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Arte em Quarentena — Colin Ginks

A UMBIGO convidou vários artistas a refletir sobre a era em que estamos a viver e a pensar a sua produção artística em tempos de quarentena.

Projeto da autoria do artista Colin Ginks.

Colin Ginks, (Un)natural Virus, 2020. Projeto de texto, vídeo e som manipulado. 24 segundos

Enquanto todos continuamos com as nossas vidas e tentamos responder a este ataque ao nosso bem-estar percecionado, devíamos aproveitar para reavaliar o nosso instinto de sobrevivência.

Eu sempre estive sob ataque. Sou uma bicha que dá nas vistas. Não sou licenciado. Tenho uma situação financeira precária (ou seja, a um passo de me tornar sem-abrigo). Sou um forasteiro relativamente a hierarquias muito enraizadas, socialmente algo desajeitado e facilmente desencorajado pelo mundo da arte, onde me dizem que a minha expressão vale menos que a deles, ou que a dos amigos deles. A minha vida é desgastante e continua a sê-lo. Na maior parte dos dias desde que o vírus se instalou, acordo com uma enxaqueca e com uma náusea que me acompanham ao longo do dia até voltar a deitar a cabeça na almofada.

Mas tudo bem. Foi a minha escolha. Escolhi esta vida e tenho orgulho nela. A questão é que, imagino que também vocês estejam a passar pelo mesmo. E não foi escolha vossa. Chegou a insegurança endémica, num abrir e fechar de olhos. Uau. A ironia poética deste momento. Se calhar, eram mais inseguros do que pensavam ser. Alguns arraigaram-se apaixonadamente – e lucrativamente – a um sistema que era claramente insustentável e agora fitam o abismo. Até certo ponto sinto alguma comiseração por eles, têm bocas para alimentar e grandes carros para pagar. São poucos os que podem reclamar a superioridade moral. O facto de que sei desenhar, mas não sei lucrar com a mercantilização da cultura não faz de mim automaticamente uma melhor pessoa.

Muitas das pessoas moralmente superiores que eu conheço são uns tolos atrozes.

Como está a vossa vida interior? Muita gente, neste momento, não tem outra escolha senão preenchê-la com pensamentos. Os vossos pensamentos assustam-vos? A escolha é entre isso ou fazer maratonas a ver porcarias na televisão, criadas num mundo que deixou de existir. Vai chegar um ponto em que esses conteúdos se irão esgotar.

Não faço ideia como isto vai acabar e parece-me evidente que os nossos líderes também não.

Os efeitos do privilégio na sociedade continuaram a fazer-se sentir, com homens negros a serem assassinados na rua, com trabalhadores não qualificados e mal pagos a serem obrigados a voltar para o trabalho, em projetos insensatos de naves espaciais.

Eu não quero que as coisas voltem a ser como eram antes. Isso para mim é reconfortante – é mesmo o único conforto que tenho. E vocês, querem?

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