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Resposta Aberta: Rä di Martino

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Rä di Martino (Roma, 1975) estudou em Londres, onde se graduou com um MFA na Slade School of Art e, depois de ter vivido alguns anos em Nova Iorque, mudou-se para Itália. A sua prática explora a passagem do tempo, tal como as discrepâncias que diferenciam as narrativas épicas das experiências vividas. Os seus trabalhos caracterizam-se pela tensão entre o pathos e um certo desapego: uma desconexão que interrompe a sincronicidade que une a imagem ao texto. As suas instalações filme ou vídeo e as suas fotografias têm sido expostas em muitas instituições, museus e festivais de cinema, incluindo: Moma-PS1, NY; Tate Modern, London;  NiMK Netherlands Media Arts, Amsterdam; MCA, Chicago; Palazzo Grassi, Venice; Artists Space, New York; Museion, Bozen; Magasin, Grenoble; the Busan Biennial; Manifesta; Turin Triennale, Torino International Film Festival, Kino der Kunst, Munich, Viper Basel e Transmediale Berlin. Em 2014 apresentou o seu primeiro documentário de média duração The Show MAS Go On no Festival Internacional de Cinema de Veneza, que lhe valeu o Prémio Gillo Pontecorvo e em 2018 o seu primeiro filme CONTROFIGURA, também apresentado no Art Film | Art Basel e em vários cinemas e museus, que lhe valeram o Eurimages Lab Award no mesmo ano e entrou na seleção do Silver Ribbons para melhor filme documental 2018. Em 2018/2019 desenvolveu o projeto AFTERALL com o apoio do Mibac – Italian Council Award, em colaboração com a Fundação Volume! Com duas exposições no Mattatorio di Roma e no Kunstmuseum St. Gallen (2020).

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articulas a tua resposta no discurso público? Qual é o teu papel nesta conversa mais ampla?

Rä di Martino – Tem graça porque este longo período de isolamento e de interrupção de todos os projetos e planos tornou-se para mim, lenta mas finalmente, um momento de reflexão e estudo. Ao mesmo tempo, tenho começado a recusar participação em muitos projetos online que têm surgido. Excetuando a participação, talvez, com trabalho antigo deixado online e de graça, imediatamente senti que é impossível reagir de forma espontânea ao que está a acontecer. É um momento demasiado lato, que precisa de tempo para ser absorvido, especialmente por artistas que pretendem dar algo em troca.

JB – A tua prática artística tem mudado ao longo do isolamento?

RdM – Sim, completamente. Desde logo parei de trabalhar. Pouco a pouco comecei a ler sobre qualquer coisa, desde a pandemia à política, ensaios, livros e filmes. Mas nenhum trabalho no sentido estrito do termo. Depois comecei a pesquisar para ter algo novo que fazer. Tenho um projeto inacabado para uma exposição que estava prestes a inaugurar na primavera e que foi adiada para o outono, mas pus isso em pausa e estou a anotar ideias para algo que deverá ser um longo e lento projeto. No entanto, estou ainda no início.

JB – Como é que a tua capacidade de produzir trabalho foi afetada pela pandemia?

RdM – Estou mais lento e preciso de pensar mais sobre o que estou a fazer, não consigo continuar como se nada tivesse acontecido. Passei as primeiras semanas, muitas semanas, a fazer nada que se assemelhasse a trabalho, sem que me sentisse culpado ou aborrecido.

JB – Atualmente, qual é a tua abordagem à colaboração?

RdM – Uma vez que trabalho frequentemente em filme e vídeo, colabora com muitas e variadas pessoas no âmbito de cada projeto e sempre gostei. Agora gostava de tentar e colaborar com alguém, não apenas enquanto membro das filmagens, mas que trabalhe também numa área diferente. Na verdade, estou a pensar muito sério sobre isso neste período.

JB – Como definirias o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

RdM – Uma vez estava num desses momentos magníficos de nevoeiro, na costa cerca de São Francisco. Nunca o havia experienciado antes. Estava completamente só, numa praia e tudo se tornou branco, quente, húmido e estático. Qualquer coisa fora deste mundo. Isto é como eu gostava que este momento fosse.

JB – Achas que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

RdM – Creio que haja potencial, ou pelo menos estou certo de que, com concentração e convicção, isto poderá ser um excelente momento para mudanças. Mas não vejo isso a acontecer. Os governos, os políticos e quem quer que seja que esteja à frente de instituições culturais parecem ou desinteressados ou a tentar voltar ao que estava anteriormente. Talvez tenhamos que começar em pensar como sugerir algo, mas temo ser cedo para sabermos em que ponto estamos.

JB – E.M Cioran escreve: “nas grandes perplexidades, tente viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como respondes a esta proposta?

RdM – Bem, é bastante libertador.

JB – Como é que a utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da tua produção?

RdM – Num período em que estes meios são a única solução para comunicar com o exterior e com os outros, sinto a necessidade de questionar e refletir e digerir o modo como os usamos em vez de simplesmente se usar. Portanto, diria que isto é atualmente uma questão retórica que se tornou ainda maior agora.

 

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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