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Arthur Jafa em Serralves

Com sua primeira exposição em Portugal, o reconhecido artista, cineasta e diretor de fotografia Arthur Jafa, vencedor do Leão de Ouro da Bienal de Veneza 2019, utiliza o espaço expositivo do Museu Serralves para nos questionar: o que sabemos sobre a cultura negra?

Dividida em duas partes, a exposição A series of utterly improbable, yet extraordinary renditions foi primeiramente montada na Serpentine Sackler Gallery, em Londres, em 2017. Já parte do trabalho mais maduro do artista, a exposição reúne obras desenvolvidas durante três décadas, que variam desde os filmes – o seu meio mais tradicional de expressão – até esculturas e fotografias. Na questão temática, aborda o que é principal na vida do artista: o questionamento sobre as suposições culturais, envolvendo identidade e raça.

Assim que entramos, somos convidados a usar headphones com diferentes canais de áudio que devem ser alterados de acordo com a sinalização de cada filme exibido nos quatro telões. Imediatamente somos impactados por uma montagem de vídeos de astros do jazz, imagens de brutalidade policial, objetificação de corpos, conjuntos de imagens e materiais de Missylanyus disponibilizados no YouTube que nos colocam numa corda bamba entre a admiração e a segregação da cultura afro-americana.

Nas paredes, conjuntos de imagens coletados da internet se contrapõem com fotografias históricas ampliadas de forma a revestir partes das salas do teto ao chão. Ao olharmos para o painel, somos recebidos por uma avalanche de “randomicidade seletiva” que vai de Rihanna a ampliações microscópicas, de Mickey Mouse a ficção científica, cenas de violência, imagens históricas, ícones da cultura negra. De forma sutil, Jafa nos mostra que ao focarmos nesse painel e nesse conjunto de ícones e símbolos, damos as costas – literalmente – às imagens históricas que moldaram os comportamentos preconceituosos que temos até hoje.

Além de outras fotografias, imagens e esculturas de Jafa, as convidadas Ming Smith (fotógrafa) e Frida Orupabo (artista visual) também contribuem para a reflexão política e o questionamento sobre a história da estética visual afro-americana.

Mas quem é Arthur Jafa e por que sua obra artística orbita tanto ao redor das questões raciais?

Sendo afro-americano e tendo nascido em 1960 no Mississippi, Estados Unidos, Jafa, ainda quando criança, percebeu a segregação por experiência própria: sua turma do primário foi uma das primeiras a ter integração entre crianças brancas e negras. Com 12 anos iniciou uma coleção de fichários com colagens de imagens recortadas de revistas e que se tornou uma das obras presentes na exposição, a série The Books.

Outros grandes fatores que influenciaram sua obra artística foram sua paixão por programas televisivos de ficção científica, sua formação em arquitetura e cinema na Howard University e seu grande interesse pelo estilo musical jazz, especialmente por Miles Davis.

Arthur Jafa já teve seu trabalho exposto no Institute of Contemporary Art em Boston (2018), no Museum of Contemporary Art (MOCA) em Los Angeles (2017), no Whitney Museum of American Art em Nova Iorque (2001), no Media City em Seoul (2000), no CCAC Intitute em Oakland (2000) e no Artists Space em Nova Iorque (1999), entre outros.

Como parte de sua trajetória no cinema, foi diretor de fotografia no filme Daughters of the Dust (1991) dirigido por Julie Dash, que ganhou o prêmio Excellence in Cinematography no Sundance Film Festival, trabalhou com Spike Lee em Crooklyn (1994) e com Stanley Kubrick em Eyes Wide Shut (1999). Além disso, o artista fez um documentário chamado Dreams are Colder than Death (2013), explorando o significado de ser negro atualmente nos Estados Unidos, e o impactante filme Love is the Message, the Message is Death (2016), que faz parte da exposição no Museu Serralves.

Este, que é exibido na Casa de Cinema Manoel de Oliveira, dura sete minutos e se compõe de um conjunto de imagens fotográficas, fílmicas e videográficas montadas de forma a – assim como o resto da exposição – questionar a cultura negra contemporânea nos Estados Unidos. Vemos cenas de reportagens policiais, celebridades, anônimos, feitos históricos, imagens de arquivo, partes de filmes de cinema, tudo ao som de Ultralight Beam, de Kanye West. Numa poderosa forma de encerrar a exposição, Arthur Jafa consegue fazer-nos sentir parte responsável por aquilo que assistimos. Saímos com uma culpa por não sermos nós mesmos os questionadores daquilo que vemos diariamente, por virarmos de costas àquilo que é considerado um passado distante. De forma provocadora e brilhante, o artista nos mostra que o que sabemos sobre a cultura negra é aquilo que nos foi dito, mostrado e contado por interlocutores brancos.

Parte de Love is the Message, the Message is Death pode ser vista abaixo.

A exposição no Museu de Arte Contemporânea Serralves, no Porto, tinha como data de encerramento 21 de Junho, mas deve sofrer alterações devido à pandemia do Coronavírus.

NOTA: No dia 21 de abril, às 18h, Arthur Jafa vai estar à conversa com Philippe Vergne, em direto, no Instagram de Serralves.

 

 

Nascida em Campinas, Brasil, Marina Gallani, 24, é fotógrafa e bacharel em comunicação social, com habilitação em publicidade e propaganda pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM - SP). Tendo trabalhado como assistente de criação na área de branding e design nos últimos três anos, em 2019 se mudou para o Porto, Portugal, e atualmente faz Mestrado em fotografia na Universidade Católica Portuguesa. Além desse principal campo de pesquisa e interesse, também é apaixonada por arte e pretende expandir seus estudos para a curadoria.

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