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Estás vendo coisas, Bárbara Wagner e Benjamin de Burca na Galeria da Boavista

Bárbara Wagner e Benjamin de Burca apresentam-se em Lisboa, na galeria da Boavista, com duas instalações-vídeo. No andar inferior RISE (2018), no superior, a peça que dá título à exposição, Estás vendo coisas (2016). A ascensão da dupla e a projecção internacional do seu trabalho em pouco mais de uma década são impressionantes. Destacando-se recentemente, em 2016, a participação na 32ª Bienal de São Paulo, em 2017 no Skulptur Projekte Münster e, em 2018, a representação do Brasil na 58ª edição da La Biennale di Venezia. Em Lisboa, a exposição com curadoria de Rayne Booth demonstra o peculiar à-vontade com que as suas obras fluem entre os diferentes espaços e contextos artísticos, sejam eles mais próximos das artes visuais, como as galerias e os museus, ou do cinema, como sucedeu com a projeção de Swinguerra (2018) no dia 17 de Janeiro no Cinema São Jorge. Ambas as situações realçam diferentes características da produção audiovisual de B. Wagner e B. de Burca que (também) dança magistralmente entre o cinema documental/ficção, e o comprometimento com a experiência estética.

A porosidade do trabalho de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca revela-se intimamente ligada aos seus percursos heterogéneos, à diversidade dos grupos a que se juntam para colaborar, e ainda ao modo  como decidem abraçar a cultura popular – que convém não confundir com a Pop Art, pois não se trata da cultura hegemónica mas sim da que é relativa às formas de expressão das minorias –, sem caírem nos lugares-comuns a que esta costuma ser associada.

Os dois projectos, um filmado no Canadá o outro no Brasil, partilham a excelência da produção técnica – é primorosa a exploração da imagem e do som -, e o trabalho intenso ao nível do guião, embora claramente indissociável das vontades e dos estímulos apresentados pelos grupos colaboradores. E esse talvez seja o aspecto mais notável a nível narrativo: apesar de não haver nunca uma sensação de improviso, também não se descortina uma intenção de “dar voz” àquelas pessoas – dançarinos, cantores ou Mc’s, reais -, porque isso seria assumir que partem numa posição de inferioridade; como tantas vezes acontece, “dar voz” a estes grupos significaria “objetificar a sua voz”, pois ela já existe, é autónoma e é resistência. As duas peças de B. Wagner. e B. de Burca. são impressionantes porque escutam, dão espaço e partilham o controlo; é através da confluência dos diferentes contributos individuais que a obra se faz; e faz algo novo.

RISE (2018), passa-se numa estação de metro recém-inaugurada na periferia de Toronto e foca um grupo de spoken word (Reaching Intelligent Souls Everywhere) que agrega rappers, poetas e Mc’s locais. O lugar de rodagem, que passou a possibilitar a ligação de uma zona suburbana ao resto da cidade, é metáfora para as preces dos membros do grupo que partilham entre si o desejo de pertença, de criar raízes e de poderem viver sem serem condenados a priori por questões de género, raciais ou sociais. “I still introduce myself to people by mispronouncing my name/ I feel slightly embarrassed when people pronounce it properly because/ if it is not smooth on the Anglo tongue / then saying my name sounds more like / “Go back where you came from” (Timaaj). No entanto, deve-se frisar novamente que estes trabalhos não se fazem valer apenas pela mensagem, ou pela história que poderão contar. A qualidade estética das imagens e do som fazem-nos mergulhar numa experiência sensorial intensa, bem explorada pelo display minimal e concordante na galeria da Boavista.

No andar superior, numa black box, passa Estás vendo coisas (2016), gravado em parceria com um grupo de jovens cantores de “brega” da região periférica do Recife, que procura gravar videoclipes. Aqui é posta em causa a ideia de operatividade individual, por um lado a vontade dos jovens de serem profissionais, por outro a necessidade de industrializarem a sua paixão pela música para que esta possa ser levada a sério e não como uma distracção. A incerteza dos cantores é espelhada pela forma descontinua deste filme que parece em todos os momentos recomeçar. São cortes que podem ser equiparados ao fazer artístico. A obra como consequência de um processo cumulativo de tentativas falhadas, de inícios e fins, abruptos e constantes.

A despreocupação relativamente aos rótulos e géneros impostos pelo(s) meio(s) artistico(s) deixa o trabalho de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca num território estranho, simultaneamente distante e próximo; mas sobretudo prazeroso. Não se trata de trabalhar sobre, mas sim trabalhar com. No fim, humildade, qualidade e rigor parecem diluir-se, não se distinguindo nem folclore nem elitismo.

Até dia 12.03.2020 na galeria da Boavista, em Lisboa.

(Devido ao encerramento dos espaços galerísticos e museológicos nacionais, por força da pandemia de COVID-19, as Galerias Municipais e os artistas Bárbara Wagner e Benjamin de Burca disponibilizaram as obras online para que todos possam visualizá-las. Clique aqui para aceder ao vídeo.)

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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