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Resposta Aberta: Arseny Zhilyaev

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Arseny Zhilyaev (n. 1984) é um artista sediado em Moscovo e Veneza. Os seus projetos examinam os legados da museologia e do museu soviéticos na filosofia do Cosmismo Russo, usando a exposição como meio. Os trabalhos deste artista foram expostos nas bienais de Gwangju, Liverpool, Lyon e na Trienal de Ljubljana, bem como em exposições no Centre Pompidou, no Palais de Tokyo, Paris; no de Appel, Amesterdão; no HKW, Berlim; na Kadist Art Foundation, Paris e São Francisco; na V-a-c Foundation, Moscovo e Veneza, entre outros. O artista tem publicado artigos no e-flux jornal, na Idea, na Moscow Art Magazine, entre outros. É editor da antologia Avant-Garde Museology (e-flux, University of Minnesota Press, Va-ac Press, 2015) e cofundador do Moscow Center for Experimental Museology (redmuseum.church).

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articula a sua resposta no discurso público? Qual é o seu papel nesta conversa mais ampla?

Arseny Zhilyaev – Já não sou ativista há algum tempo. Quase não utilizo as redes sociais. E participo em discussões públicas em conferências, em média, uma vez por ano. Ou seja, o meu lugar no debate sobre esta situação do coronavírus está vazio. Para além disso, a minha circunstância familiar é grave, o que não me permite dedicar muito tempo a coisas que vão além do círculo familiar imediato.

Mas senti que, desde o início da quarentena, houve um maior número de convites para debates, comentários, etc. As pessoas estão a tentar compensar a falta de comunicação. Parece-me evidente. Já tenho comunicação que me baste. Talvez não haja impressões suficientes, nem a capacidade de deslocação do corpo no espaço. A minha vida está repleta de movimento. Agora, por razões óbvias, isso é impossível. Não tenho a certeza de que as palavras possam resolver esta situação. Prefiro continuar em silêncio e fazer o que posso.

JB – A sua prática artística tem mudado ao longo do isolamento?

AZ – É curioso que me pergunte sobre o isolamento. Na Rússia, há já algum tempo que as autoridades têm evitado chamar as coisas pelos nomes. Por exemplo, uma explosão é um estrondo. Na Rússia, a quarentena é substituída pela palavra autoisolamento. O Estado tem receio de introduzir um regime de emergência, pois, se o fizer, será obrigado a apoiar a população com alimentos e dinheiro. Contudo, apenas três meses após o início do surto, a Rússia começou a dar privilégios mínimos às empresas que se encontram em situação de indigência.

Quanto ao autoisolamento, devo admitir que já o faço há muitos anos. Talvez desde a infância. Não posso dizer que isso tenha de mudado de alguma forma a minha abordagem à minha atividade. E muitas pessoas na área da arte e intelectualidade também partilham desta opinião, não só na Rússia, mas em Itália ou nos EUA. Sim, muitos de nós somos pessoas que pertencem ao espetro político de esquerda, mas, no nosso trabalho, muitas vezes estamos profundamente mergulhados em nós mesmos. E julgo que isto não é necessariamente mau. A solidariedade dos autoisolados é um bom modelo para as pessoas. Talvez o único. Mas é claro que isto deve permitir o contato corporal!

Não há muito tempo li sobre uma interpretação dos poetas americanos da escola linguística, que paradoxalmente tentaram combinar na sua prática a estética marxista de Lukacs, por exemplo, e uma leitura atenta dos pós-estruturalistas. Esta abordagem à poesia sugeria uma espécie de solidariedade zero, por defeito, que ocorre literalmente no momento em que surge a primeira letra, as primeiras palavras, a palavra livre. Isto poderia ser uma unidade linguística básica. E, como é óbvio, está longe de poder evoluir para uma verdadeira solidariedade na sociedade. Mas sem este primeiro passo, sem esta a primeira instância, a verdadeira solidariedade será uma falsidade.

JB – Como é que a sua capacidade de produzir trabalho foi afetada pela pandemia?

AZ – A minha quarentena começou em Veneza após o anúncio do surto na Lombardia. A minha mulher e eu vivemos entre Itália e Moscovo. Um dia antes do anúncio oficial, felizmente cancelei a viagem que tinha marcado para estar presente no encerramento da minha exposição em Milão, na galeria Canapaneri. A exposição não teve tempo suficiente para fechar. Ainda se manteve ativa durante algum tempo por inércia. A Itália não declarou imediatamente a quarentena. Chegou a haver visitantes. Seguiram-se meses de quarentena. Aquilo que virá ainda não é claro. Deveria participar em duas bienais europeias na primavera de 2020. Ambas sofreram alterações significativas. Felizmente, evitou-se um cancelamento total, embora a situação seja muito instável. Devido à pandemia, toda a minha produção está bloqueada. Posso criar coisas no meu estúdio. Mas sou um artista de produção pós-mediática. O estúdio é imortal para mim enquanto lugar de reflexão. Só periodicamente trabalho mais projetos de forma manual. Agora estou apenas a fazer esboços. Por vezes, as pessoas pedem-me obras para leilões de apoio a médicos ou artistas. Ultimamente tem havido muitos leilões. Mas na Rússia são mais uma forma de entretenimento para colecionadores. Os preços são muito baixos. Estou profundamente imerso nos meus escritos e planos virtuais.

JB – Atualmente, qual é a sua abordagem à colaboração?

AZ – Basicamente, a minha colaboração de hoje é com a luz, o vento e o céu noturno.

JB – Como definiria o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

AZ – Não há muito tempo falei sobre a situação com Boris Groys, que está em quarentena em Nova Iorque. Ele afirmou que o mundo atual está a atravessar um momento interessante de encontro com o seu ideal. Afinal, o vírus há muito que é objeto de desejo, pelo menos para a geração mais jovem. Todos queriam ter um vídeo viral, um texto viral, uma obra de arte viral e agora nós próprios nos tornámos virais. E agora é uma infecção que pode tornar uma pessoa famosa, visível, significativa… Mas, como qualquer encontro com um ideal, não pode acontecer com tranquilidade e de forma indolor. De uma forma geral, estamos algures entre a utopia e a distopia. Penso que descreve muito bem o que está a acontecer.

JB – Acha que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

AZ – Não há muito tempo, os colegas italianos publicaram um manifesto em nome dos Italian Art Workers, pedindo às autoridades que tomem medidas adequadas para apoiar a cultura durante e após a pandemia. Em particular, exigem transparência e respeito pelo trabalho dos artistas, como se fosse uma profissão como qualquer outra. Tanto quanto sei, esta é a terceira tentativa de fazer algo semelhante a um sindicato para os trabalhadores da arte. E está prestes a ter sucesso. Há cerca de dez anos, os meus colegas e eu estivemos envolvidos na criação do mesmo tipo de sindicato em Moscovo. Mas produziu apenas uma longa discussão. Espero que em Itália seja possível fazer mais. Se assim for, então os IAW serão um bom precedente, um bom modelo para a União Europeia e para o mundo em geral. As emergências podem dar-nos também uma oportunidade para um futuro melhor.

JB – E.M Cioran escreve: “nas grandes perplexidades, tente viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como respondem a esta proposta?

AZ – Como um monstro repleto de serenidade, concordo plenamente!

JB – Como é que este tempo está a influenciar a sua perceção de alteridade no geral?

AZ – Sou provavelmente uma pessoa sortuda, a maior parte dos colegas em Itália, na Rússia e nos EUA, a quem escrevi durante a quarentena, responderam com cartas alegres. E, se começarmos a filosofar e a eliminar os riscos para a saúde de quem nos é próximo e todos os inconvenientes, a quarentena fez em relação ao mundo aquilo que os formalistas russos designavam por estranheza ou desfamiliarização. As pessoas tiveram a sorte de vislumbrar o mundo com olhos diferentes, deixando o automatismo familiar. Parece brutal, mas, a meu ver, uma pandemia a diferentes níveis pode ser considerada no contexto das técnicas de arte de vanguarda… E, como qualquer técnica, não deve necessariamente funcionar para o bem.

JB – Como é que a utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da sua produção?

AZ – Na minha prática, trabalho muito com automação. A exposição em Milão, que já mencionei, foi criada pela figura concetual do artista algorítmico Robert Pasternak, que, em meados do século XXI, esteve envolvido na luta política pela completa automatização da escrita. Na exposição foram apresentadas as suas primeiras experiências pictóricas, que incluíram a poesia criada pelo GPT-2. A automatização é uma parte importante do caminho que conduz à libertação da arte, ou mesmo a uma libertação mais radical da arte na forma em que esta existe hoje. E, para mim, como cosmista, é um passo para desenvolver tecnologias de superação da morte e da ressurreição.

JB – Qual é a sua posição sobre a relação entre a catástrofe e a solidariedade?

AZ – Julgo que a catástrofe é um bom ponto de partida para a solidariedade. Perante a catástrofe, as pessoas são iguais. Em primeira instância, pode ser o equivalente à solidariedade zero. Mas a questão é que, no dia seguinte, quando temos algo a partilhar, a solidariedade corre o risco de quebrar. Como tal, uma catástrofe na sua forma mais pura não pode ser a base da solidariedade. E, se falarmos do coronavírus, torna-se óbvio – existe agora um fosso entre os ricos, que podem pagar um bom tratamento, e os pobres, que muitas vezes morrem antes mesmo de serem vistos por um médico. Os ricos, que podem dar-se ao luxo de ficar mais tempo em isolamento, e os pobres, que têm de procurar trabalho para não morrerem à fome. Países ricos, que podem dar-se ao luxo de apoiar a população e pobres ou autoritários, gananciosos, como a Rússia, que não podem fazê-lo.

JB – Qual é agora a sua utopia?

AZ – Dar um passeio com a minha mulher no Castello veneziano, tomar um café no bar, e pedir um Frittelle Zabaione em take-way, caminhar até à beira-mar ou sentar-me algures no Campo Giovanni e Paolo.

 

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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