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Resposta Aberta: Kasya Denisevich

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Kasya Denisevich é filóloga, tradutora e artista gráfica. Nasceu e cresceu em Moscovo, Rússia, onde estudou literatura comparada na Universidade Estatal Russa para as Humanidades. Durante anos, teve uma carreira académica em estudos italianos e na tradução livros. Mais tarde, mudou-se para Barcelona, Espanha, e a sua vida profissional passou a ser marcada pelas artes gráficas e pela ilustração. Prosseguiu os seus estudos na Escola Massana de Barcelona e depois na MiMaster de Milão.

Kasya ilustrou vários livros para jovens leitores. O seu trabalho como ilustradora foi premiado e exibido em várias Feiras do Livro (incluindo a Feira do Livro Infantil de Bolonha, em 2017). O seu livro de estreia, Neighbors, narra a história da experiência interior de uma menina quando a sua família se muda para um novo edifício, será publicado nos EUA pela Chronicle Books a 22 de setembro de 2020.

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articulas a tua resposta no discurso público? Qual é o teu papel nesta conversa mais ampla?

Kasya Denisevich – O meu papel é diminuto, tal como o de todos os outros. Julgo que este é o momento de abraçar a nossa pequenez e vulnerabilidade, de sermos humildes. Precisamos de deixar de acreditar na omnipotência humana e na nossa capacidade de controlo. É a única resposta redentora em qualquer discurso, emocional ou público, perante o estado atual de coisas.

JB – A tua prática artística tem mudado ao longo do isolamento?

KD – Regressei imediatamente aos meus projetos pessoais, em vez de fazer as encomendas. Espero que nenhum dos meus comissários leia isto.

JB – Como é que a tua capacidade de produzir trabalho foi afetada pela pandemia?

KD – Não foi.

JB – Atualmente, qual é a tua abordagem em relação à colaboração?

KD – A colaboração geralmente não me é fácil; raramente me contactam. Mas é claro que esta experiência coletiva produzirá muitas colaborações, e viver este tempo intenso ao lado de outras pessoas terá também um impacto em mim.

JB – Como definirias o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

KD – Neste momento, estou sentada na minha sala, onde estive quase continuamente nos últimos 10 dias e onde, tanto quanto posso antever, vou estar durante semanas e talvez meses. Sei exatamente como a luz vai mudando em diferentes alturas do dia. Vejo as flores que comprei antes da quarentena. como, trabalho e falo aqui com as minhas filhas. Nunca tinha estado tão presente aqui.

Julgo que este é o momento em que todos estão muito presentes.

JB – Achas que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar de as macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

KD – Claro. Tudo volta sempre ao normal. A questão é saber quanto tempo vai demorar, mas não quero especular sobre isso, o ar está atualmente saturado de especulações.

JB – E.M Cioran escreve: “nas grandes perplexidades, tente viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como respondes a esta proposta?

KD – Normalmente, estou bastante afastada do pessimismo de Cioran. Gosto de encontrar ligações, sinais, ligações, rimas – chamemos-lhe significado ou poesia, na vida. Mas devo dizer que a perplexidade agradável pode ser apenas a posição mais reconfortante no momento atual. Por isso, pergunto-me: o que faria hoje um monstro repleto de serenidade? O meu único palpite é arte.

JB – Como é que a tua utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da tua produção?

KD – De momento, tento ficar o mais longe possível da tecnologia. Julgo que esta privação sensorial, juntamente com a hiperactividade das redes sociais, me faz apreciar ainda mais o contacto físico com objetos.

JB – Qual é a tua posição sobre a relação entre catástrofe e solidariedade?

KD – A solidariedade é importante, claro. Mas a beleza do momento não está em estarmos juntos, está em estarmos separados e sincronizados. Gosto de imaginar quantas no mundo estão a olhar para a parede neste momento. Quantas pessoas estão no mesmo silêncio, na mesma solidão e, esperemos, na mesma introspeção.

JB – Qual é a tua utopia agora?

KD – É tão difícil pensar em utopias quando o mundo está subitamente suspenso. Torna-mo-nos nostálgicos perante todas as coisas normais.

 

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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