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Resposta Aberta: Vladimir Bjeličić

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Vladimir Bjeličić nasceu em Belgrado, Sérvia, em 1983. Graduou-se na Faculdade de Filosofia no Departamento de História da Arte e tem estado ativo nos campos da arte e da curadoria independente. Para além de ser autor de vários artigos de crítica publicados em medias digitais e impressos, Bjeličić trabalha ainda através de diferentes práticas performativas. Desde 2015 é colaborador frequente da artista britânica Elly Clarke no projeto em curso #SERGINA, que se baseia num inquérito à sexualidade e identidade de género pós-física na internet. Junto de Senka Latnović, conduz o grupo pós-curatorial Vocal Curatorial Syndrome, e é um dos membros fundadores do coletivo drag Ephemeral Confessions. Em suma, o seu trabalho gira em torno das políticas de representação da corporalidade na arte contemporânea, especialmente no domínio da arte contemporânea.

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articula a sua resposta no discurso público? Qual é o seu papel nesta conversa mais ampla?

Vladimir Bjeličić – Receio que não haja uma conversa mais alargada. No contexto local, estamos perante uma clara manifestação de biopolítica imposta pelo regime autoritário sérvio. A comunidade artística é uma minoria que está condenada a não ser apoiada pelo Estado. Como tal, não creio que sejamos capazes de manter a discussão pública… Mas as organizações artísticas estão a tentar agir de forma solidária, com um fundo de apoio para quem trabalha em regime freelance. Tendo em conta o terrível cenário da arte estatal, esperemos que esta tendência se acentue após o confinamento.

JB – A sua prática artística tem mudado ao longo do isolamento?

VB – Não acho que tenha mudado, pelo contrário, sinto que evolui. Recentemente, Elly Clarke, com quem estou a colaborar há cinco anos num projeto contínuo chamado #SERGINA, e eu apresentámos uma versão online da performance HOW ARE YOU?: #SERGINA’S LIVE PARTICIPATORY (DIGITAL) SOAP OPERA IN THREE ACTS, que apresentámos inicialmente no espaço ONCA em Brighton, no ano passado. Tentámos articular o estado atual através de uma abordagem melodramática, como o título sugere. A performance digital participativa decorreu em simultâneo no Zoom, Facebook e YouTube. Abaixo é possível ver a gravação.

JB – Como é que a sua capacidade de produzir trabalho foi afetada pela pandemia?

VB – Como tenho de trabalhar diariamente, e felizmente ainda tenho emprego, muitas vezes, após terminar as tarefas, sinto-me cansado e bastante desmotivado para trabalhar. Aparentemente, a pandemia tem a sua influência.

JB – Atualmente, qual é a sua abordagem à colaboração?

VB – Já mencionei a performance digital e, nesta altura, tenho tendência para lançar alguns vídeos focados no meu alter ego Markiza de Sada, além de continuar a trabalhar com os meus colegas da Ephemeral Confessions, um coletivo drag, do qual sou um dos membros fundadores.

JB – Como definiria o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

VB – Julgo que é um momento histórico. Para além das diferentes análises feitas por autores, pensadores e estudiosos renomados em diferentes disciplinas, ninguém sabe ao certo como funcionará o mundo após o fim da pandemia. A minha impressão, ou melhor, o meu receio é que este tipo de estado de emergência omnipresente se torne o nosso novo normal, como em alguns filmes e romances de ficção científica distópicos dos anos 80.

JB – Acha que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

VB – Embora algumas economias já tenham anunciado oficialmente o seu apoio aos trabalhadores da cultura, acho que não será esse o caso na maioria dos países que já eram economicamente instáveis e ameaçados pela natureza omnipresente do capitalismo.

JB – Como é que este tempo está a influenciar a sua perceção de alteridade no geral?

VB – Perceciono os outros essencialmente a partir de uma perspetiva de classe. Um bom exemplo a explorar atualmente é o aprofundamento da discrepância de classes no Reino Unido, uma sociedade profundamente marcada pela divisão entre classes. As consequências do capital global sobre as economias frágeis serão ainda mais devastadoras após a pandemia e, se juntarmos a isso as crises climáticas, temos a receita para o apocalipse. Obviamente, num nível micro, poderá chegar uma altura em que novos movimentos se desenvolverão gradualmente para articular, provocar e eventualmente começar a alterar o clima sociopolítico.

JB – Como é que a utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da sua produção?

VB – Creio que já consegui dar uma resposta nas perguntas anteriores.

JB – Qual é a sua posição sobre a relação entre a catástrofe e a solidariedade?

VB – Como acredito profundamente nas ideias relacionadas com o campo político à esquerda, a minha esperança é que surjam novas formas de solidariedade. Afinal, neste momento não precisamos de distanciamento social, mas sim de empoderamento social, apoio e cuidados.

JB – Qual é agora a sua utopia?

VB – A minha utopia são as minhas plantas (muito do meu trabalho está focado na flora: http://cargocollective.com/vladimirbjelicic/Nature-unveiled-or-Stories-about-plants-and-workers), assim como aquelas que vejo crescer a partir minha janela ou no meu bairro, quando dou um passeio solitário.

 

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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