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Entrevista a Diogo Bolota: Entre o Defeito e o Desfeito

Foi há pouco mais de três meses que inaugurou Defeito Desfeito, exposição individual do artista Diogo Bolota no Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes – Coleção Figueiredo Ribeiro, com curadoria de Luísa Especial. E, se acompanhei a evolução da sua obra nos últimos tempos (e, consequentemente, os desenvolvimentos de alguns dos trabalhos aqui apresentados) dei por mim, ainda assim, na inesperada surpresa que surge súbita, quando somos confrontados e colocados num lugar qualquer de êxtase.

Defeito Desfeito é uma exposição cuidadosamente apresentada, repleta de pistas, analogias, que “com humor” nos provocam. Tal como se este imaginário do artista ganhasse vida. Como se este mundo das personagens, das bocas, velhice ou falsidade que estas representam, encerrasse um universo de identificação emocional, uma possível brecha do exterior para descobrir o interior.

E, se a exposição ressoa à distância, na memória destes dias, seriam estas bocas, este beijo, erotismo anunciado, línguas, toque, também um prenúncio do que agora nos vemos confinados?

 

Carolina TrigueirosDefeito Desfeito é provavelmente a tua maior exposição individual, composta por onze obras inéditas da escultura, ao desenho, pintura, instalação. As peças novas que aqui estão foram desenvolvidas a pensar especificamente nesta exposição? Como vês esta relação com diferentes práticas e qual o estímulo que leva a diferentes formas de materialização?

Diogo Bolota – Todo este projeto começou em 2018. Partiu do desafio desmedido de reinterpretar Le baiser de Brancusi, ou uma ideia de “beijo”. No entanto, esta pesquisa avançou no sentido de encarar a parte da cara que protagoniza o beijo como algo “anterior” à boca, por outras palavras o esqueleto, a dentadura.

Até à exposição Defeito Desfeito, e pela vicissitude da maioria dos projetos para que tinha sido antes desafiado serem espaços reduzidos ou de características muito específicas, fui moldando esses projetos a esses ambientes. Foi como se, para cada intervenção, as peças fossem acondicionadas num saco de cama com o mesmo tamanho que o invólucro do espaço a considerar. Quero com isto dizer que os meus trabalhos têm vindo a surgir mais como pequenos “contos” que grandes “romances”.

Ao ser-me destinado o Quartel de Abrantes vi finalmente a possibilidade de construir uma “frase” com os conteúdos necessários para que o meu trabalho respirasse.

A diferença está entre produzir um corpo de trabalho com vários “adjetivos”, “nomes”, “verbos”; ou ter que dizer a mesma frase com menos nuances.

Defeito Desfeito é uma exposição, mas é, essencialmente, um corpo de trabalho produzido e selecionado a partir do estúdio. Daí surgiu esse estímulo de que falas e a possibilidade de cada uma das práticas que apresento poderem levantar ideias diferentes sobre o mesmo assunto.

A relação que tenho com cada uma é e tem-se sempre revelado muito diferente. Pode ser de cariz conceptual, formal ou simplesmente um desafio às minhas capacidades com base numa vontade de querer fazer. Mas a relação que estabeleço entre todas é o cerne do meu interesse, como se fosse um mapa que, para descodificar, requeresse o domínio de várias línguas. Não me considero um poliglota! Prefiro deixar isso ao critério do observador.

CT – Nesta exposição parece-me que coexistem diferentes dimensões, que de certa forma imprimem um ritmo heterogéneo à exposição. Por um lado, uma grande circunspeção e reflexão – pelo tempo de produção, maturação e analise de cada uma das obras. Por outro, há uma certa inocência que é preservada intacta. Como se fosse possível conservar uma “espontaneidade” que associamos, maioritariamente, à infância… Podes falar sobre esta dualidade?

DB – O desenvolvimento deste trabalho teve o tempo necessário. Além disso, cada exposição é sempre como que a primeira. Apesar de a inocência da infância se preservar intacta, tal como sugeres, e isso reforçar a tal “virgindade” com que o nosso olhar se confronta, foi de forma consciente que cada gesto foi tomado.

O trabalho é o silêncio da criança que espera a sua vez para que a sua voz se ouça, como quando mete o dedo no ar na sala de aulas com dúvidas.

Defeito Desfeito é o desfazer dos preconceitos que temos ao olharmos diariamente essa prática artística e podermos pensar nela com os acasos que lhe surgem. No clímax da montagem a peça Quero, Posso e Mando-me (central na forma como agrega todo o antigo Quartel, o espaço de exposição) ficou resolvida. A rede que faz um plano quase invisível no espaço foi disposta na vertical, de pilar a pilar, quando inicialmente era para assumir outra posição. Interessa-me andar nesse limiar do risco que as peças convocam para que ideias pré-estabelecidas possam ser sobrepostas pelas vozes “autónomas” do rumo dos trabalhos.

CT – Os elementos-chave de Defeito Desfeito situam-se na “região da boca: línguas, dentes e dentaduras”. Como indicado no texto curatorial, “estes encontram-se sujeitos a agregações e a estados variados, como personagens inquietas, em mutação, que transitam entre obras assumindo diferentes desempenhos, protagonizando ações”. Elementos normalmente associados ao medo, às inseguranças, e uma certa passagem de um estado a outro (da infância à adolescência; à velhice), consideras esta exposição também um momento de transição? No teu corpo de trabalho; como se fosse uma nova etapa?

DB – O trabalho, ao ver-se ao espelho, diz: “SOU ASSIM” tal como na peça Retrato patente na exposição. Contudo, foi durante o processo que eu me apercebi como exercia uma força sobre mim para que o seu desfecho fosse aquele que teve. O corpo de trabalho que aqui apresento, não o vejo como momento de transição pois algumas dessas questões vêm desde há muito tempo.

Na nossa vida temos segredos. O desvendar de um segredo, pode ser a nossa maior força de libertação. Ser artista é como ter uma chave para abrir uma porta na medida necessária: fechada, entreaberta, aberta. Expor, pode ser como revelar parte dum segredo para sujeitá-lo a uma vida que o ajude a reconstruir-se.

O tempo passa, nós envelhecemos, a exposição continua a acumular pó e o que espero que se reformule de novo é apenas o “nosso” olhar com o passar do tempo.

CT Como é que que o teu olhar, face a esta exposição, ao longo deste período de pandemia, evoluiu? Como será quando for possível voltarmos a visitar esta exposição e o confronto com as obras?

DB – A paragem que a pandemia implicou fez com que encarasse esta exposição como tendo sido um presságio para levantar antecipadamente questões que foram colocadas neste período. Aqui refiro-me tanto à passagem do tempo e do facto de nada podermos fazer para inverter a passagem desse tempo (que na exposição é representado por via da acumulação da patine nos suportes); como à nossa condição frágil enquanto seres humanos face ao tempo ou ao envelhecimento que ele causa, vulnerabilidade representada pela “dentadura”.

Relativamente ao meu olhar sobre a exposição considero que a pertinência das questões levantadas se mantém e é, em alguns casos, acentuada face ao que vivemos.

Contudo, com a nossa adaptação face ao período de quarentena e pelo facto de ainda não ter regressado a Abrantes, torna-se difícil prever. Assim como ainda não houve o devido tempo para assimilar a realidade nova, não consegui ainda digerir totalmente uma exposição que ainda está a decorrer e cujas portas reabrem a 18 de Maio.

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Diogo Bolota nasceu em Lisboa, onde trabalha. Forma-se pela Faculdade de Arquitetura (Licenciatura) em 2012 e conclui o MA Drawing pela University of Arts of London em 2013.

Tem vindo a expor o seu trabalho desde 2014. Entre as exposições coletivas destacam-se Escuta à procura de som (2019) no Consulado Geral de Portugal em São Paulo, Nome do meio (2018) na Moradia, Cidade Jardim (2017) na Galeria Diferença, Babel (2015) na Miguel Justino Contemporary Art e Canto Chanfrado (2014) no Espaço Avenida 211.

Individualmente expôs Sinalefa (2016) no Mu.sa, Esgaravatar (2016) na Casa-Museu Medeiros e Almeida, Objectar (2016) no Museu Geológico e Sabotagem (2015) n’A Ilha no Maus Hábitos, Porto.

Participou em várias residências, faz parte de várias coleções privadas e tem o seu trabalho publicado na Caixa Negra (Saco Azul) e pela Editora da Fundação de Serralves. Em 2017 foi nomeado para o Novo Banco Revelação, Fundação de Serralves. Em 2019 foi artista residente da Fundação Armando Álvares Penteado.

Carolina Trigueiros vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Comunicação Cultural (2013) entre Lisboa e Barcelona e com uma pós-graduação em Curadoria de Arte na Universidade Nova de Lisboa, tem vindo a trabalhar na área da curadoria, produção e escrita.

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