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Evgenia Emets – Eternal Forest

Nos últimos meses, o novo coronavírus dominou as nossas vidas. No confinamento, recorre-se frequentemente à natureza e à arte para obter conforto e distração, invadindo parques, florestas, espaços verdes e difundindo os inúmeros programas culturais. Evgenia Emets é uma artista russa a viver atualmente em Portugal, para quem tudo isto é muito natural. Muito antes do coronavírus, o seu último projeto Eternal Forest, lançado em maio de 2018 em Portugal, é uma tentativa de reconectar pessoas, florestas e arte. E, por se tratar de um tema de relevância atual, estou muito feliz por ela ter tido disponibilidade para nos falar do seu trabalho.

 

Amélie Eise – Evgenia, só por curiosidade, tens uma árvore favorita?

Evgenia Emets – Deixei de olhar para as árvores e vejo florestas. Neste momento, estou a explorar carvalhos que me rodeiam em Portugal, tal como eucaliptos. Quando me mudei para Portugal, tomei consciência dos perigos das monoculturas. Estou a tentar compreender como, enquanto artista, posso alterar a nossa perceção das árvores e das florestas.

AE – O que esperas conseguir com a Eternal Forest?

EE – O projeto de arte Eternal Forest nasceu como resposta à desflorestação generalizada, à perda da biodiversidade e de ecossistemas saudáveis a nível mundial, colocando a questão: ‘como podemos criar espaços para uma ligação profunda com a natureza através da arte e da ecologia’?. Atualmente, as florestas antigas são poucas; muitas pessoas nunca vivenciaram o espanto de estar na presença de um ser com mil anos de idade. Eternal Forest é a visão para tornar esta experiência possível para os que virão depois de nós, um presente dado por uma antiga floresta biodiversa para as gerações futuras.

AE – De que forma difere de um projeto ambiental “normal” ou de uma visita a uma reserva natural?

EE – É um projeto artístico que combina arte, conservação da natureza e trabalho comunitário. A conceção e criação da Eternal Forest é um trabalho de colaboração contínua entre artistas, cientistas, peritos florestais, especialistas em recuperação de ecossistemas e em reflorestação.

AE – Um elemento importante no teu trabalho parece ser a noção e a experiência do tempo. O teu trabalho é uma tentativa de convidar o público a pensar através de processos mais longos e abrangentes, ao longo de várias gerações?

EE – Sim, a perceção do tempo é uma preocupação primordial na minha arte. Em projetos anteriores, tentei alterar o ponto de vista que temos quando pensamos no tempo, na Eternal Forest isso é bastante evidente – o ponto é 1.000 anos e também é uma floresta ‘eterna’ –. Aponta diretamente para uma cronologia que está para lá de muitas gerações humanas. Convida-nos a imaginar algo para além de nós próprios… Ao estruturarmos demasiado o nosso tempo, perdemos o tempo mágico, o tempo de sonho, o tempo intermédio. E, assim, perdemos a capacidade de compreender formas mais subtis de tempo e os ciclos da natureza. Separámo-nos do fluxo, interrompemo-lo. As práticas artísticas pessoais e participativas podem ajudar a reentrar e a reviver esse ‘estado de fluxo’, plantando e testemunhando o crescimento de árvores, enquanto criamos um espaço que altera continuamente e que nunca conseguiremos ver em todo o seu potencial, apenas imaginar.

AE – A recentemente falecida artista Naziha Mestaoui recebeu atenção mundial com o seu projeto One Heart One Tree, projetando uma árvore individual cujo crescimento obedecia ao ritmo cardíaco de uma pessoa na Torre Eiffel. Podemos “conectar-nos” às próximas gerações futuras, utilizando tecnologia ainda mais moderna, ou estamos a “desligá-las” da “coisa real”? O teu projeto Eternal Forest visa uma experiência “física” em vez de uma experiência puramente “digital”?

EE – Nos projetos anteriores, utilizei tecnologias audiovisuais e outras, especialmente para performances. Com Eternal Forest Sanctuary, quero oferecer uma experiência e uma participação mais direta. Em Eternal Forest, existem várias vertentes de comunicação. Uma é poética e chega às pessoas através de uma expressão metafórica, com linguagem e som. O Eternal Forest Manifesto é uma peça poética que leio em voz alta durante cada visita à Eternal Forest. Outra é visual – é apreciar os padrões na natureza, a experiência ocular, e através da arte. Depois, há a experiência em si, quando levo as pessoas à floresta – em silêncio absoluto –, pelas suas diferentes fases. Isto permite-lhes conectarem-se ao lugar de uma forma como nunca tinham feito.

Depois, claro, o projeto tem uma comunicação em maior escala. A tecnologia pode ajudar a criar uma rede viva de respiração, possivelmente transformando a Eternal Forest num movimento mundial. Também tenho ideias sobre como podemos levar esta visão para os cantos mais distantes do mundo e depois recolher mensagens de pessoas, testemunhos das suas florestas, e voltar a ligá-la num filme.

AE – Na minha anterior entrevista para a Umbigo, com o autor do TreeToo Manifesto, Etienne Verbist afirmou que pretende “oferecer uma plataforma onde artistas e obras de arte de todos os tempos, que estejam associados às árvores, nos mais diferentes meios de expressão, possam ser exibidos para que alcancemos o nosso objetivo comum”. Como é que pretendes chegar a outros artistas dentro e fora de Portugal, para que a Eternal Forest seja replicada?

EE – De momento, não existe uma abordagem formal à colaboração. Estou a trabalhar num modelo, numa receita para criar um santuário florestal e protegê-lo durante 1.000 anos, que pode depois ser partilhado, copiado, repetido e melhorado. Os artistas que gostaria de convidar a participar neste projeto são aqueles que já trabalham a vertente, como Ackroyd e Harvey – estou fascinada pelo projeto Acorns de Beuys, no qual recolheram e plantaram bolotas dos carvalhos plantados por Beuys; Katie Holten e a sua criação Tree Alphabet, Tim Knowles e o seu trabalho quando pega nas árvores para criar desenhos com ramos e canetas; Ines Amado-Harris, que tem feito muito trabalho participativo e colaborativo com o seu projeto Bread Matters; Lauren Berkowitz, uma artista australiana dedicada à instalação, que trabalha com a progressão do tempo; Alan Tod, cuja arte está centrada na floresta, afirmando que “a floresta é arte”. Neste momento, estou a iniciar uma conversa com artistas sobre colaborar neste projeto.

AE – O crowdsourcing é um elemento útil de disseminação?

EE – Julgo que o crowdsourcing é decisivo neste projeto, a muitos níveis – no início, mas também para fazê-lo continuar, para alimentar esta iniciativa, para passar esta visão de uma geração para a seguinte. Acredito que as próprias pessoas serão capazes de sustentar esta cultura e visão quando com ela estiverem alinhadas e quando criarem algo com que se preocupem. Para mim, há duas grandes questões: como utilizar o crowdsourcing para difundir a mensagem e a visão (em última análise, adoraria que isto se tornasse um projeto das pessoas) e como construir o espírito comunitário, o interesse e o envolvimento a longo prazo.

AE – Uma das muitas coisas que mudaram nestas últimas semanas foi não apenas o papel e a perceção das artes, mas também as formas em que esta pode ser observada e visitada: os museus tiveram de encontrar novas formas de chegar ao seu público. Poderá a Eternal Forest ser vista como uma espécie de museu da natureza?

EE – Com o coronavírus, muitos museus pensam em evoluir para algo mais “vivo”, menos gráfico. Gostaria de pensar na Eternal Forest como um museu vivo! Os museus são um símbolo de continuidade, são também algo intocáveis e isso é que a Eternal Forest deveria ser. Com o ecossistema e o clima a mudarem tanto, podemos precisar dos Eternal Forest Sanctuaries para manter em segurança vários grãos, plantas e memórias. Nesse sentido, a Eternal Forest é um museu vivo que está a ser remodelado pela própria natureza.

AE – Na sociedade ocidental moderna, parece que os resultados são o grande móbil. A Eternal Forest pressupõe, literalmente, um período longo. As árvores demoram muito tempo a crescer. O que será preciso para nos reconectarmos com a natureza? E como pode a arte mediar, especialmente após o “aviso” dado pelo coronavírus?

EE – É uma questão excelente. Penso que tem que ver com forma como a nossa sociedade está estabelecida, como esperamos que as pessoas sejam produtivas. Serão necessárias algumas ruturas na nossa sociedade e algumas crises para nos reconectarmos com a natureza a níveis mais profundos. Muitas pessoas já referem uma necessidade premente de estar na natureza, pois lá sentem-se ligadas, sentem-se em paz…

A arte pode iluminar, direta ou metaforicamente, aquilo de que nos desligámos. Está lá para falar do que falta, do que não falta, e criar uma visão do que ainda está para vir.  E penso que, neste momento, temos uma bela oportunidade de contribuir. Julgo que o papel da arte mudará, não de um dia para o outro, mas gradualmente. Vejo que poderá ficar ao serviço do bem comum, incluindo o bem-estar do planeta e de outros seres não humanos.  E penso que, neste momento, temos uma boa oportunidade de contribuir.

Nascida em 1973, como filha de diplomatas alemães, Amélie Eise tem vivido em vários países com o objetivo de os explorar na maior diversidade de ângulos possível. É cientista política de formação, trabalhou como jornalista para a German TV e para a Bloomberg TV, trabalhou em investimentos bancários e tornou-se gestora de projetos para uma reputada fundação ambiental alemã. A arte é a sua paixão desde criança, com forte inclinação para a pop art. A aprendizagem e a continuação do seu espírito crítico são a sua principal motivação.

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