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Mesa dos Sonhos: Duas coleções de arte contemporânea

Mesa dos Sonhos: Duas coleções de arte contemporânea, com curadoria de João Silvério e patente de 20 de maio a 31 de julho de 2020 no Fórum Arte Braga, é uma exposição itinerante da Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, que reúne um conjunto de obras da sua coleção e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), ambas constituídas ao longo da segunda metade do século XX até à contemporaneidade.

Nesta exposição é apresentada uma grande heterogeneidade de práticas artísticas, como desenho, fotografia, pintura, escultura ou instalação, tanto de artistas nacionais, como internacionais. Inserem-se num contexto específico da História da Arte (desde os anos 1960 até à atualidade), onde houve uma distinta mudança no modo como se fazia, pensava e se exibia arte. Rosalind Krauss em A Voyage on the North Sea: Art in the age of the Post-Medium Condition (1999) adota o conceito de ‘condição pós-média’ referindo-se à liquidez, transversalidade e multidisciplinariedade nas artes visuais desde a segunda metade do século XX, exemplificando o “campo expandido da escultura”. Todavia, os artistas, também teorizaram sobre a sua produção. O escultor Robert Morris, em Notes on Sculpture Part II (1966), já havia declarado que a escultura sempre fora um meio táctil e que lidava com ‘os factos esculturais do espaço, da luz e dos materiais’; Claes Oldenburg, em Sou a favor de uma arte… (1961), já havia insistido a favor de uma “arte que cresce num vaso, que desce do céu à noite, como um raio e se esconde nas nuvens e retumba”, ou ainda Sol LeWitt, em Sentenças sobre Arte Conceptual (1969), expressara que: “O conceito de um trabalho de arte pode envolver a matéria da peça ou o processo pelo qual ela é feita”.

A teoria da arte ao longo das últimas décadas é repleta de inúmeros pontos de vista, porém poderá partir de um ponto comum, de uma “Mesa dos Sonhos”, como João Silvério indica no título da exposição, influência do poema homónimo de Alexandre O’Neil. O curador, na folha de sala reforça que: “A mesa é um objeto comum, um espaço de encontro e de comunhão, de celebração da vida, lugar das refeições e do descanso das horas que cosem o nosso quotidiano. Mas a mesa pode ser também lugar da escrita, do trabalho, do pensamento e da reflexão, e ainda um lugar de recolhimento para sonhar”. Este mundo onírico exposto no Fórum Arte Braga num espaço branco, limpo e amplo, possibilita a visualização de cada obra singularmente, num ambiente de absoluta concentração. Relembremos Brian O’Doherty, em No Interior do Cubo Branco: A ideologia do espaço da arte (1999): “A arte é livre, como se dizia, “para assumir vida própria”. Tal como nas paisagens simbólicas de Alberto Carneiro, em Meditação e posse do espaço-paisagem como obra (1977), mas também nas de João Queiroz, em Sem título (da série O ecrã no peito) (1999). Os espelhos, enquanto metáfora de duplo, em “Dentro de mim” (2001) de Helena Almeida e em Sem título (1995) de José Pedro Croft. O poder da poesia, em A White Paper Will Blow Through the Street (1967) de James Lee Byars, ou os trabalhos de Dimitrije Bašičević Mangelos. Ao longo do percurso expositivo as obras dialogam entre si e conduzem o nosso olhar através das suas formas, como A palavra inacabada (Uma luz interdita I) (1992) de Pedro Cabrita Reis, Imóvel (2004) de Marcelo Cidade e My Own Zoo (1977) de Luísa Correia Pereira, assim como pelas suas cores, veja-se o tom vermelho das duas pinturas de José Pedro Croft, ao lado de Pudor/ Desejo/ Esquecimento (1988) de Pedro Cabrita Reis, em frente de Billboard Thailandhouse (2001) de Alicia Framis.

“Mesa dos sonhos no meu corpo vivem/ Todas as formas e começam/ Todas as vidas”, excerto do poema de Alexandre O’Neil, que justamente sintetiza esta exposição, ou seja, o diálogo entre duas coleções de arte contemporânea distintas, com uma grande diversidade de práticas artísticas, pensamentos e estéticas, que pelo meio desta mostra ganham uma nova vida.

Ana Martins (Porto, 1990) doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, é mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)” e licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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