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Entrevista a Guillermo Anselmo Vezzosi

Hoje em dia, toda a gente, em todo o lado, em todos os momentos, está – ou parece ou quer estar – “conectada”. Embora a humanidade tenha agora mais meios do que nunca para alimentar a conexão, os últimos meses de confinamento mundial mostraram que muitos de nós estão solitários e facilmente “desconectados”: desligados de nós próprios, das nossas famílias, dos nossos amigos, da natureza, do nosso passado, do nosso futuro, do mundo em que vivemos.

O arquiteto e artista Guillermo Anselmo Vezzosi encontrou formas fascinantes de conectar pessoas, superfícies, espaços, dimensões e tempos. Ele conecta caos e ordem, ciência e natureza e arte, tudo de uma forma bastante singular. As suas belas esculturas de fibra de alumínio de cor recusam-se a obedecer às leis das dimensões e do confinamento, recordando a alguns espectadores uma representação de ADN ou veias sanguíneas. No meu caso, faz-me lembrar a paisagem das raízes de uma árvore, aquilo a que o autor Peter Wohlleben apelidou de Wood wide web.

 

Amélie Eise – Guillermo, quando e como é que o arquiteto se tornou um artista e porquê?

Guillermo Anselmo Vezzosi – Encontro na arte a liberdade que ainda não encontrei na arquitetura. Julgo que tudo começou com uma simples linha de tinta sobre um papel. Depois disso, senti que a extremidade da superfície onde estava a desenhar era um limite. Quis quebrá-lo. Crio obras de arte modulares, feitas em papéis diferentes, onde podemos interagir com estes, mudando a posição e fazendo sempre com que as extremidades estejam interligadas. Foi um começo interessante.

Iniciei essas obras obedecendo às indicações de Luis Felipe Noé, mestre de artes visuais na Argentina, e parte do movimento neofigurativo. Foi ele quem guiou o meu trabalho, o qual dependia ainda do apoio de uma superfície, como a tela ou o papel. Um dia, percebi que queria libertar o meu trabalho das fronteiras destas superfícies. Quis que fosse este a decidir que caminho seguir, mostrando-me novas direções. Depois, pensei na relação entre público e obra de arte. Quis saber onde colocaria o primeiro. Havia duas opções. A primeira era deixá-lo estático. A segunda era incutir-lhe movimento, conexão. Por exemplo, pedi a invisuais que experimentassem as minhas instalações. As reações foram hipnotizantes.

AE – Creio que as suas instalações resistem às limitações de ter um início e fim. Será isso voluntário? Se sim, porquê?

GAV – Sinto-me grato por esta pergunta, pois ajuda-me a refletir sobre as minhas obras de arte. Posso ter uma ideia, algo que me leve a começar. Mas, no fim, o trabalho diz-me para onde ir. Talvez seja o universo a fluir através de mim, tentando comunicar estas ideias. Qual músico que obedece às ordens do maestro. Tudo está conectado e somos parte de algo que desconhecemos.

AV – As suas instalações são uma espécie de mapa, uma nova forma de “rizoma”? Ou, melhor, uma ponte entre a natureza e a arte? E as suas instalações estão interligadas? Há uma cronologia?

GAV – Julgo que são como vestígios, como o vestígio de tudo o que poderia ou não estar lá noutra época. Se tentarmos pensar nas raízes, podemos gerar relações entre as macro e as microescalas e podemos descobrir que as nossas veias são como as raízes de uma árvore. Talvez isso nos ajude a perceber que as veias são partes de uma pequena floresta que vive dentro de nós, convidando-nos a pensar sobre as relações entre todos os seres vivos na Terra. Somos parte de um sistema onde a educação nos faz pensar na natureza como algo separado de nós. E isso é mentira, talvez a maior de todas. A natureza está dentro e fora de nós.

AE – A sua instalação Memories from another Earth na Galeria Luisa Catucci, em Berlim, conecta a natureza (uma árvore na rua) à arte (a galeria) e ao espectador normal que por ali passa. Será esta uma forma lúdica de envolver as pessoas e de as atrair para outro mundo, fazendo-o logo na rua?

GAV – Este projeto faz parte de uma das minhas maiores ideias para fazer arte em locais inesperados. A forma como nos ligamos à arte tem sido sempre mediada. Vivemos em sociedades onde o acesso à informação tem sido sempre controlado e gerido pelas estruturas estabelecidas. Se eu basear este conceito nas experiências locais da Argentina, posso afirmar que as relações entre arte e pessoas estão sempre sob controlo e gestão de organizações estabelecidas (museus, galerias de arte, etc.). Essa é uma das razões pelas quais nem todos podem ter acesso às artes. É hora de mudar a forma como a arte se conecta às pessoas. As artes podem encontrar as pessoas na vida quotidiana, surgindo em locais inesperados – como o graffiti –, conectando-se e ajudando a quebrar os limites que as separam da cultura. Talvez essa seja uma das razões pelas quais o graffiti é tão poderoso: não é preciso ir a um lugar confinado para o desfrutar, nem é necessário usar roupas bonitas na abertura. Estas cerimónias têm, de forma indireta, gerado barreiras entre as artes e as pessoas. Nós, como artistas, temos de trabalhar para quebrá-las.

AE – De que forma as suas instalações podem / conseguem criar e promover a proteção da natureza?

GAV – As minhas instalações baseiam-se em estudos científicos sobre as consequências na natureza do aquecimento global. Comecei a trabalhar no desaparecimento de árvores em 2015, na Primeira Bienal Internacional de Asunción, no Paraguai. Decidi criar e promover a proteção da natureza através de instalações que representam a ausência do que está a desaparecer diariamente, enquanto estamos imersos nas nossas rotinas. A maioria das minhas instalações foi feita em locais públicos, para lembrar às pessoas quão devastadores podem ser os danos provocados pela ação humana na natureza. Estou também preocupado ao notar que o aquecimento global aumenta o processo de derretimento dos polos, fazendo subir o nível do mar em todo o mundo. É necessário confrontar as pessoas em locais neutros, não em museus.

AE – O tempo e a sua perceção parecem ser fatores importantes no seu trabalho. As suas instalações são intemporais no design e no material. Mas apenas existem enquanto são expostas. O que acontece depois?

GAV – Tal como nós, humanos, tudo terá de desaparecer. Somos vítimas do tempo. Costumávamos acreditar que tudo teria de durar para sempre. É por isso que tentamos sempre lutar contra o tempo. Renegamos os nossos corpos biológicos, sem perceber que estes foram feitos para envelhecer e desaparecer. É talvez um dos maiores problemas do nosso tempo. Estamos todos mais interessados em preservar a carne do que a alma. Sinto que as minhas instalações têm de ser como nós. Ao medrarem, têm de estar conscientes de que desaparecerão. Só assim podem falar sobre a vida e de como tudo se transforma. Utilizo o mesmo material de forma diferente no próximo projeto. Duvido que seja necessário preservar uma pintura para sempre. Não quero ser contra a cultura e tudo o que esta representa. Contudo, é um reflexo das nossas sociedades, onde estamos sempre a tentar preservar o que o tempo muda naturalmente.

AE – Além disso, títulos da sua obra, como topography of chaos and topography of an uncertain future, e a sua busca pelo papel do homem (não só no tempo, mas também no cosmos) sugerem a procura de um caminho. As suas instalações são “direções” para conectar passado e futuro, natureza e tecnologia?

GAV – Obrigado uma vez mais pelas excelentes questões. Julgo que sim, e gostaria que orientassem as pessoas, levando-as a encontrar novas direções. Gostaria que as pessoas me ajudassem a segui-las, rumo a novos horizontes. Estou sempre a falar do tempo como algo não-linear. Os meus livros favoritos são sobre ciência. Leio muitas teorias de Stephen Hawkings e Fritz Albert Popp. Sinto uma enorme ligação com o seu trabalho.

AE – Guillermo, subscreveu o TreeToo Manifesto. Porquê? Conte-nos mais sobre as suas razões e o que pensa que pode ser alcançado.

GAV – Conheci Etienne Verbist e o seu movimento TreeToo e o respetivo Manifesto no Facebook. Encontrámos imediatamente um objetivo comum. São necessárias ações como a de Etienne para conectar e espalhar a mensagem. Etienne pensa como uma árvore, onde as raízes brotam em todas as direções… Sinto-me grato por esta oportunidade, onde posso unir a minha voz a algo maior. Precisamos das vozes de todos para rumar a novas direções. TreeToo é um projeto aberto, onde podemos partilhar ideias e trabalhar em conjunto, mesmo que estejamos em países diferentes. Fazemo-lo em ações colaborativas, onde trabalhamos à distância, mas sempre conectados. Tal como a Natureza, somos uma vasta rede de compromissos.

Nascida em 1973, como filha de diplomatas alemães, Amélie Eise tem vivido em vários países com o objetivo de os explorar na maior diversidade de ângulos possível. É cientista política de formação, trabalhou como jornalista para a German TV e para a Bloomberg TV, trabalhou em investimentos bancários e tornou-se gestora de projetos para uma reputada fundação ambiental alemã. A arte é a sua paixão desde criança, com forte inclinação para a pop art. A aprendizagem e a continuação do seu espírito crítico são a sua principal motivação.

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