen
The Alexander Review – A Change Had Better Come
Kandance Springs – Strange Fruit

Amor, paixão, alegria. E outros estados da alma induzidos por sexo, drogas e rock 'n' roll. Dandy, bon vivant e outros anglicismos que não são para aqui chamados. Pai babado, apaixonado inveterado por tudo o que seja de "agora" mas numa profunda mas recatada admiração por tudo o que "já foi". Europeu com raízes asiáticas numa sôfrega vontade de ter, ser e ver todo o mundo. Music was my first love / and it will be my last

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