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Music for the Weekend #014 — Space, the final frontier

Rápida Nota Introdutória: Estou deveras perturbado por tudo o que tenho visto a acontecer no mundo nos últimos dias, algumas das imagens que nos chegam dos EUA não podiam ser mais indicativas que afinal tantas razões tivemos para pensar em partir daqui para um outro planeta. Enquanto escrevo este preâmbulo estou a ouvir o Requiem de Mozart e deixo esfriar a minha fúria prometo que para a semana e já mais calmo poderei abordar, como cantava Marvin Gaye, What’s Going On…

Com a eminente reabertura das fronteiras terrestres e com a recente missão da Space X achei que era apropriado este fim de semana abordar a aventura humana no espaço e a música que temos feito fascinados com tal situação e para “ilustrar musicalmente” esse esforço. Não me parece que seja por ser rapaz mas sinto que quando cresci nos anos 60 vivia-se num mundo de aventuras. Não a revista de banda desenhada que havia na altura, não é disso que estou a falar. A referência é direta ao mundo que vivia num delírio aventureiro de conquistar essa última fronteira: o espaço. Os russos tinham conseguido deixar os americanos a ver estrelas por uns tempos mas o esforço da NASA (com ajuda de uns quantos cientistas alemães) traria dividendos quando chegaram às missões Apollo. Mas isso é uma história à qual já lá iremos chegar.

O cosmos “que nos rodeia” sempre foi uma fonte de inspiração musical. Na antiga Grécia Pitágoras defendia algo chamado a “harmonia das esferas”, acreditando que os corpos celestes se moviam de acordo com regras matemáticas, as quais podiam ser traduzidas para linguagem musical. Todas estas ideias são exploradas mais tarde no mundo Ocidental sob a alçada das teorias da Musica Universalis. Mas é só no século XX que a causa vence a força gravitacional e começa a ganhar propulsão. Os Planetas foram escritos por Gustav Holst em plena Primeira Grande Guerra, entre 1914 e 1916, já que o compositor havia sido recusado de ajudar no esforço bélico por questões de saúde. A suite era tão radical para a época que a primeira vez que foi tocada em público Holst não estava presente e o maestro só apresentou cinco dos sete movimentos por achar que a audiência não estava preparada para a peça completa. Por isso talvez a space age musical só iniciou a contagem regressiva já nos finais dos anos 50, com Sun Ra e o seu jazz cósmico (senão veja-se os títulos de alguns dos seus trabalhos dessa época: Sun Ra Visits Planet Earth, Interstellar Low Ways, Super-Sonic Jazz, We Travel the Space Ways e The Nubians of Plutonia) e com uma particular ópera intitulada Aniara. Escrita por Karl-Birger Blomdahl com libreto de Erik Lindegren, esta verdadeira space opera em dois atos estreou-se em Estocolmo em 1959 e usando fita eletrónica, jazz e técnicas do Serialismo defendido por Shönberg passava em revista o lugar do Homem no Tempo e no Espaço. Poderia ainda mencionar Fantástica, um disco de 1958, editado por Russ Garcia na Capitol mas preferi deixar aqui o tema Venus.

Teríamos de esperar mais 10 anos, para que em 1969, mais concretamente cinco dias antes da Apollo 11 descolar para a viagem que levaria  Armstrong e Aldrin a passearem na superfície lunar do Mar da Tranquilidade para ouvirmos Space Oddity por David Bowie. Verdadeiro hino da space music, só esta já faria do músico inglês o Yuri Gagarin do Rock mas Bowie voltou a revisitar o personagem Major Tom em Ashes to Ashes, Hallo Spaceboy e no seu vídeo para Blackstar. Pelo meio fez ainda Life on Mars e Loving the Alien, inventou Ziggy Stardust e foi ator no filme The Man Who Fell to Earth de Nicolas Roeg. Decidi no entanto esta semana ir repescar uma outra canção “espaciótica”, I Took A Trip On A Gemini Spaceship do álbum Heathen. Putting out fire… with rocket fuel. Relembro ainda que um bom acompanhamento visual (sem terem de ir até ao Planetário) para a playlist desta semana é o filme Moon, estelar primeira longa metragem de Duncan Jones, filho de David Bowie.

O cinema e a televisão está cheia de eye candy espacial de mãos dadas a sonorizações incríveis. O theme do Espaço 1999, com as suas guitarras whaha-whaka ou o monumental tema de Star Trek, descendente das melhores invenções dos compositores da Exotica. Mas, como diz o cartaz de Alien: In Space no one can ear you scream. Porque onde não há ar, não pode haver som. No entanto esse facto cientifico nunca molestou ninguém, os lasers fazem “whuius”, as naves espaciais estão em perpétuo bulício e qualquer supernova acontece com pompa e fragor. Se quiséssemos ser minimamente credíveis a única coisa que se podia utilizar era o 4’33” de John Cage, o equivalente musical da Branca de Neve de João César Monteiro. No entanto lembro-me de um dia ter ido à tarde até ao cinema Caleidoscópio no Campo Grande ver um double bill composto pelo 2001 do Kubrick e o Solaris do Tarkovsky. É efetivamente “no escurinho do cinema” que conseguimos apreciar as sonoridades que servem as imagens futuristas desses filmes, e no caso do filme russo a banda sonora composta por Edward Artemiev é digna da perturbada relação de Kris Kelvin, o personagem principal, com a sua própria consciência e o seu passado.

Satellite’s gone way up to Mars
Soon it’ll be filled with parkin’cars
I watched it for a little while
I love to watch things on TV

Claro que Satellite of Love do Lou Reed ficou mas devido às limitações que imponho a estas seleções tive de deixar de lado algumas coisas fantásticas: Contact, a última faixa de Random Access Memories dos Daft Punk; Welcome to Lunar Industries da fantástica banda sonora criada por Clint Mansell para o filme Moon; Space Junk dos Devo, que no seu primeiro álbum estavam mais preocupados com o que nos fazia quer pirar deste nosso planeta do que propriamente fascinados com a conquista do espaço, SpaceLab, segunda faixa do seminal Die Mensch·Maschine editado pelos Kraftwerk em 1978 ou A Space Boy Dream dos Belle & Sebastian onde Stuart Murdoch relata um sonho no seu compacto acento de Glasgow. Consegui escolher uma dos Man or Astro-Man?, os netos do Sun Ra e como o surf-rock ficou assim representado pude não ter que verter uma lágrima ao não incluir o galáctico Telstar dos Tornados. Beam me up Joe Meek, que ainda consegui introduzir uma outra criação mas com os Blue Men.

Mas deixo lugar para algumas preciosidades e algumas coisas assim mais óbvias mas por boas razões. Uma delas é o clássico prog 10.000 Anos Depois Entre Venus e Marte de José Cid o que deu direito a combinar uma referência aos Capitães da Areia. Outro incontornável é Fly me to the Moon, nem que seja porque já tocou na Lua. Não é do conhecimento geral mas a Sony havia criado o TC-50, um proto-Walkman (este leitor de cassetes portátil só seria comercializado 11 anos depois) para os astronautas das missões Apollo poderem usar como “bloco de notas” mas também para ouvirem música. Sabe-se que Armstrong gostava de Exotica e que tinha eleito Mist of the Moon, um disco editado por Les Baxter em 1947 com acompanhamento do Dr. Samuel Hoffman a tocar theremin e como o controlo em Houston suspirou de alívio quando este deixou de ouvir Moon Moods, faixa que incluo também. Mas o que poucos se lembram é que logo a seguir a Armstrong pisar a Lua Buzz Aldrin desceu a escada do módulo lunar ao som da interpretação do Ol’ Blue Eyes do standard escrito por Bart Howard em 1954 (e que ele sempre insistiu que se chama In Other Words).

And pray that there’s intelligent life somewhere out in space,
‘Cause there’s bugger all down here on Earth!

Entro por fim na reta final desta Via Láctea com uma homenagem lusitana a Space is the Place do grande Sun Ra. Esta pequenez que nos vê assim meio parvos e mesquinhos mas que anseia em sermos grandes e aventureiros leva-nos nessa demanda pelo espaço sideral e é retratada logo de seguida na Galaxy Song pelos Monty Python no filme The Meaning of Life, mais concretamente por Eric Idle, de longe o melhor compositor dessa banda de pantomineiros. No caso de não ser mais que óbvio relembro aos ouvintes destas selecções para verem no Mixcloud a lista completa das músicas de cada M4we e checarem as histórias por trás de cada uma dessas escolhas. Garanto-vos que cada uma delas está incluída por uma muito boa razão.

Para finalizar a narrativa desta semana: e então se, enquanto nós andávamos a disparar por essa galáxia fora, uns desenvergonhados ETs já tivessem vindo até ao nosso planeta e andassem por aí a misturar-se com a malta? É essa premissa da escolha da quadragésima que uma vez mais acaba por cair sobre os franzinos ombros de Donald Fagen, num trecho do seu segundo álbum pós Steely Dan, Kamakiriad.

They’re mixing with the population
A virus wearing pumps and pearls
Lord help the lonely guys
Hooked by those hungry eyes
Here come Tomorrow’s Girls
From Sheila’s to the reefs of Kizmar
From Stargate and the Outer Worlds
They’re speeding towards our sun
They’re on a party run
Here come Tomorrow’s Girls

E com este twist “tuailaitezoniano” despeço-me no desejo que tenham um fim de semana cósmico.

#staysafe #musicfortheweekend

Flying Lotus – Intro A Cosmic Drama
The Orb – Afros, Afghans and Angels (Helgö Treasure Chest)
Public Service Broadcasting – Gagarin
Hase Casar – Wir Fliegen Weiter (Mondsong)
Brian Eno – No One Receiving
Jeff Mills – Strange Plants and Other Botanical Wonders
Sun Ra And His Myth Science Orchestra – Interplanetary Music
Komputer – Valentina
Les Baxter & His Orchestra – Moon Moods
Capitães da Areia – Algures Entre Vénus e Marte
José Cid – 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte
Russ Garcia And His Orchestra – Venus
Gil Scott-Heron – Whitey On the Moon
Sun Kil Moon – Space Travel Is Boring
Disco Re-Edit, Funk Re-Edit – Mysterious Planet
Brian Bennett – Solstice
George Benson – Here Comes The Sun
Rah Band – Clouds Across The Moon (12″ Version)
rank Sinatra with Count Basie and his Orchestra – Fly Me To The Moon
Hannah Peel – Archid Orange Dwarf
Lou Reed – Satellite of Love
Stevie Wonder – Saturn
Robert Hermel – Industrie Spatiale
The Tubes – Space Baby
Yellow Magic Orquestra – Cosmic Surfin’
Mood Mystics – The Winds of Mars
Suicide – Rocket USA
David Bowie – I Took A Trip On A Gemini Spaceship
Tod Dockstader – Piece #1
Outer Space – Escape from Centaurus
Man Or Astro-Man? – As Estrelas Agora Elas Estão Mortas
DMX Krew – Galaxy Love (Brian Ellis Remix)
Chris Kenner – Rocket to the Moon
Flaming Lips – Approaching Pavonis Mons By Balloon (Utopia Planitia)
Prodigy – Out of Space (Breakbeat Remix)
Joe Meek & The Blue Men – Orbit Around the Moon
Elton John – Rocket Man
Spaceboys – Space Is The Place 2003
Monty Python – Galaxy Song
Donald Fagen – Tomorrow’s Girls

Amor, paixão, alegria. E outros estados da alma induzidos por sexo, drogas e rock 'n' roll. Dandy, bon vivant e outros anglicismos que não são para aqui chamados. Pai babado, apaixonado inveterado por tudo o que seja de "agora" mas numa profunda mas recatada admiração por tudo o que "já foi". Europeu com raízes asiáticas numa sôfrega vontade de ter, ser e ver todo o mundo. Music was my first love / and it will be my last

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