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Arquivo de Destruição, de Pedro Lagoa

A primeira visão de destruição é a de um deus.

Shiva é uma figura poliédrica, de vários rostos, ambígua, por vezes contraditória – pelo menos aparentemente. Shiva dança eternamente sobre o fogo da criação; dança eternamente sobre o fogo da destruição. No ribombar dos tambores atómicos e subatómicos, que colidem e explodem, a vida sucumbe e recomeça, sob uma nova ordem, num ritmo diferente, sincopado, e tempo e espaço fundem-se, confundem-se, fissionam-se. Shiva ergue-se, novamente, para os destruir e reconstruir, uma e outra vez, desde o início das escrituras, desde o início da célula universal, desde o primeiro momento do ribombar dos tambores atómicos e subatómicos, que colidem e explodem em ondas e choques.

Entretanto, noutra dimensão, noutra dessas estórias cosmogónicas que alimentam o espírito e a imaginação, Crio fode Euríbia e ambos concebem o titânico Perses, deus da destruição, pai de Hécate, deusa da feitiçaria, da necromancia, do fogo, da luz, de tudo o que é obscuro, mas não menos apaixonante e mágico.

 

A segunda visão de destruição é a do terror e do terrorismo religioso.

A fúria gritava Allahu akbar e vestia-se de negro. Bandeiras, também elas negras, esvoaçavam nas paisagens áridas do Médio-Oriente, sob as ruínas das ruínas de Palmira. Nuvens de fumo erguem-se ao longe, também elas negras. Homens de rosto seráfico, de tez curtida pelo sol e barba também ela negra e farta, demoliam estátuas, colunas, colunatas, pórticos, templos e restos de uma civilização extinta, mas não esquecida. As estátuas eram empurradas com afã de plintos e tombavam no chão com a inevitabilidade da gravidade, para se desfazerem então em pedaços soltos e, com o tempo, dispersados, embrulhados e sonegados para o tráfico cultural no mercado… também ele negro. Palmira, 2015.

 

A terceira visão de destruição é a de um homem que manda.

O homem ordena, o homem comanda, o homem obedece, com toda a boçalidade acrítica e medrosa que lhe é inerente. Primeiro são as rusgas, os objetos confiscados aos proprietários sacudidos de suas casas, expostos na sua traição desalinhada ao regime ideológico, expulsos, presos e mortos. O que foi confiscado, sobretudo livros, muitos livros – obras clandestinas, impressas à meia luz de um vão de escadas, importadas e contrabandeadas de um país vizinho, traduzidas de uma língua estranha – o que foi confiscado, dizia-se, empilha-se desinteressadamente na rua. 100, 200, 500 livros amontoados em paralelos húmidos e gelados, rodeados de rostos silenciosos e angustiados que se iluminam e contorcem com o cheiro do querosene queimado. Fragmentos de páginas esvoaçam em chamas – frases que já não se vão ler, outras que ficaram por ler e outras ainda que já só restam na memória de quem as leu. Os ritos do mal, da purga cultural – o genocídio cultural –, completava-se. Granada, 1499; Qin Shi Huang, 213 a.C.

 

A décima visão de destruição é a da natureza indiferente ao homem.

Treme a terra sob as patas do cavalo, que até então trotava pelas ruas incertas de Lisboa. Depressa saracoteou o soldado que carregava abnegadamente, deixando-o cair com violência no chão, pra desatar a galopar nervosamente. “Fuck this shit”, pensou o cavalo. Atrás de si, a terra abria-se, os edifícios ruíam, as campânulas e os sinos das igrejas troavam em delírio, e as pessoas morriam antes de conseguirem gritar pelos seus. Lisboa, 1755.

 

A vigésima visão de destruição é a da política do mal e a da destruição socioétnica.

Entrou no campo e trabalhou até o corpo ser um décimo do que fora. Acordou e juntou-se numa sala apinhada de outros prisioneiros, que se ia completando com crianças entre as pernas dos adultos. O espaço era otimizado com corpos, até à altura do pé-direito. A última memória que levou para a morte era a de um cheiro insuportável.

Noutras estâncias, Natasha morria congelada porque não honrara o trabalho.

Alemanha, 1933-1945; União Soviética, 1932-1933.

 

A última visão de destruição é a do arquivo que destrói os pressupostos da própria destruição.

Arquivo de Destruição é uma constelação de imagens, excertos, documentos e ficheiros que retrata o paradoxo de arquivar aquilo que supostamente vai contra a sua missão mnemónica e cultural, perene e inalienável.

Neste arquivo digital, sempre cumulativo, Pedro Lagoa deambula sobre as várias metáforas e contornos da destruição: da destruição libertadora – fogo fátuo que solta no ar e ascende – à destruição gratuita e pérfida pelo homem; da destruição de pendor ideológico à destruição cataclísmica e natural. Nas entrelinhas desse documento que se vai coligindo paulatinamente a cada deslizar, vemos uma série de falhanços: as utopias socialistas, o comunismo, mas também o positivismo e a crença de que o homem é aperfeiçoável.

E se controlar um arquivo é ter poder sobre a história e as várias narrativas históricas, sobre a forma como se escreve, que significa deter o poder de um arquivo de destruições? Pela forma aberta e expansiva do projeto, Lagoa mostra como a destruição é um fenómeno que a todos pertence, porque todos guardamos em nós o gérmen da destruição. Confrontarmo-nos com este arquivo é rever os limites da vontade humana, para o melhor e para o pior – a utopia que nasce e é varrida pela incúria, pelo laxismo, a arrogância ou a perfídia. Dizia Jacques Derrida que “não existe poder político nem o controlo do arquivo”. O que este projeto nos mostra, até pelo recurso à tecnologia tendencialmente democrática do digital, é que estamos no pleno poder, na plena posse deste arquivo. Ou seja, estamos na plena posse da nossa destruição. Reclamá-la poderá constituir um impedimento para uma pulsão que tanto tem de natural como de cultural ou social.

Lagoa não esquece, todavia, a destruição enquanto ato criador e o seu contributo conceptual para a arte moderna e contemporânea. Deste modo, o projeto inclui também uma historiografia desinteressada da arte através da destruição, com as experiências do Fluxus, a pintura com fogo de Yves Klein ou a viragem operada pelo ruído na música moderna, com o vinil queimado de Milan Knízák ou o ambiente sonoro Wave Terrain, de Zbigniew Karkowski.

Arquivo de Destruição não obedece, contudo, ao ritual taxonómico, catalogador e burocrático dos arquivos habituais. Libertando-se desta vertente compulsiva e regrada, este arquivo presta-se muito mais à deambulação e à errância visual. Perdemo-nos em sucessões destrutivas e perdemo-nos também na memória, entre a melancolia e a incredulidade, o pessimismo e o otimismo. Nesta perspetiva, a obra de Pedro Lagoa é, do ponto de vista emotivo e poético, muito mais eficaz que o edifício arquitetónico e o ritual processual que os arquivos e as instituições compreendem. Aqui, facilmente percebemos a relação ambígua que o homem tem para com a destruição, para com a memória e o esquecimento, para com o próprio homem e a natureza, mas também para com a fetishização do arquivo e dos respetivos tropos.

Outra visão ainda de destruição: aquela que não se vê, que não tem imagem, som e texto.

Arquivo de Destruição, de Pedro Lagoa, é uma comissão da Culturgest, com a curadoria de Bruno Marchand. Até 30 de setembro.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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