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A estetização do arquivo, Materials Lab de Fernanda Fragateiro na Appleton

Chamemos-lhe estação de trabalho ou laboratório de materiais, Fernanda Fragateiro no espaço square, da Appleton, encena relações entre diferentes ferramentas de trabalho que comumente habitam os ateliers de artistas: veem-se livros, esboços; um pequeno desenho de um padrão desencadeia repetições e tentativas; identificam-se variações de trabalhos anteriores e referências a outros artistas – On Kawara, por exemplo, que neste contexto se transforma num mero material com qualidades físicas e conceptuais específicas, à disposição da artista. À medida que deambulamos por este arquivo, encontramos destroços e restos de matérias distintivas do trabalho de F. Fragateiro, organizadas no interior de caixas como se de um registo arqueológico antecipado se tratasse.

O atelier enquanto obra, a pesquisa enquanto finalidade, a exposição enquanto processo de investigação. Um projeto que se posiciona num terreno ardiloso, que ora quer ser instalação, invadindo o campo da tradição da escultura (e não só), ora parece afirmar “sou nada, obra em potência, não consumada”, e que se alimenta e defende pela sua ambivalência. Materials Lab situa-se entre existir ou não enquanto obra; e é sintomática da estetização do pensamento, do encanto atual pela imagem inacabada do work in progress.

Recordo que Boris Groys diz que no arquivo se colocam as coisas importantes para uma cultura, ao passo que todas as outras permanecem no espaço profano. De certa maneira é daí que parte o jogo proposto por Fernanda Fragateiro em Materials Lab, quer por concordância quer por contradição, à semelhança do que já tinha feito numa das salas do Maat, em 2017. O arquivo enquanto caixa-forte, das coisas sagradas, mas simultaneamente veículo de uma experiência estética. Pois a instalação – chamemos-lhe assim – apresentada na Appleton não se trata mais de um lugar de acumulação (de ideias), do que de um dispositivo que desempenha uma “função” teatral, próxima da reconhecida no minimalismo.

A propósito, ouvi B. Groys afirmar numa conferência que o principal problema da arte conceptual foi ter sido sempre mal interpretada. Tanto artistas como críticos reivindicaram a superioridade da linguagem face à imagem. Esquecendo-se que a linguagem só deixa de ser imagem para aqueles que se encontrem munidos dos códigos necessários: o trabalho de Kosuth não pode ser sobre linguagem para alguém que não entenda inglês. Digo-o porque em Materials Lab proliferam documentos históricos, revistas e livros, que também a mim me surgem despidos de significados; não os leio (nem sinto que sejam para ler) vejo-os apenas como volumes: retângulos de diferentes cores que interagem com outros retângulos (os das caixas, por exemplo), criando grelhas e composições formais – a escultura, a pintura e a arquitetura, sempre. No seguimento da ideia de B. Groys, não entendo este trabalho de F. Fragateiro sob a perspetiva da singularidade dos diversos objetos arquivados, mas antes como um ensaio visual a partir da experiência física de um arquivo. A atração humana pela arrumação do mundo em caixas, pela catalogação e pelo impulso conservacionista que se revela no interior das casas, dos ateliers e no olhar sobre a natureza, e que desde a segunda metade do século XX tanto seduz os artistas.

Uma estetização do pensamento, que faz das ideias imagens.

Para ver até dia 31 de julho, na Appleton, em Lisboa.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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