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Yoko Ono: O jardim da aprendizagem da liberdade

Há um antes e um depois de uma exposição de Yoko Ono. A criação da artista é transformadora não só dos espaços em que se instala, como do espectador que interpela. As suas palavras e imagens, os seus discursos e ações plásticas confluem numa imensa aura, cuja intangibilidade não a coíbe de se expandir e transferir infinitamente. Apresenta-se um jardim da aprendizagem de várias áreas, da arte e da filosofia, mas também da política e da moral. É o jardim de Ono, para o qual se abrem as portas, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves.

Inaugurada no passado dia 30 de maio e passível de ser visitada até dia 15 de novembro, a mostra consiste na primeira retrospetiva de Yoko Ono em Portugal, com curadoria do diretor do museu, Philippe Vergne, e de Jon Hendricks, habitual comissário das exposições da artista. O projeto foi concebido propositadamente para a ala esquerda do museu, agora integralmente ocupada por um forte, extenso e diversificado conjunto de obras. Abrangendo desde o início do percurso artístico de Ono, década de 50, até ao presente, inclui algumas criações novas e inéditas, inúmeras pinturas e objetos dos anos 60, múltiplos vídeos realizados com John Lennon e a projeção de performances de momentos distintos da sua carreira que, deste modo, são reativadas.

A exposição é uma oportunidade excepcional de travar conhecimento com um trabalho que, sendo atravessado por uma perceptível e singular linha criativa, é, ao mesmo tempo, profusamente híbrido. Com efeito, trata-se de uma obra que não se limita por meios e expressões, sendo impressionantemente heterogénea, aberta e experimental. É caracterizada por uma estética minimalista, que contrasta com um conteúdo denso, ambos conjugados por via de uma sublime execução que encadeia obra em obra, numa harmonia notável. Com efeito, Ono demonstra um raro à-vontade com as mais diversas práticas e expressões e uma elevada profundidade conceptual, assim se afirmando como uma das artistas mais completas da contemporaneidade.

Para compreender e experienciar plenamente a obra de Yoko Ono requer-se conhecer a própria tanto enquanto artista como mulher. Sendo inevitavelmente relembrada a sua história com o grande ícone dos Beatles, bem como tudo o que isso implica, é necessário contemplar a artista e o que ela própria representa. Ono é criadora, poeta, compositora e ativista, evidenciando-se a luta ininterrupta, incansável e amplamente vocal em defesa das mulheres e da paz. As problemáticas culturais e sociopolíticas são as suas principais motivações, de onde transcorrem os manifestos que apresenta e, de um modo intuitivo, a grande maioria das suas criações artísticas.

É uma das artistas mais relevantes do seu tempo, que é extenso, considerando os seus 87 anos de vida, durante os quais, como refere a curadora Alexandra Munroe[1], foi “precursora de novas formas artísticas, que cruzam e expandem os diferentes meios”, com um “estatuto de insider/outsider em movimentos artísticos contemporâneos, como o conceptualismo”. Não se situando particularmente a par de uma determinada tendência artística, Ono foi das pioneiras na ruptura do protagonismo da objetualidade, em benefício da centralização do conceito, próprio da arte conceptual. De igual modo, pode considerar-se que se enquadra no linguistic turn dos anos 60, decorrente das suas ações inovadoras no campo da comunicação e da arte, sendo a relação e a interdependência entre o discurso e a ação transversais ao seu trabalho. Inúmeras obras veiculam ideias a ser tomadas e completadas pelo espectador, algo que Yoko Ono iniciou em 1962 com a peça Instructions for Paintings, em Tóquio, recriada múltiplas vezes ao longo dos anos e da qual alguns exemplares se encontram atualmente expostos em Serralves. Destaque-se também a série de telas e placares distribuídos entre o edifício e os jardins do museu, através dos quais a artista clama Imagina, Relembra, Alcança, Voa

Tais inovadoras propostas artísticas, bem como a afirmação da impossibilidade de dissociar a arte da vida, ligam Yoko Ono a alguns artistas como o grupo Fluxus e Joseph Beuys, com os quais colaborou, ou John Cage, sua referência contínua. Porém, a artista destaca-se dos demais, considerando as suas sensibilidade e estética orientais provenientes dos seus repertórios culturais e princípios budistas, ambos articulados com um expresso interesse pela filosofia ocidental do séc. XX.

Acrescente-se ainda que Yoko Ono revela uma distinta consciência do espaço e da arquitetura, projetando magníficas instalações, desafiantes fisicamente e admiráveis esteticamente. Isso mesmo se comprova na atual exposição, pautada por jogos espaciais, visuais e perceptivos que proporcionam experiências receptivas absolutas, tão mentais quanto físicas. Incitando o espectador a uma relação próxima e íntima com as obras, a artista convida-o a uma intervenção ora livre, ora conduzida por orientações específicas. Propõe-se, assim, produzir arte com Ono, até porque, como a própria defende, “qualquer pessoa a pode fazer”[2]. Ademais, algumas obras somente se concretizam por meio da participação do público, caso de Wish Tree (1996/2020), oliveira situada no relvado próximo à entrada do museu, que “crescerá” a cada desejo que nela for afixado. Também se releva Arising (2020), no final do percurso expositivo, no âmbito da qual, meses antes da inauguração, Serralves enviou uma convocatória em nome da artista para testemunhos de mulheres que tenham sofrido por desigualdade de género. O resultado expõe-se com a força de um conjunto de figuras anónimas, das quais somente são revelados os seus olhos e histórias. Deste modo, sendo a obra pensada pela artista, materializa-se integralmente por quem nela participa.

Nascida em Tóquio em 1933, Yoko Ono foi para Nova Iorque em 1953, cidade onde acabou por se fixar. Frequentemente viaja para Viðey, ilha na Islândia, onde tem uma instalação permanente desde 2007, Imagine Peace Tower. Agora, é à entrada de Serralves que se lê Peace is Power, mensagem à qual se seguem inúmeras outras, distribuídas pelo museu, que vão adquirindo novos sentidos consoante os vários contextos, caso de Breathe (Respira), cujos sentidos e carga simbólica se alteraram drasticamente nas últimas semanas.

É através de um cartaz de autoria partilhada entre Ono e John Lennon, que se exclama War is Over! If you want it!, mensagem importante de reiterar no presente, tempo em que urge tomar posições, refletir sobre o mundo em que habitamos e (re)educar, tanto a nós mesmos como aos outros, principalmente às novas gerações. Revela-se, pois, fundamental aderir ao que Yoko Ono nos instiga no sentido de um futuro mais justo, igual e livre.

[1] In O espírito de SIM: A arte e a vida de Yoko Ono, texto concebido no âmbito da exposição.

[2] Citação de Yoko Ono no texto roteiro da exposição.

Constança Babo (Porto, 1992) é licenciada em Fotografia pela Escola Superior Artística do Porto e Mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Conta já com um relevante número de textos críticos, maioritariamente publicados na revista online ArteCapital, desde 2015 até ao presente, com alguns textos de folhas de sala relativas a exposições em galerias, assim como com a produção de press releases. A par do trabalho de escrita, dedica-se, igualmente, ao trabalho fotográfico de exposições e eventos de arte.

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