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Uma história interrompe a noite – Pedro Valdez Cardoso na Appleton [box]

Pedro Valdez Cardoso apresenta na box da Appleton uma instalação que testa a elasticidade de um género com uma definição tão abrangente e imprecisa como a da própria “arte contemporânea”. O projeto de P.V. Cardoso assume-se como uma cenografia desativada, uma peça de teatro onde o público chegará sempre fora de horas.

À entrada, uma publicação substitui a folha-de-sala, num gesto que pode ser também entendido como uma provocação à função contextualizadora que lhe é por norma destinada. O filho do caçador dá nome à exposição e a uma pequena peça de teatro. Um conto de inspiração nórdica, sombrio, e que ao contrário da obra física procura ser tão concreto quanto inteligível.

A sensação de desconforto, que é notoriamente pretendida – talvez até assegurada em todo o trabalho do artista – quer através da instalação quer do texto, é, no entanto, transmitida de modos bastante diferentes.

Por um lado, a instalação é ambígua e misteriosa. A iluminação azul tinge toda a box, moldando um espaço inóspito, que apenas revela as formas através de silhuetas. A perceção visual, toldada pela penumbra da noite, faz-nos circular em volta das escoras metálicas que comprimem ainda mais o espaço da cave, e o tornam aparentemente instável. Delas pendem farrapos ou cordas, e no topo envergam objetos: uma bota ou um banco. No chão, distinguem-se folhagens negras que de perto se revelam pedaços de tecido – a tal natureza manufaturada, falseada, que surge repetidamente na obra de P.V. Cardoso.

Por sua vez, a peça de teatro – aqui tratada como objeto de igual valor artístico, dada a sua centralidade na lógica do projeto -, comprova parte das suspeitas iniciais, antes sensações transmitidas pela instalação. Desmistificando, assim, a tensão simbólica e sacrificial gerada pelo vazio de significações. O texto serve, neste caso, de lanterna que ilumina a imensa escuridão inicial, facilitando-nos (em demasia) a saída de um lugar terrivelmente intangível.

De facto, descrevo o ambiente repetindo o exercício que esbocei no local. Parece-me a única maneira, fragmentária por certo, de assimilar as formas e o ambiente com o qual somos confrontados. À falta das explicações do texto, prevalece a noção do tempo suspenso, o perigo é iminente. Entrámos num lugar onde sentimos que não deveríamos estar, e aonde em breve retornará o caçador, o filho, ou o veado, qualquer que seja o dono da máscara feita a partir de um material disforme, que repousa na parede. A atmosfera sombria e fantasiosa de “O filho do caçador” sublinha o à-vontade com que Pedro Valdez Cardoso manipula os espaços expositivos, assimilando as suas características, e fundindo-os com as próprias obras, com os materiais e com as formas que concebe. A palavra instalação torna-se demasiado ligeira para o modo como pensa e trabalha todo o espaço envolvente.

Apesar de esta ser uma abordagem característica no trabalho de P.V. Cardoso, a qualidade de project room da Appleton permite aos artistas um grau de experimentação raro e entusiasmante. Nos espaços box e square as exposições sucedem-se a uma velocidade ímpar, e cada uma constitui um momento mais ou menos singular no percurso dos artistas que por lá vão passando.

A exposição O filho do caçador pode ser visitada até dia 30.06.2020 na Appleton, em Lisboa.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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