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A man should always have an occupation of some kind – Fernando Brito no Sismógrafo

A mais recente exposição de Fernando Brito (Pampilhosa da Serra, 1957), A man should always have an occupation of some kind, patente no Sismógrafo até 01 de agosto de 2020, com curadoria de Óscar Faria, convida ao confronto com a História da Arte ocidental, ao questionamento da ideia de autoria e à reflexão sobre a dicotomia entre realidade e ficção, com humor e ironia na apropriação de linguagens, como de Marcel Duchamp, Louise Bourgeois, Pablo Picasso, Man Ray ou Jeff Koons.

O título que dá nome à exposição foi retirado da peça de teatro A importância de ser prudente (1985, Londres) de Oscar Wilde, uma tragicomédia, que dá o mote à mostra de Fernando Brito. As várias práticas artísticas em exibição foram realizadas durante o período de duas décadas e constituem três grupos, que se distinguem pela reinterpretação de obras de arte significativas do modernismo e do pós-modernismo, uma série de pinturas associadas ao expressionismo abstracto alemão e um conjunto de ilustrações para o livro “A civilização Budonguiana”.

Óscar Faria no texto sobre o projeto expositivo esclarece: “Podendo ser lida como uma farsa, a exposição propõe uma reflexão acerca da arte enquanto jogo linguístico. Ao remeterem para outros contextos, reais ou ficcionais, os objetos instalados no Sismógrafo funcionam enquanto signos, cujos significantes e significados se vão revelando a partir de uma gramática onde surgem amiúde as palavras cópia, edição, ironia, apropriação, pastiche, vanguarda, neo-vanguarda, modernismo, mimese, ready-made, etc.” Precisamente, no particular espaço expositivo da galeria, com paredes brancas e chão forrado a tapete vermelho, destacam-se Roda de Bicicleta (2007) ao contrário num banco de madeira, Rainbow SE (2015) um aspirador em caixa de vidro acrílico com um sistema de nove lâmpadas, Secador de garrafas (2015) em plástico vermelho e cinzento, Viúva (2020) estrutura vertical em perfil de alumínio, Cabeça de touro (2007) selim e guiador de bicicleta e As tentações de Santo Antão (2020) três ferros de engomar com espetos metálicos. Contudo, ainda ressalvamos Papa (2020) uma mesa em tricapa de bétula onde estão expostas Pinturas alemãs (2020) e 69 ilustrações para o livro “A civilização Budonguiana” (2016-19) surgida há cerca de seis mil anos.

Fernando Brito, licenciado em Artes Plásticas – Pintura pela ESBAL (1983) foi membro convidado do grupo Homeoestética (Portugal, Proença, Ivo, Vieira, Xana) a partir de 1985. A sua integração no movimento artístico, surgido em Lisboa no início dos anos 1980 é fundamental para a compreensão da sua prática artística, pelo uso do humor como crítica, pela atitude marginal de influência Dadaísta e pela prática da antropofagia, ou seja, pela utilização livre da linguagem de diferentes artistas. No documentário 6=0 Homeoestética de Bruno de Almeida, com texto de Jorge Ramos do Ó somos elucidados que “A focalização em Budonga, uma metáfora totalmente absurda, permite compreender melhor a lógica de auto- partilha do grupo. O conceito surgiu numa anedota que falava no sacrifício e da morte por violação anal. No dicionário homeoestético, Budonga passou a significar o processo de troca automática e a mecânica da inventividade do movimento. Budonga seria esse lugar sonhado, em que cada um utilizava livremente a imaginação dos outros. (…) Budonga serviu também de nome para uma cidade mítica supostamente anterior à civilização mesopotâmica.”  Portanto, a série de ilustrações referidas anteriormente realizadas entre 2016-19 continua, de certa forma, o legado homeoestético no trabalho de Fernando Brito, igualmente visível ao longo de “A man should always have an occupation of some kind”. O artista na inauguração explicou que “O Budonga surgiu numa novela que fiz com o Pedro Proença de 18 páginas nos anos 1980”.

Por último, ainda salientamos a folha de sala da exposição, com o primeiro ato de uma peça de teatro que coloca Fernando Brito em diálogo com as peças em exibição, com humor e ironia.

Annie Martins (Porto, 1990) cofundadora do Coletivo de curadoria Hera, é mestranda em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP. Igualmente foi investigadora do Projeto CHIC apoiando na integração de Filmes de Artista no Plano Nacional de Cinema e no Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses. Licenciada em Cinema pela ESTC do IPL (2007-2010) e em Gestão do Património pela ESE do IPP (2013-2017) colabora como Diretora de Arte em ficções e programas de televisão, assim como começou a escrever para a revista Umbigo.

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