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Resposta Aberta: Eike Eplik

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Eike Eplik (1982) tem um mestrado do Departamento de Escultura da Academia de Artes da Estónia (2010). Também estudou na Universidade de Ciências Aplicadas de Pallas e na Universidade de Ciências Aplicadas de Turku, Finlândia. Trabalhou como assistente de artistas na Finlândia e na Alemanha e leciona atualmente na Escola de Artes para Crianças de Tartu e na Universidade de Ciências Aplicadas de Tartu. Em 2006, Eplik recebeu a bolsa Eduar Wiiralt para jovens artistas; em 2012, a bolsa de produção do festival de arte contemporânea ART IST KUKU NU UT; em 2015 foi nomeada para o Sadolin Art Award; e em 2018 foi reconhecida com Ado Vabbe Art Award. As suas exposições a solo intitulam-se Beauty Salon, na galeria monumental da Tartu Art House (2017), e Natural, na Hobusepea Gallery em Talin (2018). Em 2021 Eike Eplik terá outra exposição a solo no Tartu Art Museum, com alguns dos seus trabalhos na coleção.

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articulas a tua resposta no discurso público? Qual é o teu papel nesta conversa mais ampla? 

Eike Eplik – Julgo que o meu papel é observar, manter-me calma, continuar com o meu trabalho.

À nossa maneira, todos nós começamos a espelhar a situação à nossa volta, quer queiramos quer não. E, a partir de agora, as pessoas vão reparar nestes temas em toda a parte, mesmo que não o queiram, porque a atenção está centrada nisso.

JB – A tua prática artística tem mudado ao longo do isolamento?

EE – Em alguns aspetos, sim, mas a vida em estúdio continua a ser a mesma de antes. De qualquer forma, estou a trabalhar sozinha no meu estúdio. Por vezes, encontro alguém para discutir algum projeto artístico ou exposição, e estas coisas são também possíveis através da internet. Não sou uma artista que esteja constantemente em residência algures, por isso não tive de cancelar qualquer viagem. A documentação do meu trabalho sempre foi importante para mim, mais ainda agora. Fazer exposições mais visíveis na web é o principal objetivo. E penso que é algo que continuará a ser uma prática comum a partir de agora.

JB – Como é que a tua capacidade de produzir trabalho foi afetada pela pandemia?

EE – Não muito. Julgo que a razão é que, quando a pandemia começou, estava simplesmente a concluir trabalhos para duas exposições.

Dois dias antes da abertura da minha exposição individual na galeria Kogo, o governo decretou situação de emergência e – entre outras medidas – decidiu encerrar todos os museus e galerias. A exposição já estava lá, pronta, mas permaneceu fechada para visitantes durante dois meses, à espera da sua oportunidade.

Para a preparação de outra exposição, encontrava-me a trabalhar em conjunto com artistas sonoros. Este evento foi cancelado por agora e espero que aconteça no início do próximo ano.

Estava, no entanto, a planear uma pequena pausa na produção de obras. E agora tenho andado ocupada com os preparativos para futuras exposições, a esboçar e a candidatar-me a financiamentos para a produção de novas obras. No início de maio, arranjei um novo estúdio. Tenho andado a mudar as minhas coisas e a habituar-me ao novo ambiente.

Se a economia cair, poderá haver problemas com a produção de futuras exposições. Esperemos que não.

Quando comparados com alguns outros países, nós, na Estónia, temos tido relativa sorte com o vírus.

As regras da quarentena foram aplicadas na altura certa, as pessoas ficaram em casa e seguiram bastante bem as regras. Por agora, ainda temos a regra 2+2 (máximo 2 pessoas juntas, com distância de 2 metros) e algumas outras medidas. Mas as galerias de arte e lojas estão abertas desde 11 de maio e, desde o primeiro dia de junho, a maioria dos outros locais públicos também.

JB – Atualmente, qual é a tua abordagem à colaboração?

EE – De momento, já possível reencontrar pessoas aqui. Com alguma cautela, claro. Tenho um projeto de colaboração na Alemanha que quase foi adiado. Com algumas mudanças que entretanto fizemos, esperemos que ainda aconteça na próxima primavera, como inicialmente previsto. São precisos muitos emails e ligações online, mas tudo é possível.

JB – Como defines o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

EE – É o momento de tirar algum tempo e pensar nas coisas. É o momento de começar a fazer planos a longo prazo para o bem do planeta, do ambiente e das pessoas. É também o momento de compreender que a vida não se resume a ganhar e a acumular, mas também a perder e a dar. Não devemos também agir como governantes do planeta, mas sim como parte da sua população. O melhor seria encarar isto como oportunidade para um reinício positivo. Mas isso implica que as pessoas sejam inteligentes e calmas a esse respeito. Infelizmente, a humanidade quer sempre tudo, mas nunca está disposta a abdicar de nada. Por isso, receio que não seja o cenário futuro.

JB – Achas que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

EE – Tenho a certeza de que há oportunidades, é preciso um pouco mais de tempo para começar a vê-las.

JB – E.M Cioran escreve: “nas grandes perplexidades, tente viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como respondes a esta proposta?

EE – Penso que é uma proposta sensata 🙂

JB – Como é que este tempo está a influenciar a tua perceção de alteridade no geral?

EE – Sinto claramente que as mudanças na nossa sociedade acontecem com uma rapidez tal que provocam a sentimentos bastante assustadores. Este tipo de poder está a ser sentido no mundo inteiro e, nas mãos erradas, poderá ser devastador. Percebemos o quão fácil é semear o medo nas pessoas. Mas será que esse medo acabará por desaparecer mais tarde ou pairará durante muito tempo?

JB – Como é que a utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da tua produção?

EE – A “situação do vírus” não provocou grandes mudanças no meu trabalho, pelo menos até agora. No meu horizonte temporal, três meses não é assim tanto tempo. Acho que sou uma pessoa lenta. Posso dizer que estamos a fazer alguns vídeos sobre a exposição e, em geral, a torná-la mais visível na Internet do que é habitual. Tudo isto está a levar o mundo da arte a tornar-se mais global do que é atualmente.

JB – Qual é a tua posição sobre a relação entre a catástrofe e a solidariedade?

EE – As catástrofes aproximam o mundo e aumentam a solidariedade. Todos nós somos estamos a vivenciar a mesma coisa com diferentes níveis de gravidade. Como tal, embora seja uma catástrofe, continua a ser algo partilhado e esperemos que crie maior empatia entre as pessoas.

JB – Qual é agora a tua utopia?

EE – Um mundo em que as pessoas tratam a natureza e todos os outros seres com respeito. Onde o dinheiro e a eficiência não sejam tudo. Uma sociedade onde existam formas mais criativas e individuais de trabalhar e estudar. E isso não pode ser feito às custas de outrem.

Onde todas as pessoas possam viver nas suas pátrias, sem medo e sem fome. E um mundo onde todos apreciariam arte, é claro. 🙂 É uma verdadeira utopia hoje em dia.

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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