Top

Entrevista a IVO

IVO nasceu em Lisboa em 1959. Entre 1981 e 1986 realizou a licenciatura em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e começou a expor o seu trabalho.

Durante a formação artística, frequentou também o curso de Pintura no Centro de Arte e Comunicação Visual, bem como um curso de formação básica de Desenho, Pintura e Gravura. Trabalhou também como Professor de Educação Visual em Luena (Angola) e na Ar.Co (Lisboa).

Esteve também envolvido num programa entre a Southern Arts Association e Fundação Calouste Gulbenkian durante quatro meses, em 1987, em Winchester, Inglaterra.

Em 1988 executou a cenografia da peça O Gigante Verde, com encenação de Águeda de Sena.

Participou em 70 exposições coletivas desde 1983, em Portugal, Espanha, França, Itália, Holanda e e África do Sul e realizou 29 Exposições Individuais desde 1987, entre as quais, nas Galerias Quadrum (Lisboa).

Cofundador do Grupo Homeostético, em 1982, participou nas cinco exposições do grupo e na retrospetiva no Museu Serralves no Porto, em 2004.

Tem neste momento uma exposição na galeria da Associação 289, em Faro, Sal Centrípeto.

 

Joana Carmo – Como surgiu o seu interesse pela arte?

IVO – Foi na adolescência com 15 anos, logo a seguir ao 25 de abril. Nessa altura havia muito pouca informação, havia muito poucas galerias. Eu tinha um amigo cuja mãe tinha muitos bons livros de arte e sempre me interessou ver os livros. Depois comecei a ir ver exposições à Gulbenkian. Comecei a desenhar e a fazer experiências.

Depois entrei no Ar.Co, um centro de arte e comunicação visual, com 19 anos, que na altura era diferente do que é o Arco hoje em dia, estava no início, tinha 6 anos. Ainda tinha muito aspeto de centro cultural e passava muitos filmes, por exemplo os expressionistas alemães e outros, cinema de qualidade e de autor a preços irrisórios.

O Arco foi um bom sítio onde pude desenvolver as minhas ideias e fazer experiências. Tinha bastante liberdade para fazer, bem e mal.

Na altura estava inscrito em desenho, pintura e gravura, mas por exemplo às vezes ia fazer escultura, ia ver como é que era a fotografia. E também de vez em quando havia cursos livres. Por exemplo, fiz um com a Ana Hatherly e nessa altura ela tinha um programa no Canal 2 e aquilo devia ser “ET” cá em Portugal, passava coisas incríveis, desde o teatro da Bauhaus a coisas mais contemporâneas.

Também havia exposições muito boas.

Em 79 ou 80 veio cá o Vostell expor, ele tinha pertencido ao grupo Fluxus. Nesse dia não houve aulas, fomos para as inaugurações, que era uma coisa que na escola de belas artes não se fazia, era muito conservadora nessa altura.

Por isso foi bom.

JC – Pode falar um pouco da sua prática formal, motivações, temáticas e o modo como usa diferentes técnicas no seu trabalho?

IVO – Andamos sempre a tentar descobrir qualquer coisa que para ela faça sentido e tenho passado por fases. Uma pessoa vai tendo motivações diferentes. A minha pintura, de certa maneira, sempre teve alguma intensidade e sempre tive uma tendência para construir objetos tridimensionais.

Nos anos 80 comecei a fazer uns trabalhos em que combinava pintura e objetos, era algo que estava próximo das combine paintings do Rauschenberg.

Houve períodos em que pintei mais a óleo, agora pinto mais a acrílico. Gosto do óleo por causa da matéria.

Recorro a várias técnicas porque a técnica para mim é um meio. Quando entrei no Arco experimentei as tintas líquidas desde aguarela, tinta da china, até aprendi a fazer algumas tintas e na altura eram exercícios, para tentar perceber, dominar a técnica e a linguagem. Ao fim ao cabo a pintura é uma linguagem. É muito difícil falar-se da pintura porque a pintura não usa palavras.

Eu comecei por fazer pintura figurativa, depois houve uma altura em que fiz uma pintura que era uma tensão entre o figurativo e o abstrato e agora estou mais abstrato, acho eu.

Estamos sempre a aprender, nunca sabemos bem o que vai acontecer, temos uma ideia vaga e eu só acabo o trabalho quando sinto que estou satisfeito, quando eu acho que tem um sentido.

JC – Sente que o seu trabalho mudou com o confinamento?

IVO – Ao princípio foi muito difícil trabalhar. As coisas estavam a correr muito mal e demorei muito tempo a acabar o trabalho. A vida mudou totalmente. Eu tenho de dar aulas e tenho de trabalhar mais no computador. Foi difícil.

Agora já não, uma pessoa já se habituou, mas é uma situação um bocado estranha.

JC – Foi um dos fundadores do Grupo Homeoestético. Porque era importante na altura para vocês revolucionar a arte?

IVO – Nós apanhámos uma década muito boa, muito espontânea, mas não foi só na cultura, foi também em todas as áreas. Nos anos 80 começou a haver mais acontecimentos culturais, mais galerias, mais coisas a acontecer.

Havia muito poucas pessoas a fazer arte em Portugal. Havia algumas galerias, havia a Quadrum, uma excelente galeria, e outras, mas era tudo muito pontual, os artistas eram muito poucos e por isso a nossa geração teve a sorte do 25 de abril e mudou-se todos os paradigmas. Apanhámos uma lufada de ar fresco e fizemos.

Não houve os constrangimentos que havia anteriormente.

Estive um ano em Angola, estive lá a desenhar e foi muito importante porque deu para refletir e desenhei bastante. Foi uma altura de maturação, a perda de inocência, a passagem para a fase adulta.

Estive numa zona muito longe de Luanda. Vi danças e música muito autênticas. Tive contacto com gente muito pobre, mas autêntica, e isso para mim foi importante.

Quando fizemos a exposição “Continentes”, claro, fiquei com a África.

Depois voltei para Portugal e ainda voltei com mais força para pintar e logo a seguir a ter chegado, em 81, chegou a Guernica de Picasso e eu apanhei logo o comboio para ir ver.

JC – Quem são as suas grandes referências na arte?

IVO – Na poesia portuguesa, Herberto Hélder.

Gosto muito de jazz, desde os 16 anos, e estive no 1º festival de jazz contemporâneo de Setúbal. Era algo muito avançado na altura e tínhamos workshops com músicos muito bons a nível mundial.

Na pintura, gosto desde Lascaux. Gosto da pintura das gravuras rupestres, são coisas autênticas, com sentido, gosto de Goya, Rembrant, Turner, Monet, Arte Povera.

A nível nacional gosto de um pintor muito pouco conhecido do século XVI, André Reinoso, Amadeo de Sousa Cardoso, Paula Rego, Álvaro Lapa, António Sena, Pedro Chorão.

JC – Tem alguma exposição para breve?

IVO – Tenho uma marcada para os Artistas Unidos para novembro, mas agora não sei se será adiado.

Joana Carmo licenciou-se em Línguas, Literaturas e Culturas, tendo em seguida frequentado uma pós-graduação em Mercados de Arte e Colecionismo. Atualmente é técnica superior do Museu Zer0 (museu de arte digital que se encontra em instalação no interior do concelho de Tavira) onde coordena o seu Serviço Educativo e Públicos.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €24

(portes incluídos para Portugal)