Top

Apesar de não estar, estou muito – Diogo Jesus na Galeria Municipal do Porto

Apesar de não estar, estou muito exposição individual de Diogo Jesus, com curadoria de João Ribas, patente na Galeria Municipal do Porto até 16 de agosto de 2020 reúne a produção prolífica do artista, desde os 16 anos (2007) até à atualidade.

Desenhos, textos, banda desenhada, música, fanzines, cartazes, fotografias, vídeos, cadernos de artista e muito mais. Expressões catárticas do autor, sob vários pseudónimos como Rudolfo, DJ Nobita ou M. Ryle. O universo caótico, obsessivo e autobiográfico de Diogo Jesus está espelhado pelo espaço expositivo, onde nos revemos, devido às referências à cultura popular, à internet, aos videojogos, aos desenhos animados, a concertos e a desabafos existenciais irónicos, com um forte gesto contemporâneo e um olhar atento sobre uma certa realidade da cidade do Porto. De acordo com a folha de sala: “Nos seus desenhos e bandas desenhadas, o seu elenco de pessoas, mutantes, alienígenas e tudo o que se encontra pelo meio proporciona um incessante comentário sobre questões como a criatividade, o género e a masculinidade, e as condições de produção de arte, simultaneamente desafiando os limites do livro de banda desenhada.”

Diogo Jesus fez o seu primeiro fanzine alto e pára o baile! (2007) quando estava a estudar na Escola Secundária Artística Soares dos Reis. Contudo, poucos anos mais tarde começa a ser publicado pela Chili com Carne e a colaborar com Marcos Farrajota, Nathan Williams e Matt Barajas, ou Riccardo Balli. Nos anos 2014/15 lança a revista Molly onde e citando o autor: “Maior parte das histórias são autobiográficas”. Precisamente, ao longo da retrospectiva encontramos narrativas que remetem para a sua vida e para as suas influências, das quais destacamos Shinobi Gaijin (2011) que segundo o autor: “é uma paródia consciente. Uma personagem obcecada por cultura japonesa, manga, anime, joguinhos. Uma forma de mostrar os meus interesses, mas absurdamente.” Ressalvamos ainda Possível alternativa de carreira (no caso da banda desenhada nunca dar em nada) nº000033: SEPPUKU (2014) inspirado numa fotografia de Yukio Mishima, onde dá um golpe em si mesmo com a sua espada de samurai e Sliced nightshift (2018) uma abordagem cómica de quando o autor trabalhava num Hostel à noite.

A grande produtividade de Diogo Jesus, refletida justamente nesta exposição, está embrenhada de música, pela disposição de discos, cassetes e vídeos de concertos, cujo som reverbera pelo espaço expositivo. O autor confessa que “mesmo quando não faz música acaba por estar ligado à área fazendo os cartazes, os grafismos, capas de discos, merchandising, t-shirts, e muito mais…” Dos quais enfatizamos os cartazes realizados no âmbito da residência Dorayaki Express (2018), no Cafe Au Lait no Porto, onde fazia a programação e passava música, enquanto DJ Nobita.

O cerne da exposição são as histórias de Musclechoo, figura à qual o artista gosta de pensar, como sendo a sua Mônica, pois é recorrente nas suas narrativas. O autor reconhece que “é mais uma personagem que acaba por ter bastantes coisas minhas, mesmo sendo num contexto completamente ficcionado”. Musclechoo surgiu em 2011, para que o artista se libertasse das ansiedades de um trabalho mais estruturado, acabando por se tornar “uma reflexão sobre a cultura dos videojogos, em que o personagem só quer estar a jogar, longe do contexto violento onde é esperado que ele esteja. E que acaba por ser de certa maneira uma paródia a tudo aquilo que se espera de um homem, dentro dessa ideia preconcebida de masculinidade.”. Em 2018 prossegue as mesmas reflexões, pelo meio do seu novo pseudónimo M. Ryle surgido da mesma necessidade de improvisação. Nestas séries de desenhos utiliza a abstração, para revelar figuras robóticas transfiguradas, contrariando a ideia de possuírem uma forma humanoide, uma maneira de falar sobre “fluidez de género e do seu próprio desejo de ás vezes querer ser uma pedra, ou qualquer outra coisa, não ser sempre o Diogo, mas também o Rudolfo”.

Annie Martins (Porto, 1990) cofundadora do Coletivo de curadoria Hera, é mestranda em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP. Igualmente foi investigadora do Projeto CHIC apoiando na integração de Filmes de Artista no Plano Nacional de Cinema e no Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses. Licenciada em Cinema pela ESTC do IPL (2007-2010) e em Gestão do Património pela ESE do IPP (2013-2017) colabora como Diretora de Arte em ficções e programas de televisão, assim como começou a escrever para a revista Umbigo.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €24

(portes incluídos para Portugal)