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F+S+T=X de Fernão Cruz, Sara Mealha e Thomas Langley

Foi durante o pico da pandemia que Fernão Cruz, Sara Mealha e Thomas Langley orientaram a sua prática artística para configurar F+S+T=X, uma exposição coletiva, organizada pela plataforma P’la Arte que se encontra em exposição até ao dia 1 de setembro no Prata Riverside Village, em Marvila, Lisboa.

Os vários trabalhos estão dispostos nas paredes, nas colunas e no chão, preenchem o espaço predominantemente cinzento com porções de cor nos mais variados materiais. Sobre ferro, madeira, tecido, papel com spray, caneta em telas, biombos, portas de carros, adagas… num projeto multimaterial e multitécnica, os trabalhos dos três jovens artistas convergem, comunicam e encontram-se num plano de exteriorização da sua experiência “pandémica”.

A contribuição de Sara Mealha para a exposição coletiva encontra-se numa longitudinal linha de desenhos. Saturada da pergunta “E agora?”, que vinha a ocupar os seus trabalhos no período de confinamento, o enunciado foi sublimado e sintetizado em letras que nem sempre formam palavras. Num coeso e singelo jogo de perspetivas, Sara fez uso da cor para preencher letras e espaços tridimensionais numa busca inconsciente pela palavra que emerge deste conjunto de desenhos e que compendia esta exposição: espoir.

Já o agressivo e urbano trabalho do londrino Thomas Langley ganha destaque nas pequenas e nas grandes telas coloradas a spray. Sobretudo nas misteriosas Mummy’s boy, que desde logo interpelam a curiosidade e o estranhamento com o enunciado BUY MUM A HOUSE repetido a letras garrafais em diversas superfícies. Trata-se de uma série de trabalhos que o artista começou a desenvolver durante a sua instância na Royal Academy Schools. Enquanto estudava numa das mais prestigiadas escolas de arte da Europa, a sua mãe ficou sem trabalho e sem casa. E num meio caminho entre rage e healing emergiu esta on-going série de obras que exalam uma sensação de dureza e de simultâneo magnetismo intrigante.

Fernão Cruz apresenta várias obras sobre a fragmentação do corpo, de entre os quais se destacam um biombo e alguns trabalhos em tecido. Selfservice, um pequeno pano verde em forma de quadrado, reflete sobre os limites do corpo humano e do corpo do próprio artista, através de uma inteligível e instigante silhueta humana bordada no têxtil. Nele, uma figura masculina corta-se ao meio com um serrote bidirecional, numa espécie de segmentação ou disjunção que Fernão Cruz diz reconhecer na sua existência: por um lado, uma vertente workaholic, por outro lado, uma noção de autoconsciência dos seus próprios limites.

Em suma, é num amplo espaço não convencional com vista para o rio que as obras dos três artistas coexistem numa espaçada, mas harmónica e complementar exposição coletiva. De alguma forma, todos os trabalhos refletem sobre a palavra “espoir” proposta por Sara, trabalham a noção de baliza e de limite sugestionada por Fernão e comungam das noções de exteriorização e afeção presentes nos trabalhos de Thomas. Num todo holístico, F+S+T=X funciona e funcionará como um testemunho artístico e um futuro arqueológico de uma inolvidável quarentena humanal.

Diogo Graça (1997) vive e trabalha entre Lisboa e Barcelona. Estudou Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e estuda Cinema na Universitat Pompeu Fabra. Com um percurso que passa por locais tão díspares quanto a Galeria Madragoa e a TVI, encontra na escrita e no audiovisual o seu quinto andar, seja sob a forma de guiões para televisão, artigos sobre arte ou short stories.

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