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Amor-Próprio de Ana Vidigal

Uma vez que nos encontramos num periodo de quarentena, a exposição Amor-Próprio não pode ser visitada, no entanto a artista, amavelmente, disponibilizou um vídeo para fruição das obras virtualmente.

A exposição Amor-Próprio, de Ana Vidigal, conduz-nos a um invariável exercício de revisionismo, em parte no seio do feminino. As imagens, sucedem-se, e transportam-nos para uma ideia de conexão com uma imagem primordial, única e central. Ao redor dela todas as outras gravitam, em singelas transmutações, e ténues modificações.

É como se, no sistema complexo das imagens, houvesse uma que fosse a eleita, e em torno dela se modificassem e transfigurassem todas as outras. Assim, consoante a posição que a artista ocupa, lá onde se prefigura a imagem central, na sua própria perceção, sobressaem intenções de relação entre um presente e um passado. Um passado que, nas recordações da artista, se prodigaliza, dissipa, expõe e arrisca, em torno de uma ideia de que não há imagens que se sobreponham, ao longo do tempo, em importância, umas em relação a outras. Mas sim apenas aquelas que o artista decide desvelar e enfatizar.

O ser que recorda compreende que acabará por se deslocar da sua posição central, e não mais verá do que as imagens na sua real proporção, na posição que todas as outras ocupam. Como comprovam os esquemas de renda e bordados, provindos das velhas revistas amarelecidas de Fada do Lar, intervencionadas pela artista. Reforçam a ideia de memória de uma certa mulher, evocada por Vidigal. Num esforço de modificação, reconstrução dessa memória, a artista diz, talvez por isso, tratar-se de: “pincelar em cima da memória”. Consciente do permanente movimento e deslocação da primeira memória, para o ajustamento da memória que a artista deseja. Porque memória também é modificar, acomodar a história de modo a torná-la favorável, confortável, e agradável a quem a recorda. E assim Ana Vidigal, com esta exposição, esclarece: “pincelar em cima da memória”, mas “dando cabo dela”.

Pinceladas, umas mais densas e opacas, outras mais finas e singelas, entremostram as particularidades de um tempo remoto, representativo de um feminino que, em surdina, se submetia a uma obediência cega, e se abandonava a rituais e práticas repetitivas que consolidavam essa humilde bonomia. A mulher reunia assim esforços em servir o futuro marido, criando o conforto, ainda em menina, através do enxoval construído, por amor ao outro. Habitado por imagens cândidas de dóceis pequenos patos, figuras campestres, rendas sinuosas. Tudo para colocar sobre a mesa, em nome da obediência.

Em Vidigal será imprescindível falar de memória, memória afetiva. Não é memória de Ebbinghaus, essa que defendia o ato da repetição para produzir a lembrança. A mesma que ajudava a memorizar a tabuada, tão própria dessa época, apologista de uma aprendizagem de “empinanço”, que víamos no tempo da Fada do Lar, trabalhadas pela artista.

Tacitamente, pelas mãos da mulher prendada, vão-se reproduzindo ações repetidas, automáticas, até à ambição da perfeição. As imagens usadas por essas mulheres, como esquemas, diagramas, desenhos de bordados, que nos retinam na memória, são assim devolvidas pela artista, em forma de manchas: umas padronizadas, outras de contornos mais diluídos.

No Espaço 531 da Galeria Fernando Santos, Porto.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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