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Resposta Aberta: Vincenzo Estremo

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Vincenzo Estremo é doutorado em Estudos Audiovisuais: Cinema, Música e Comunicação. Atualmente leciona na NABA (Nuova Accademia Belle Arti Milano) e é um curador independente e um escritor de arte. Recentemente editou (juntamente com Francesco Federici) o livro Albert Serra. Cinema Arte e Performance (2018), (junto com Alessandro Bordina e Francesco Federici) o volume Extended Temporalities. Transient Visions in the Museum and in Art (2016) e escreveu Teoria del lavora reputazionale (2020). Vincenzo é o director da Droste Effect Magazine e contribui regularmente para a Flash Art Italia.

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articulas a tua resposta no discurso público? Qual é o seu papel nesta conversa mais ampla?

Vincenzo Estremo – Apesar da quarentena e do isolamento forçado – em Milão, passámos a ficar em casa a 8 de março –, comecei a fazer uma série de conversas privadas, tentando limitar a minha presença nas redes sociais. Confio em interlocutores que possam produzir informações referenciadas, em vez daqueles que vomitam indiscriminadamente conteúdos nas redes sociais. Vários artigos que escrevi estão prestes a sair, mas, gostaria de sublinhar, foram feitos e editados em equipa com editores das várias revistas.

JB – A tua prática artística tem mudado ao longo do isolamento?

VE – Como escritor, curador e escritor de arte, a minha prática artística mudou radicalmente com o isolamento. Antes de mais, comecei a reconsiderar não só os caminhos, mas também os temas das reflexões. Acredito que, em casos como este, excecionais e de emergência, é necessário adaptar as reflexões a uma dimensão cada vez mais política, se possível. O espaço dedicado à nossa palavra e ação não deve ceder lugar ao entretenimento. No que diz respeito aos meios, infelizmente, pouco mais se pode fazer em casa do que utilizar a comunicação digital.

JB – Como é que a tua capacidade de produzir trabalho foi afetada pela pandemia?

VE – Nos primeiros dias, entrei numa espécie de procrastinação crónica. Foi difícil não pensar neste isolamento como uma pausa temporária. Depois, emergiu a consciência de que estaríamos neste estado por muito tempo. Foi quando comecei a trabalhar muito, talvez até mais do que costumo. Essa reflexão é absurda, mas na realidade só sustenta o que mantenho no livro que publicarei em italiano, Teoria do Trabalho Reputacional, onde defendo que a desterritorialização produtiva tem na responsabilidade do indivíduo e na impunidade das empresas uma das questões mais difíceis no semi-capitalismo.

JB – Atualmente, qual é a tua abordagem à colaboração?

VE – Como disse anteriormente, tento construir e trabalhar em pequenos grupos que olham e produzem informação referenciada com base numa ecologia da informação.

JB – Como definirias o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

VE – Na verdade, prefiro não o definir. Julgo que um dos ‘guilty pleasures’ destes momentos é precisamente a hipertrofia definidora. Prefiro lutar do que disparar frases, que é uma posição autoritária e egocêntrica. De momento, o melhor é ser ponderado. Nunca antes fomos uma entidade coletiva e por isso temos de agir, tanto em Itália como na China, em Portugal como em França.

JB – Achas que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

VE – O neoliberalismo ensinou-nos que é nas suas crises que ele se torna mais forte e mais organizado. Todos sairemos enfraquecidos por esta epidemia, mesmo o sistema artístico, que, como sistema aberto, desprotegido e assimétrico, estará exposto tanto quanto outros a esta tempestade. Acredito que a produção cultural precisa dar um passo atrás e reconsiderar as suas prioridades. Se algo estava errado antes da epidemia, e todos sabemos que muito estava errado, chegou o momento de refletirmos sobre essas coisas, em vez de pensar em recomeçar de onde paramos.

JB – E.M Cioran escreve: “nas grandes perplexidades, tente viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como respondes a esta proposta?

VE – Para mim, reagir não é aquilo que brota quando há crise e veemência. É a liberdade que irrompe onde todos os outros começam e, juntos, para sempre continuam.

JB – Como é que este tempo está a influenciar a tua perceção de alteridade no geral?

VE – Vou dar um exemplo prático. Dizem-nos para ficar em casa, dizem-nos para ficar em casa. Parece que estas declarações, imposições, preceitos, consideram a casa como um direito. Eis a minha definição de alteridade construída sobre estas mentiras. A casa continua a ser um privilégio e, para sublinhá-lo, acredito que seja uma das mensagens mais substancialmente alternativas que ocupam a minha cabeça neste momento.

JB – Como é que a tua utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da tua produção?

VE – Responsabilidade e consciência!

JB – Qual é a tua posição sobre a relação entre catástrofe e solidariedade?

VE – Surgiu-me um pensamento logo após a suspensão de muitas atividades, artísticas e produtivas. Perante o agravamento das desigualdades no tratamento dos trabalhadores contemporâneos, talvez sejam necessárias formas de organização alternativas às institucionais.  Quem está protegido estaria disposto a conceder parte da sua própria proteção (também entendida como privilégio) para apoiar outros?

JB – Qual é a tua utopia agora?

VE – O horizonte está muito longe, mesmo que pensemos em dar uma caminhada, ir até ao mar e sentir o início da primavera.

 

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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