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Resposta Aberta: The Cool Couple

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

O The Cool Couple (TTC) é uma dupla de artistas sediados em Milão, fundado em 2012 por Niccolò Benetton (1986) e Simone Santilli (1987). A sua pesquisa incide nos pontos de fricção quotidinaos da relação entre pessoas e imagens. Os seus projetos vão da fotografia artística aos panos eletrostáticos, das salas de meditação às bandas cover chinesas. O trabalho da dupla tem sido exposto em instituições como o Center for Contemporary Culture Strozzina (Florença), Les Rencontres des Arles, Museu MACRO (Roma), Museo del ‘900 (Milão) ou Galleria Civica di Trento. O TCC recebeu o prémio Francesco Fabbri para a Fotografia Contemporânea (2014), o prémio Graziadei (2015), o prémio Euromobil Under 30 (2017) e o prémio Artverona Photography. Em 2019 a dupla venceu ainda o Prémio Johannesburg, promovido pelo MIBAC, IIC Pretoria e pela Fundação Nirox. O The Cool Couple lecionou também na NABA (Milão), na Universidade IUAV (Veneza), na University of South Wales (Newport), IED Torino, ISSP (Riga) e no Made Program (Siracusa).

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articulam a vossa resposta no discurso público? Qual é o vosso papel nesta conversa mais ampla?

The Cool Couple – É complicado encontrarmos uma orientação nesta realidade, que interliga a nossa própria intimidade com as dinâmicas de grande escala. Transformando-nos muitas vezes em testemunhas passivas da implantação de um Estado policial justificado pelo medo. Talvez seja a natureza multíplice desta epidemia – que não afeta apenas a biologia, mas também as infraestruturas de comunicação e as viagens nas redes logísticas de alta velocidade que permitiram o surgimento da nossa vida abundante. É por isso que é nos tão difícil dizer algo a esse respeito. Continuamos a recolher impressões e ideias, começamos a confrontar a nossa opinião com as opiniões de outros, na maioria amigos e colegas. Neste momento talvez seja demasiado difícil articular uma resposta. Mas será que devemos fazê-lo? Em caso afirmativo, porquê? Quais são as dinâmicas sistémicas que esperam uma resposta dos artistas, num momento em que a cultura é a menor preocupação das pessoas? Sabemos que há uma imagem a circular no internet a afirmar que não se pode viver sem artistas, fazendo menção a uma vida sem livros, música, cinema, pintura, pornografia, etc. Mas parece que neste momento podemos viver sem pinturas. Entre todas as coisas referidas, estas são as menos mencionadas e aparentemente menos essenciais.

Isto não quer dizer que a nossa resposta seja inútil, mas a quarentena e o isolamento forçado – será que nos podemos referir a isto como uma paragem forçada no frenesim do mundo artístico, na sua necessidade bulímica por eventos e pela produção de conteúdos? – representam uma rutura útil durante a qual podemos analisar as questões estruturais que afetam a prática da arte como profissão e, de uma forma mais geral, as formas como o mundo artístico afeta a vida e a carreira de todas as partes menores envolvidas.

Mas continua a ser necessária uma resposta. Desta vez, podemos livrar-nos da FOMO, o modo artístico onde sobrevive o mais forte, que carateriza a nossa vida quotidiana, e tentar fazer algo para melhorar a nossa situação.

Após esta crise, recomeçaremos tudo de novo – num mundo novo. Lá, as nossas vidas serão profundamente alteradas, não só pelo trauma, mas também pelas muitas revoluções subtis que ocorrem nestes dias sombrios e alteram a ideia de “trabalho” e “liberdade”.

JB – A vossa prática artística tem mudado ao longo do isolamento?

TCC – Seria errado dizer que a nossa prática artística mudou com o isolamento. Antes de mais, não estamos totalmente isolados: felizmente, fazemos parte daqueles que passam a quarentena com os seus cônjuges e amigos, o que certamente ajuda. Mas não podemos ir ao estúdio. Atualmente, estamos a 250 km um do outro, pois o Niccolò regressou à sua cidade natal, enquanto o Simone está em Milão. Mas trabalhamos na mesma.

Estamos habituados a trabalhar de forma inteligente e, muitas vezes, discutimos projetos através do Skype, ao telefone ou noutras plataformas. No nosso caso, acaba por não ser uma grande mudança. Claro que difere de uma situação cara-a-cara, mas estamos habituados a este tipo de colaboração e já a testámos várias vezes no passado.

JB – Como é que a vossa capacidade de produzir trabalho foi afetada pela pandemia?

TCC – A nossa prática não necessita necessariamente de um estúdio ou de um espaço físico, dada a sua natureza baseada na investigação e a nossa abordagem que privilegia a conceção em detrimento da produção. Claro, todas as nossas produções neste momento estão paradas: os laboratórios estão todos fechados. As exposições futuras estão também mergulhadas num estado de incerteza.

Mas estamos a trabalhar num novo projeto a longo prazo que, neste momento, requer isolamento e concentração. Esta situação é quase uma dádiva, embora afetada pelos medos assombrosos e pela ansiedade constante que sentimos por quem nos é mais próximo, alguns diretamente expostos à realidade dramática dos hospitais, outros com um histórico clínico que os torna pessoas de alto risco.

JB – Atualmente, qual é a vossa abordagem à colaboração?

TCC – A nossa prática é profundamente colaborativa, não só por sermos um coletivo, mas também por, desde o nascimento do The Cool Couple, termos sempre feito do trabalho em rede um dos elementos mais importantes. Neste momento, estamos a tentar confiar na web enquanto ferramenta para manter vivas todas as nossas redes. Estamos a fazer experiências, não só com reuniões online – a maior parte da nossa atividade neste momento –, mas também com happy hours online, chamadas, etc. Não sabemos o que funciona melhor. E temos de admitir que, fora do mundo da arte, há pessoas que utilizam as mesmas ferramentas de uma forma que é altamente inspiradora. Fazemos aquilo que neste momento parece ser a tarefa coletiva mais convincente, à escala global: ultrapassar a distância física e fugir aos horrores que se desenrolam imediatamente fora das nossas casas.

JB – Como definiriam o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

TCC – Não sabemos se conseguimos apresentar uma definição capaz de abranger a complexidade desta situação. É nova e está a alterar dramaticamente as nossas vidas. Com certeza, não voltaremos ao mundo de antes.

São anos em que discutimos o presente e a decorrente sensação de estase, uma sensação que mistura a ideia de perda com a consciência da impossibilidade de recuperar o passado. O vírus é um exemplo tangível disso mesmo. É um limiar após o qual as coisas vão parecer mais ou menos as mesmas, mas vão estar profundamente alteradas na sua natureza. Com o vírus, estamos a trocar a nossa liberdade pela nossa segurança.

Citando os versos de T.S. Eliot, que aparece numa das cartas do Cards Against Humanity, “É assim que o mundo acaba”. Esta é a forma como o mundo acaba. Não com um estrondo, mas com ___________ .”

JB – Acham que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

TCC – Apenas se formos capazes de explorar este momento de rutura forçada para nos concentrarmos no que queremos mudar. Podemos partir dos nossos sentimentos, talvez. Muitos de nós temo-nos sentido irritados com os inúmeros pedidos de participação em iniciativas artísticas ou exposições online sobre o vírus e a quarentena, como se a produção de obras de arte neste momento devesse ser a coisa a fazer.

Em vez disso, apenas alimenta um sistema em que o trabalho artístico é frequentemente negligenciado e não reconhecido como tal. Os artistas não passam incólumes à crise, mas muitos não pensam nisso. Talvez porque a arte é abordada ingenuamente, como uma dimensão mais pura, distante ou oposta ao sistema político-económico que está agora à beira do colapso.

JB – E.M Cioran escreve: “nas grandes perplexidades, tente viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como respondem a esta proposta?

TCC – É curiosamente verdade. O que estamos a viver é, para muitos, pura ficção científica.

Infelizmente, não o é para nós. Já estava tudo lá. Praticamente, já todos o experienciámos: através de filmes, livros, videojogos. Muitos de nós regressámos ao espaço dos jogos, onde lutamos em diferentes campos contra ameaças metafóricas, que são simplesmente variantes do vírus que nos pressiona a partir do exterior.

E pensamos – ou, melhor, somos levados a pensar – também de formas monstruosas. Embora não comparável, esta situação recorda-nos os contos sobre as atrocidades que os nossos avós viveram durante a Segunda Guerra Mundial. É incrível a forma como mudamos facilmente para o modo de sobrevivência e como os nossos pensamentos se tornam bárbaros quando deixamos de pensar nas consequências. Ou quando simplesmente nos deixamos ir.

Infelizmente, é esta a realidade. Todos nós lemos as histórias dos call centers que o nosso governo criou para ajudar as pessoas a gerir a emergência. Há algumas áreas em que os cidadãos se habituaram tão rapidamente à morte e ao sofrimento que nem sequer choram quando os seus familiares morrem. E tudo isto nos parece, a algumas centenas de quilómetros de distância, como as notícias que chegam do Médio Oriente em matéria de guerra. A monstruosidade está a surgir a vários níveis, atualmente. É estranha a forma como a natureza está a recuperar o controlo do ambiente. É perturbadoramente graciosa. É um espetáculo totalmente inacessível para nós, com baleias e golfinhos a prosperar no mar, e a aproximarem-se dos portos, animais invisíveis a aparecerem fora das cidades. O ar purifica-se, e assim por diante.

JB – Como é que este tempo está a influenciar a vossa perceção de alteridade no geral?

TCC – O tempo e a alteridade estão profundamente ligados. Por vezes, perdemos a perceção do tempo, sem a rotina e o seu ritmo. Passam-se dias sem grandes acontecimentos para recordar. Trabalhamos, tentamos manter os hábitos habituais, mas não é fácil. O tempo está a expandir-se e isso torna-se ligeiramente alienante.

JB – Como é que a utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da vossa produção?

TCC – Não temos a certeza se podemos definir a situação do ponto de vista evolutivo. A forte dependência do mundo virtual é um incremento dos hábitos que já tínhamos. Tentamos compreender como podemos explorá-lo para melhorar o que fazemos. É como se nos fosse dado tempo para testar novas ferramentas.

É claro que isto se aplica a nós, mas, se olharmos de uma forma mais ampla, a forte dependência da tecnologia pode revolucionar a indústria do trabalho num futuro próximo.

JB – Qual é a vossa posição sobre a relação entre a catástrofe e a solidariedade?

TCC – Parece que é necessária uma catástrofe para nos lembrarmos de que nos podemos ajudar mutuamente. Porém, somos ligeiramente críticos da retórica que acompanha este momento de solidariedade nacional e local. Há uma grande dose de patriotismo: pessoas a cantar o hino nacional à janela, vários hashtags na internet, jornais e noticiários que se esforçam para encontrar o herói do dia. Soa tudo demasiado patriótico. Olhar para a epidemia como um inimigo a derrotar faz de todos nós soldados, combatentes. Não estamos a lutar. Há pessoas que trabalham arduamente para salvar vidas, como fazem todos os dias. E, normalmente, sofrem cortes orçamentais e salariais por parte dos governos votados pela maioria. A solidariedade pode ser feita todos os dias; tem de ser praticada agora. Há muitas maneiras de ajudar: ficar perto daqueles que estão sozinhos em casa, preocupar-nos com as relações que normalmente tomamos como garantidas. Acima de tudo, isto não pode parar quando a emergência acabar.

JB – Qual é a vossa utopia agora?

TCC – Infelizmente, no horizonte vemos uma distopia.

Seria bom pensar que aprendermos uma lição; falemos do ambiente: é agora evidente e incontroverso que os seres humanos (aceitemos esta generalização contraditória) contribuem enormemente para a destruição da biosfera terrestre. Já o sabíamos, mas agora é difícil para os negacionistas manterem as suas posições. Há provas incontestáveis de que as infraestruturas produtivas e logísticas causam poluição. Seremos nós capazes de transformar essa consciência em ação? Ou será mais provável que, uma vez terminada a emergência, nos esqueçamos disso?

 

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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