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Resposta Aberta: Ana Montiel

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Ana Montiel é uma artista visual a residir atualmente no México. A sua prática artística não é definível através dos media a que recorre, assentando apenas em dois temas: perceção e impermanência. Pode ser definida, talvez, como uma reflexão dos limites da experiência humana, questionando a solidez da nossa perceção e mergulhando nas ideias emprestadas das neurociências e de outras disciplinas, como a noção de realidade enquanto alucinação controlada. Para Montiel, os estados alterados da consciência são ferramentas que vão para além do facilmente percecionado, embora abrace também “os estados normais de despertar” como modos de trabalho. O seu processo difere a cada projeto. As ideias subjacentes são aquelas que a ajudam a escolher o meio que mais se adequa a cada peça, seja uma pintura, uma obra digital ou uma instalação VR.

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articulas a tua resposta no discurso público? Qual é o teu papel nesta conversa mais ampla?

Ana Montiel – Não estou a articular qualquer resposta de forma intencional e penso que não me compete dizer qual é o meu papel; apenas faço o que julgo ser correto. Penso que o elemento-chave nestes tempos incertos (e sempre) é sermos tão honestos, abertos e humanos quanto possível. Sentir empatia, manter uma atitude de discernimento. Manter a nossa mente o mais equilibrada possível e o nosso coração aberto.

JB – A tua prática artística tem mudado ao longo do isolamento?

AM – Este isolamento temporário está a fazer com que aprofunde claramente a minha prática artística. Há menos distrações e muito alimento para o pensamento.

JB – Como é que a tua capacidade de produzir trabalho foi afetada pela pandemia?

AM – Algumas obras de arte, e também projetos que envolveram outras pessoas na produção, estão em pausa por razões óbvias. Mas as peças que elaboro sozinha estão a avançar a pleno vapor. Mudei-me para este novo sítio em fevereiro passado, uma casa grande na Cidade do México, com muitas áreas diferentes que servem vários fins. Até agora, trabalhar aqui tem sido um processo bastante fluido.

JB – Atualmente, qual é a tua abordagem à colaboração?

AM – Estou sempre aberta a colaborar e a trocar ideias.

JB – Como definirias o momento presente do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

AM – Vejo-o como um rito global de passagem, uma espécie de iniciação que precisamos de enfrentar com abertura e uma mentalidade positiva, para que possamos reformular paradigmas obsoletos e construir estruturas melhores e mais fortes para o futuro. Esta situação está a mostrar-nos as nossas sombras para que possamos enfrentá-las. Por vezes, pode parecer esmagador, mas o crescimento não acontece quando estamos confortáveis.

JB – Achas que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

AM – Cada país é uma história diferente… algumas regiões apoiam as artes mais seriamente do que outras. Honestamente, não faço ideia do impacto desta situação, são tempos sem precedentes e a minha opinião seria uma simples conjetura… Há quase seis anos que vivo no México, antes vivia em Londres. Quando me mudei para cá, fiquei um pouco chocada com a falta de apoio governamental – não só em relação às artes, mas no que diz respeito a muitas outras coisas. Sinto que há nisso um lado positivo, pois cria uma enorme resiliência entre as pessoas e uma notável flexibilidade para enfrentar crises e incertezas. Aquilo que considero fundamental em todo este processo é não tentar replicar sistemas antigos, mas sim lutar para encontrar novos. Esta pausa está a dar-nos tempo para pensar. Talvez venham a nascer ideias inovadoras que permitam plantar sementes para um futuro melhor!

JB – E.M Cioran escreve: “nas grandes perplexidades, tente viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como responde a esta proposta?

AM – É importante estarmos abertos àquilo que é novo sem esquecermos o passado, para que não repitamos os erros de outrora. Temos de ser humildes e responsáveis pelos nossos atos. Assumirmos as nossas palavras, cumprirmos aquilo que prometemos. Sermos empáticos e termos em conta o maior número possível de pontos de vista… em suma, garantir que a equanimidade está sempre presente!

JB – Como é que este tempo está a influenciar a tua perceção da alteridade no geral?

AM – Reflito bastante sobre a ideia de alteridade… ainda mais nos últimos tempos, pois estou a fazer meditação mais do que é habitual durante a quarentena. Isto pode parecer um pouco estranho, mas transcender o eu para que nos possamos misturar e fundir é um pensamento que me é recorrente. Se conseguíssemos largar a ideia do “eu” para experimentarmos mais vezes a unicidade, o mundo seria um lugar mais amável, mais empático.

JB – Como é que a utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da tua produção?

AM – Pessoalmente, quanto mais uso a tecnologia e maior é a vida virtual, mais desejo (e procuro) a intimidade real e vivenciar uma experiência verdadeiramente sensorial do meu ambiente. Preciso desse equilíbrio, no meu trabalho e na minha vida.

JB – Qual é a tua posição sobre a relação entre a catástrofe e a solidariedade?

AM – É um assunto delicado… Perante uma crise, nós, humanos, viramo-nos mais facilmente para a solidariedade. Tornamo-nos mais humanos e as nossas prioridades parecem ser mais claras do que antes… Estamos todos unidos contra algo… Mas o que acontece quando o “mal externo” desaparece? A nossa humanidade permanece ou voltamos às nossas vidas ocupadas e egocêntricas? Tenho fé na humanidade, mas sinto que há muito trabalho a fazer enquanto coletivo. E, para chegarmos lá, precisamos de fazer um trabalho pessoal, cada um de nós, individualmente. Felizmente, este tempo de desaceleração e de autorreflexão é uma grande oportunidade para tal. 😉

 

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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