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Fossil de James Newitt – Carpintarias de São Lázaro

Num olhar panorâmico poderíamos dizer que este projeto é algo como um t2+1. Composto por um livro, escrito por Newitt nos finais de 2017, uma curta-metragem feita a partir do livro, produzida e filmada em 2019, e ainda um outro vídeo que, atendendo à forma como está exposto e pensado e, considerando a sua relação com os outros dois elementos do projeto, vou aqui equacioná-lo enquanto um género de epílogo ou posfácio – uma última nota sobre o/do todo. Filmado nas Carpintarias de São Lázaro, onde é agora pela primeira vez em Portugal (e na Europa) exibido, Fossil (o filme) é o resultado de uma comissão da Art Gallery of New South Wales para a exposição que se realizou em Sidney, The National 2019: New Australian Art.

Às Carpintarias de São Lázaro, o artista australiano James Newitt traz-nos as duas últimas partes deste seu projeto. No piso 0, num espaço delimitado por umas imensas cortinas pretas, temos a projeção sobre tela de Fossil, o filme; já no piso -1, desprovido das formalidades ou exigências presentes no piso 0, é projetado diretamente na parede e à altura dos olhos, um vídeo em loop.

Fossil retrata um número de (aparentes) exercícios entre um homem mais velho e um outro mais novo. Passado maioritariamente num espaço interior que, apesar do seu aspeto industrial (de alguma forma estático) e emocionalmente seco, aparenta ser o quarto de um deles (ou dos dois), o que vemos no decorrer dos 22 minutos que compõem o filme são diferentes abordagens e aproximações ao que, a determinada altura, conseguimos identificar como um estado de demência ou pós-trauma no sujeito mais velho. A relação entre os dois, apesar de dedicada, não fica em momento algum esclarecida – resta-nos então seguir, enquanto somos guiados por um diálogo (muitas vezes em tom de entrevista) nodoso e apático, as diferentes interações que parecem fazer parte de uma terapia que nunca conhecerá o seu fim – vemos fotografias de coisas e ouvimo-los a nomeá-las (por vezes erroneamente, outras vezes mal pronunciadas), vemo-los a apontar para coisas, a aproximarem-se para imediatamente se afastarem, a serem um só corpo, a serem dois; vemos tensão e afeição, tudo de forma poeticamente inexpressiva e (já) automatizada – um (desaromatizado) constante reprocessar da compreensão e empreendimento do e no mundo – e isto porque a memória esqueceu, a certa altura as imagens começam a surgir pixelizadas, os planos fundem-se, as caras fundem-se, as coisas vão-se desvanecendo e já não existem por inteiro – também nós experimentamos um certo desnorteamento e dificuldade nos situarmos.

Se por um lado o filme é um testemunho de um quotidiano de “co-dependência” onde sucessivamente se manifesta e experimenta a desorientação e a pesarosa e infindável jornada terapêutica por uma reconciliação interior e exterior; por outro, e talvez mais importante ainda, fá-lo, não a partir de uma narrativa “linear” ou tradicionalmente compreendida, mas antes por meio de uma heterogénea trama de nuances – o filme começa e o que vemos são texturas – nos exercícios vislumbramos corpos num ininterrupto jogo de confrontos e cedências; cabeças juntas, lentos bocejares – o tempo entre palavras – suspirares conformados, o repor da saliva, o sonoro limpar dos dentes; o toque, o peso de constantemente rememorar e o arrastar das frases; o ritmo do diálogo e dos dias a passar – “Como te sentes hoje?” – uma e outra vez, até sempre. Até no diálogo se torna mais marcante o modo em que as coisas são ditas do que o texto em si (e também o texto representa o caráter perpétuo desta relação, até por fim se tornar performativo).

No piso inferior o cenário muda de figura, toda a diligência direcionada para o dispositivo é aí, a modos que, desvirtuada: a projeção do vídeo, no fundo da sala, é aqui feita diretamente na parede, de cimento, com fendas, buracos e parafusos esquecidos; o som, ao contrário do que experimentamos no piso de cima, está descentralizado, o que obriga àquele que observa a procurar o melhor posicionamento para em sintonia ver e ouvir. Este vídeo, parte última deste projeto, coloca-nos de imediato à prova, pois são de tal ordem as semelhanças com o filme que somos levados pela sensação de termos acabado de ver tudo o que este vídeo nos mostra; como se Newitt nos quisesse incluir também a nós dentro desta rotina de exercícios, onde temos de com alguma precisão aceder à nossa memória e (re)descobrir os objetos e situações. Não se manifestando obra de desígnio explicativo, o que esta segunda projeção nos dá são ora extensões que podem ou não tornar mais claro uma determinada imagem ou simples alternativas de planos já vistos, incluindo ainda um ou outro plano inédito. Por fim, e aludindo à folha de sala, a intenção de Newitt aqui era a de criar uma “instalação imersiva”, onde pudéssemos experimentar a atmosfera de Fossil.

Em tom de conclusão, há ainda duas situações (ou pormenores) que devemos considerar pois acredito serem relevantes para um outro entendimento (da extensão) do filme. A primeira sendo a inexistência de evidências de passagem do tempo e a segunda o facto de Newitt optar por nomear as pessoas por detrás das personagens de performers em vez de atores. Como já aferimos, o filme não dispõe de uma narrativa sequencial, não há um tradicional desenrolar da ação, principalmente porque não há um encaixe temporal (evidente) que ligue as ações, nem tampouco uma ligação (obrigatoriamente) consequente entre estas. O que vemos são diferentes situações que tanto podem fazer parte de um único dia (ou até de uma só tarde), como podem ter sido hipoteticamente retiradas de um conjunto de diferentes dias. Como anteriormente disse, Fossil é mais o documentar de algo, um testemunho, e não o contar de uma história. Por outro lado, o serem performers e não atores aclara as intenções de Newitt em relação ao que subtrair de Fossil e como este não se encerra na tentativa de comoção em relação à desorientação, falta de memória e/ou doença mental. Tive desde o início do filme essa sensação, de que este iria ser sobre gestos e texturas, e, apesar de com alguma facilidade nos apercebermos do plot – o redescobrir o mundo e como nele operar – estes dois pormenores (entre outros) levam-me a considerar Fossil enquanto um espetáculo pantomímico, onde, apesar de termos a presença (contínua) de vozes e diálogo entre os dois personagens, se expressa e materializa através de uma extensa e palpável malha de gestos.

Para ver até 29 de agosto, nas Carpintarias de São Lázaro, Lisboa.

Rui Gueifão (Almada, 1993), vive e trabalha em Lisboa. Licenciado em Artes Plásticas na ESAD.CR e mestrando em Filosofia-Estética na FCSH – Universidade Nova de Lisboa. Já colaborou com diferentes instituições e espaços dedicados à arte contemporânea, como o Museu Fundação Coleção Berardo, Caroline Pàges Gallery e Galeria Baginski. Tem vindo, desde 2018, a produzir diferentes tipos de textos, já tendo contribuído para publicações e textos de exposições. Desenvolve e expõe o seu trabalho artístico desde 2015.

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