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5 Sugestões Culturais — Namalimba Coelho

Todas as semanas, a UMBIGO convida duas pessoas a partilhar as suas 5 sugestões culturais. O que podemos fazer por casa? De um livro a um podcast, álbum ou filme, aqui ficam as recomendações de artistas, curadores, galeristas, ativadores culturais, amigas e amigos.

Vamos partilhar a receita do que melhor nos faz para seguirmos unidos e positivos.

Namalimba Coelho

Já que o online não tem fronteiras, e o planeta é redondo, lanço o desafio de desocidentalização das sugestões culturais aqui partilhadas, celebrando a minha angolanidade através de algumas referências que vos convido a explorar:

Livro

LUUANDA
José Luandino Vieira
1963

Obra seminal do escritor José Luandino Vieira, que acaba de completar 85 anos, Luuanda é um livro de contos, publicado em 1963, constituído por três estórias: Vavó Xíxi e seu Neto Zeca Santos, A Estória do Ladrão e do Papagaio e A Estória da Galinha e do Ovo. Esta obra histórica é vista como um autêntico livro de ruptura com a norma portuguesa na literatura angolana, já que as estórias que conta retratam a representação cultural do quotidiano social e intergeracional, humano e urbano, dos musseques de Luanda, no tempo colonial. Mais do relatar comportamentos e ideias, este livro dá voz aos angolanos, misturando o português com inúmeras palavras e expressões em quimbundo, numa incursão pelo dia-a-dia do povo, crenças e ensinamentos, sendo os mais velhos vistos como os sábios e os mais novos como os que ainda estão a aprender, abordando a questão da fome, da repressão, do desemprego, e das distinções entre classes sociais que, até aí, eram segregadas da literatura.

Os três contos são imperdíveis, embora o meu coração penda para a Estória da Galinha e do Ovo, que narra a disputa entre duas vizinhas – nga Bina e nga Zefa – pela posse de um ovo, posto pela galinha Cabíri, que pertence a nga Zefa, no quintal de nga Bina, que está grávida e tem o marido preso. O ovo é reivindicado por ambas, que alegam o seu direito sobre ele. O conflito é resolvido por duas crianças – Beto e Xico – que, imitando o cantar de um galo, fazem com que a galinha fuja das mãos da Polícia, que tinha sido chamada para intervir, mas que o que pretendia era a aproveitar-se da situação. Depois disso, nga Zefa resolve abrir mão do ovo e oferecê-lo a nga Bina.

Vencedor de vários prémios, este pequeno, mas gigante livro, causou uma grande polémica e represálias na época em que foi publicado. Uma vénia ao Mestre Luandino por todos os seus atos de bravura e feitos históricos realizados ao longo da sua vida e obra.
Link: https://www.wook.pt/livro/luuanda-jose-luandino-vieira/19041366

Luuanda book

Cinema

Sambizanga – Homenagem a Sarah Maldoror
1972

Sambizanga é um filme mítico, realizado em 1972 por Sarah Maldoror, nascida em Guadalupe, esta cineasta da negritude, militante anticoloniasta, foi uma das primeiras mulheres a dirigir uma longa-metragem num país africano. Sarah faleceu a 13 de abril de 2020, em Paris, vítima de coronavírus, aos 91 anos.

O filme retrata a história de Domingos Xavier, um ativista revolucionário angolano, habitante do Sambizanga (bairro popular de Luanda), preso pela PIDE, interrogado e torturado até à morte, suspeito de fazer parte do movimento de luta de libertação nacional, que esteve na origem dos eventos ocorridos a 4 de Fevereiro de 1961 em Angola. O filme é contado a partir do ponto de vista de Maria, a mulher de Domingos, que percorre as cadeias da cidade como que em peregrinação, em busca do seu desaparecido marido, sem imaginar que este estaria morto. Na sequência da sugestão anterior, é de referir que, este filme é inspirado na novela de Luandino Vieira, A Vida Verdadeira de Domingos Xavier.
Filme online: https://www.youtube.com/watch?v=vJoYNJMVMr8

Sambizanga movie

Reflexão

ANGOLA: 27 de MAIO de 1977

Dezenas de milhares de angolanos (entre 30 e 80 mil) foram barbaramente torturados, mandados para campos de concentração e fuzilados, sem julgamento, largados em valas comuns ou atirados ao mar, no massacre que se seguiu à alegada tentativa de golpe de estado ocorrida nesta data. As vítimas não foram apenas os visados, mas todos os que, de forma direta ou indireta, que foi o meu caso, sofreram a consequência deste acontecimento, que alterou o curso da vida de milhares de famílias, principalmente os órfãos, alguns de pai e mãe. O passado foi-nos amputado, mas o presente somos nós, pelo que, passados 43 anos de choque, silêncio e indignação, é urgente que a história não fique por contar, a verdade por apurar, nem a memória das vítimas por honrar. A reconciliação, na sociedade angolana só é possível com o reconhecimento do massacre, acompanhado de um pedido de perdão oficial do governo angolano, da emissão de certidões de óbito, e da construção de um memorial em honra das vítimas. E que, no futuro, as novas gerações cresçam com este facto histórico, incluindo-o nos manuais escolares que contam a história de Angola. Foi neste sentido que, há um ano, por ocasião da exposição Fronteiras Invisíveis, da qual fui curadora (organizada no âmbito da ArcoLisboa2019), desafiei o artista Francisco Vidal a criar uma obra/cartaz alusivo ao 27 de maio, que tivesse como legenda a frase de Nina Simone que me remete para este tema: “There is no excuse for the young people not knowing who the heroes and heroines are or were”. Sendo a memória a consciência inserida no tempo, o resgate deste acontecimento na História de Angola é crucial para que a sua reconciliação nacional ainda seja possível.

27/05/1977

Música

CDA – Companhia de Discos de Angola / Estúdios Norte

Nos finais da década de 60, Sebastião Coelho (jornalista, radialista, editor discográfico e historiador da música popular angolana) criou, em Luanda, uma produtora radiofónica e de gravação de discos, cujo legado cultural e musical merece ser relembrado, já que está na origem da produção de vários trabalhos discográficos de artistas e grupos musicais das décadas de 60 e 70, que permitem uma reconstituição histórica do passado musical angolano. Mais do que um legado familiar, esta coleção, composta por uma centena de discos editados, é um verdadeiro tributo à música popular angolana (e não só), e uma autêntica relíquia discográfica – não só pela riqueza e diversidade dos sons que lhe dão ritmo, como pelos valores e tradição que nela se desvendam através das letras das músicas, algumas cantadas em línguas nacionais, e, claro, sem esquecer a estética icónica das capas que lhe dão identidade visual. A CDA foi a produtora de três momentos emblemáticos da discografia revolucionária com o álbum Angola ano 1 de Carlos Lamartine, que ficou na história como sendo uma das mais importantes referências discográficas do período da canção política, a par do emblemático LP Mutudi uá ufolo, viúva da independência, de David Zé, e o álbum Independência, de Alberto Teta Lando. O primeiro disco instrumental da discografia angolana foi gravado em 1975 nos “Estúdios Norte” pelo Conjunto Merengue, pertencendo ainda a esta época o Ngola Ritmos, Rui Mingas, Prado Paim, Nito Nunes, entre outros que podemos recordar na seleção musical que compilei no meu youtube:
https://www.youtube.com/playlist?list=PLO2izMYRUh2Zfb9EW9ZA6lddRi6cgS9ot

CDA-Companhia de Discos de Angola

Causa

O Albinismo e a Companhia de Teatro que lhe dá voz: ‘Excesso de Cor’

Desde a minha infância em Luanda, que acompanho este tema, tendo o privilégio de estar próxima de movimentos e iniciativas que lhe dão voz. A 13 de Junho celebra-se o Dia de Consciencialização sobre o Albinismo no Mundo, para combater o preconceito e desmistificar esta questão de natureza genética, que leva à ausência total de pigmentação, que faz com que o portador tenha a pele, os olhos e os pelos muito claros, colocando-o numa situação de vulnerabilidade que, para além de enfrentar a baixa visão, tem uma extrema sensibilidade da pele aos raios solares, sujeito ao cancro da pele, tendo ainda que lidar com o preconceito, exclusão social e superstições. Os problemas acentuam-se para os grupos de albinos que não têm acesso à escolaridade, desenvolvimento intelectual, apoio da comunidade e da família, e que vivem em condições de pobreza. Cerca de 1 em 18 mil pessoas no mundo tem um tipo de albinismo, que afeta 1 entre cada 4 mil africanos, que são atacados, mutilados ou mortos por feiticeiros e curandeiros, dada a crença de que os seus órgãos possuem poderes mágicos, sendo vendidos por 550 euros. Estas atrocidades transferiram-se para o norte de Moçambique e várias mulheres albinas são violadas por se acreditar que curam o vírus do VIH. É raro o país onde estes rituais são criminalizados. Em Angola os albinos são expulsos de transportes e locais públicos; na escola segregados por professores e colegas; no mercado de trabalho é-lhes vedado o acesso a certas vagas ou cargos; o atendimento hospitalar é-lhes recusado; e há progenitores que rejeitam a paternidade de filhos albinos.

Todas as iniciativas são cruciais para desmistificar o Albinismo, e o Grupo de Teatro Excesso De Cor fá-lo através do palco, tendo como protagonistas jovens atores albinos, que usam a arte de representar como meio de intervenção social para combater o preconceito, a discriminação e a superstição. Nas suas peças, e na Web Série que acabam de lançar, relatam histórias reais, vividas no quotidiano, expondo situações sociais de estigma e superstição a que são sujeitos, satirizando mitos como “os albinos não morrem” ou ” não podem casar entre si”.
Link Web Série Excesso de Cor: https://m.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=2rPQNAZfprU

Namalimba Coelho (Luanda, 1976) concluiu mestrado e especialização na área de Direitos Humanos, em Paris (Université Paris Nanterre e Université Panthéon-Sorbonne/Centre Malher), e colaborou em projetos ligados à Organização das Nações Unidas e aos Tribunais Penais Internacionais. Em 2003, regressou a Lisboa e trocou os manuais de Direito pela Comunicação na área da cultura e das artes. Entre os projetos e instituições com as quais colaborou destacam-se a Bienal Experimenta Design; Festival Jazz em Agosto da Gulbenkian; Moda Lisboa – Lisbon Fashion Week; Fundação Ellipse; Temps D’Images – Festival de Artes Visuais e Performativas; Fuso – Anual de Videoarte Internacional de Lisboa; Fundação Leal Rios; Galeria Uma Lulik; Festival de Artes de Macau; Plataforma/Galeria de Arte Urbana Underdogs; Festival Iminente, entres outros projetos com curadoria de Vhils; e exposições de artistas africanos e da diáspora realizadas em Lisboa, Luanda, Macau e Paris. Na qualidade de assessora de imprensa do Museu Coleção Berardo, desde 2007, comunicou mais de uma centena de exposições de artistas nacionais e internacionais. Assumiu a curadoria de duas exposições individuais do artista Francisco Vidal, no âmbito da Feira de Arte ArcoLisboa2019 e da AKAA Paris2019, sob o acrónimo N̶A̶M̶ x N̶o̶n̶ A̶l̶i̶g̶n̶e̶d̶ M̶o̶v̶e̶m̶e̶n̶t̶, que corresponde às três primeiras letras do seu nome, e que usa como arma poética de palavras, enquanto manifesto/atitude crítica e reflexiva perante a sociedade contemporânea.

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