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Epigramas de Isabel Madureira Andrade no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva

Na sequência da sua participação no Prémio Novos Artistas da Fundação EDP no ano passado, 2019, os trabalhos de Isabel Madureira Andrade, artista natural dos Açores, encontram-se agora expostos na exposição Epigramas na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva em Lisboa.

O epigrama, termo que dá nome à exposição, foi criado na Grécia Antiga para indicar uma inscrição sobre um objeto, uma estátua ou um túmulo, de um determinado verso ou poema. É através de inscrições feitas sobre tela a partir de objetos que apresentam uma determinada grelha, padrão geométrico regular ou desenho que Isabel Madureira Andrade explora o diálogo entre linha, mancha e cor, criando breves composições poéticas. “Interessa-me fixar uma determinada estrutura para depois poder pensar apenas ao nível da pintura. Interessa-me a repetição e que variantes podem resultar daí”, refere a artista.

A peça Sem Título (díptico) foi o ponto de partida para o desenvolvimento dos restantes trabalhos da exposição. O díptico foi executado imediatamente a seguir à exposição no MAAT, a propósito do Prémio Novos Artistas da Fundação EDP, surgindo na sequência do friso composto por doze pinturas aí apresentado. O trabalho caracteriza-se pela apropriação de objetos do quotidiano, que são utilizados como “matrizes mediadoras da produção de imagens”. Uma característica comum a todos estes objetos são os padrões geométricos contidos nas suas superfícies que a artista decalca nas suas telas, através de um processo semelhante à técnica de frottage surrealista. Para esta exposição, Isabel Madureira Andrade rompe com a sua frequente apropriação de geometrias de objetos encontrados ou adquiridos, concebendo pela primeira vez os seus próprios desenhos em linha e utilizando corda de sisal.

A linha é assim um motivo que é agora introduzido no seu corpo de trabalho. Linhas que se cruzam e se entrelaçam, originando registos fluidos que se distanciam dos padrões rigorosos utilizados anteriormente. Uma vez fixados esses motivos, inicia-se uma investigação ao nível da cor, um pensamento focado na disciplina da pintura, através de uma sobreposição de camadas dispostas sobre telas desengradadas nas quais se inscrevem esses motivos de modo a permitir vislumbrar as cores nas camadas inferiores. A combinação entre a tinta de óleo e a tinta acrílica, a reação entre um e outro elemento e o resultado da sua sobreposição são aspectos fundamentais para esta investigação.

O ato de desenhar antecede, pois, o ato de pintar. Este momento antes de existir pintura interessa especialmente à artista, que procura aprofundar a relação que estabelece com os materiais antes do ato de pintar, numa tentativa de compreender “o que é que existe antes como possibilidade de alguma coisa”. Se antes essa relação passava pela apropriação de padrões geométricos rígidos e estáticos existentes em materiais industriais e, portanto, fabricados a partir de mecanismos que permitem a sua perfeição formal, recentemente os desenhos em sisal de Isabel Madureira Andrade apresentam, pelo contrário, uma fluidez inerente às formas orgânicas que resultam do ato humano de desenhar pela sua própria mão onde “acidentes formais” se tornam intenções sendo possível reconhecer determinadas silhuetas que encontram referentes reais que nos são familiares.

Para além dos trabalhos sobre tela, são apresentadas pinturas sobre papel que complementam a pesquisa desenvolvida pela artista. Pinturas que surgiram da necessidade de visualizar as cores justapostas ao invés de sobrepostas e de compreender o diálogo que é estabelecido entre elas nessa condição. Após a aplicação do pastel de óleo, através de um processo de raspagem, Isabel Madureira Andrade retira-lhe a cera de modo a que apenas o óleo, ou seja, o pigmento, fique impregnado no papel sem o acabamento brilhante que a cera naturalmente lhe confere. Assim, a textura do papel torna-se o acabamento da cor que permanece na sua superfície, textura essa que lhe atribui um aspecto difuso.

Epigramas de Isabel Madureira Andrade, exposição organizada em colaboração com a Fundação EDP, poderá ser vista até 12 de abril na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva.

(NOTA: Epigramas termina no dia 12 de abril, mas não poderá ser visitada devido à pandemia COVID-19. Fica, assim, o registo escrito da exposição, para memória e arquivo da mesma.)

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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