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Resposta Aberta: Rafał Pierzynski

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Rafał Pierzyński (1991, Polónia), faz performances e colagens queer. Concluiu a formação em Dança de Palco, Estudos de Movimento e Performance na IDA, A.B.P.U. de Linz, com o projeto de investigação de mestrado intitulado Comunicação Incorporada – considerando as formas de toque. O contato com os seus aspetos físicos, sociais, feministas e queer tornou-se o contexto para as suas amplas explorações e o epicentro do seu trabalho. Em tempos de confinamento e colapso à escala global, o trabalho de Rafał Pierzynski assume uma dimensão totalmente nova. A residir em Zurique, o artista performativo e dedicado à colagem explora o toque como uma modalidade primordial de estar no mundo, um vetor que transcende a separação entre o corpo e a mente. É essencial amar, cuidar, e a desconstrução da naturalidade das nossas representações do nosso corpo. Para Pierzyński, o toque é fundamental para a nossa sobrevivência. ~ La Fête Du Slip 2020. Ver: www.rafalpierzynski.com.

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articulas a tua resposta no discurso público? Qual é o teu papel nesta conversa mais ampla?

Rafał Pierzyński – Fico atento. Tento escutar, numa tentativa de nada fazer, desfazer ou criar espaço para que o coletivo possa falar. Partilho a minha experiência e tenho curiosidade em saber como isto está a ser visto pelos os outros. Para tomar nota das minhas reflexões após algumas semanas de crise, escrevi um pequeno texto e fiz um vídeo que evoluirá para um trabalho maior no próximo ano.

JB – A tua prática artística mudou com o isolamento?

RP – Ainda está a mudar à medida que a situação se altera. Infelizmente, julgo que estávamos já numa crise antes da pandemia, e os meus trabalhos anteciparam-na de uma forma estranha, mas ainda assim sinto-me bastante afetado por esta realidade.

JB – Como é que a tua capacidade de produção foi afetada pela pandemia?

RP – Em primeiro lugar, foi interrompida subitamente, mas tudo acabou por correr bastante bem. Não tenho estatuto legal de artista, pelo que não pude reclamar qualquer apoio, mas, felizmente, fui pago pelas minhas performances canceladas e tenho tudo o que preciso para viver de momento.

JB – Qual é a tua abordagem à colaboração neste momento?

RP – Estou num estado de curiosidade, mas mantenho os pés no chão. Tenho um óbvio interesse pelo dinamismo local devido à restrição imposta às viagens; mas, o remoto, o online, e o transitório tornaram-se subitamente materializações e corpo-virtuais.

JB – Como definirias o momento presente, metafisicamente/literalmente/simbolicamente?

RP – Tocar a ausência do toque. Sinto que a consciência coletiva e global do outro está a aumentar. Os espaços entre nós são densos. Estamos a aprender que há uma ligação entre todos. Que na realidade somos apenas um organismo. As dificuldades existem, mas momentos queer acrescentam potencial à revolução.

JB – Vês potencial para um apoio renovado à produção cultural, apesar de as macro e microeconomias estarem atualmente em rápida reestruturação?

RP – De certa forma, já está a acontecer. Vemos uma reação rápida, solidariedade e criatividade na procura de novos formatos e maneiras de continuar os processos criativos e de proporcionar um espaço para a conversa e o intercâmbio. Neste momento, também tenho muita sorte e sou privilegiado por viver na Suíça. Receio, contudo, que no caso de uma segunda vaga, as possibilidades financeiras e as performances ao vivo sejam ainda mais escassas.

JB – E.M Cioran escreve: “em grandes perplexidades, devemos viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como respondes a esta proposta?

RP – Acho que estamos no momento certo para sermos serenos connosco próprios, com os outros e com o planeta. Há recursos suficientes para enfrentar os monstros da realidade, mas a questão para mim é: estamos dispostos a confiar e a partilhar?

JB – Como é que este período está a influenciar a tua perceção da alteridade no geral?

RP – A realidade tal como a conhecemos chegou ao fim. Desabou e estamos a vivenciar a transição para uma outra. No processo de compreender o outro, bem como de experimentar a alteridade dentro dele, acredito também no poder que advém do contato: materializado em todas as nossas diversidades. Isto à luz da pandemia, mas também, ou especialmente em relação à enorme mobilização e protesto, ao combate ao racismo e ao movimento #blacklivesmatter. Além disso, influenciado também pelas as eleições presidenciais no meu país natal, Polónia, pelas probabilidades nacionalistas e pela narrativa contra as pessoas LBGTQ+.

JB – Como é que a tua utilização da tecnologia e da virtualidade está a fazer evoluir o paradigma da sua produção?

RP – Já estava a acontecer antes da pandemia. Verifico isso agora mais do que nunca, sem perder ainda o foco no ‘tocar’. Há claramente cada vez mais peso na redefinição das noções de natureza, tecnologia, real, virtual, ecologia e política na minha investigação, à luz dos acontecimentos atuais. No entanto, não gosto de uma abordagem lifestream e de passar todo o tempo em frente a uma câmara ou ecrã.

JB – Qual é a tua posição sobre a relação entre a catástrofe e a solidariedade?

RP – Sei que temos tudo o que é preciso para vivermos em conjunto. Em caso de catástrofe, precisamos sempre um do outro e não hesitamos, ou pelo menos hesitamos menos em tomar as ações necessárias. Somos capazes de gerar enorme poder através da atenção dada ao outro. Penso que estamos a aprender com o passado e com o presente, em relação a como cuidar e praticar a solidariedade para anular a catástrofe. Muitas coisas tidas como impossíveis tornaram-se exequíveis nesta crise.

JB – Qual é a tua utopia agora?

RP – A comunicação materializada. Exercer o nosso potencial corporal para sentir e mover a nossa perceção para dimensões mais elevadas enquanto hiperobjetos. Viver em conjunto numa simbiose complexa, num mundo sinestésico.

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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