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Coronavírus e a arte; Art Basel online viewing rooms; Julian Opie (virtualmente) no Museu Colecção Berardo

A arte em tempos estranhos

É obviamente estranho escrever sobre arte num momento tenebroso como aquele que agora vivemos. Escrever e pensar sobre o quê, senão a ameaça global de uma pandemia que boicotou subitamente milhões de vidas e que põe em perigo a saúde de todos nós.

No entanto, devo dizer que, para o bem e para o mal, um dos encantos mais fascinantes da arte é a sua aptidão para ser inútil. A inoperatividade que lhe é própria advém da sua maravilhosa incapacidade de subjugação ao presente – à realidade, se quisermos. A arte nunca parou balas; não há registos de que tenha sido capaz de impedir atrocidades nem injustiças; e será, certamente, uma vez mais impotente face à pandemia da covid-19. Mas, por esse mesmo motivo, a arte sempre foi o lugar da resistência. É assim desde as cavernas: afundada, mas atenta; longe do mundo, à superfície, mas impregnada da energia que o move. E esse movimento repetiu-se tantas vezes, os artistas refugiados nos seus ateliês, entre guerras, tão ou mais preocupados com cores e formas, ou todos aqueles que representam e colaboram nas lutas contra a violência das sociedades, dos regimes, da discriminação.

A “inutilidade” da arte é expressão para a sua liberdade. Só assim pode ser capaz de virar a realidade factual de pernas para o ar, pô-la em causa e fantasiar outras possibilidades. A arte não poderá representar fielmente uma força vigente, qualquer que seja a sua natureza e orientação, pois se o fizer estará destinada, quando muito, à adequação momentânea ao presente – que se sabe demasiado breve. A arte sempre foi – e espero que continue a ser – um lugar marginal, moldado pelos que caminham lado-a-lado com o seu tempo, mas que são incapazes de a ele se acomodarem ou nele encontrarem resposta para as suas inquietações.

As inaugurações foram canceladas, as galerias e os museus estão fechados, as vendas presenciais suspensas. Mas a arte é imune a tudo isso, porque aos artistas move-os uma necessidade vital que assegurará a existência de novos trabalhos enquanto houver mundo. Às instituições, aos curadores, críticos, etc. cabe o exercício, difícil por certo, de continuarem a pensar e a projectar um futuro próximo, indefinido e seguramente diferente. O mundo que há décadas operava a uma velocidade vertiginosa parou e não poderemos ignorar as marcas de tamanha travagem, pois, da arte, à economia, ao ambiente, as consequências revelar-se-ão nos próximos anos.

 

#stayathome: Art Basel “online viewing rooms”

Há vários anos que o comércio e a utilização de serviços online têm vindo a crescer em todos os setores. A arte era dos poucos que oferecia alguma resistência. A sua presença nas plataformas digitais era fraca, tinha quase sempre como fim divulgar e promover as instituições, a sua programação ou os artistas, e parecia incapaz de abalar estruturalmente o meio artístico. Contudo, no espaço de poucos dias, o surto de coronavírus fez com que o paradigma se alterasse radicalmente. As galerias e os museus fecharam, as feiras e os eventos foram cancelados, obrigando à adopção de soluções improvisadas, inesperadas, mas não assim tão inovadoras.

Em 2017 David Zwirner, acreditando na inevitável virtualização do sistema, inaugurou o projecto “viewing rooms”, um espaço expositivo online com programação regular, no qual é possível ver, comprar e saber mais sobre as obras dos artistas representados. O modelo foi agora replicado em conjunto com a Art Basel, após o cancelamento da edição de Hong Kong, dando origem à “online viewing rooms”, a primeira feira de grande escala realizada apenas na internet. Dadas as circunstâncias e o lado experimental, foram convidadas, sem custos, todas as galerias anteriormente aprovadas a participar em Hong Kong.

Entra quem quiser, sem pagar, a partir de qualquer parte do mundo com uma conta e-mail e uma palavra-passe. São mais de duas centenas de salas (separadores) que podemos visitar (abrir). Há aspetos positivos imediatos: fazemos de forma organizada e eficaz aquilo que faríamos intuitivamente numa feira desta dimensão; espreitamos, não interessa, rapidamente passamos à próxima; com redobrada velocidade e sem cansaço físico, bastam um ou dois cliques. É de facto impressionante a quantidade de informação ao alcance do cursor (ou do dedo), mais do que uma feira, a “online viewing rooms” parece uma base de dados, uma biblioteca a transbordar de portfólios e projectos, individuais e colectivos, de muitos dos artistas que têm definido o mercado da arte nos últimos anos.

A primeira galeria da lista é a Matthew Marks. Abri com curiosidade ao ver os nomes de R. Nagle, K. Price e T. Winters. Primeiro, um texto introdutório de cada um dos apresentados, depois, as obras numa simulação padronizada de canto de stand de feira, com ficha técnica e preço, bem visíveis. Aliás, na primeira obra, Two Men (2019) de Katherina Fritsch, não sei o que salta à vista logo a seguir ao azul das figuras, mas diria que é o preço: $1.000,000. Está tudo bem, afinal, estamos mesmo numa feira de arte.

O projecto de Harold Ancart (n. 1980, Bélgica), pela galeria C L E A RI N G, é exemplo das possibilidades e das limitações da “online viewing rooms”. Ao abrir a pintura (Untitled, 2020, a $ 400,000) são disponibilizadas três hipóteses de visualização: a tela, um pormenor, a tela com uma pessoa próxima para que se perceba a escala. Em qualquer uma delas é possível fazer zoom. No pormenor, somos capazes de ver as áreas não pintadas, as cores e as texturas com rigor extremo. Porque estou familiarizado com a obra de H. Ancart, dou de barato e convenço-me de que “percebo” esta pintura, que sou capaz de imaginar como será ao vivo. No entanto, de seguida são apresentadas três esculturas em cimento pintado, desconheço-as por completo. Passo pelas quatro vistas de cada uma, mas, à falta de uma qualquer referência física, continuo sem perceber se uma delas tem um buraco ou um círculo pintado de negro. E assim ficarei, porque as ilustrações não chegam.

David Zwirner e a Art Basel são bem capazes de ter razão, o coronavírus obrigou o mundo da arte, pelo menos o mercado, a embarcar finalmente neste formato desmaterializado, que é prático e cómodo para fazer negócio. Certo. Mas também é incapaz de substituir a experiência de ver ao vivo uma pintura, uma escultura, uma instalação, o que seja. As online exhibitions serão muito provavelmente o futuro próximo do negócio de arte, uma espécie de art à la carte que permitirá fazer compras a partir de qualquer lado do mundo. No entanto, muito dificilmente alguém conhecerá verdadeiramente um artista ou uma obra através de um ecrã, por maior que este seja, por melhor definição que tenha.

A maior novidade da “online exhibition rooms” é o formato – mesmo esse não é revolucionário, apenas afinado -, uma vez que o sistema, a sua dinâmica e os objectivos mantém-se os mesmos, senão reforçados, das feiras anteriores. Ou por falta de tempo de planeamento ou de vontade, o esforço parece curto para que daqui advenha alguma mudança efectiva e estrutural para a arte e para as instituições. Para já, finge-se que continua tudo igual.

 

Julian Opie no MCB, por agora, só num ecrã

Em Portugal algumas instituições têm acompanhado a tendência de disponibilizarem nos respectivos sites e redes sociais, imagens e vídeos das exposições canceladas dias antes de inaugurarem. O Museu Colecção Berardo, com alguns dias de antecedência, preparou a inauguração da exposição de Julian Opie a acontecer apenas em formato live streaming e na presença do artista. À hora marcada, o vídeo da visita-guiada feita por Rita Lougares (diretora artística do MCB) e Opie ficou disponível – afinal fora gravado no dia anterior devido ao iminente fecho das fronteiras em Portugal.

Opie ao longo dos últimos anos construiu um universo blindado por uma estética vectorial repetida até à exaustão, maioritariamente interessada na exploração de diferentes meios de registo das imagens. E aos artistas, a definição de valores muito pouco mutáveis garante desde logo perigos e dificuldades acrescidas. Por um lado, é claro que por maior diversidade de meios e técnicas, por norma, os artistas passam a vida à volta das mesmas ideias ou questões; vejam-se os exemplos brilhantes, e distintos, de Brice Marden ou Alberto Giacometti que fizeram da variação mínima, do exercício, o ponto central das suas obras. Por outro, a repetição de uma fórmula que se sabe garante de determinados resultados estéticos e comerciais. São dois caminhos antagónicos, porém indistinguíveis pelas palavras, reflexo apenas da mais sincera motivação por trás das obras. Opie é um artista que trabalha nessa fronteira ténue. Criou um dicionário, imagens estilizadas que são estimuladas por pequenas oscilações técnicas e formais.

A exposição é (imprevisivelmente) plena de ironia dado o contexto atual. Duas das salas são povoadas por pequenas multidões. O quotidiano citadino no qual as pessoas são miragens, figuras-tipo aglomeradas como peças de um mecanismo, colectivo. Na primeira sala, um jogo de escalas. Figuras gigantescas, pintadas na parede, dialogam com outras à escala real, que surgem das faces laterais dos dois cubos assentes no chão e que nos obrigam a circular (circula a câmera, neste caso). O artista avisa – e bem, caso contrário não perceberiamos – que são feitos em alumínio pintado, que num os desenhos emergem, no outro afundam-se. Mais à frente, as pinturas-digitais animadas, grupos de figuras em locomoção, as cores dos fundos são diferentes.

Destaca-se a sala onde o objecto de representação são os animais. Ao centro, esculturas coloridas, também em alumínio, encenando o possível display de um museu de história natural, mas aqui com animais comuns. Seguindo a mesma lógica paradoxal, o friso na parte superior da sala alia o imaginário histórico e arquitetónico ao tema representado: os pombos. A peça é prova do interesse de Opie pelas possibilidades da tecnologia na materialização de imagens. O painel LED com desenhos que copiam o movimento exacto da gravação de um bando de pombos no exterior do seu estúdio.

Na última sala é ainda apresentada outra obra concebida especificamente para a ocasião. Um conjunto de torres sineiras em panos de grandes dimensões que mais uma vez evocam as dimensões arquitetónica e corporal, convidando à circulação por entre as diferentes imagens, ao mesmo tempo, toca em permanência um sino.

A situação é insólita, a solução é a possível. Ainda assim, a uma exposição que explora sobretudo variações de escala e de medium é indispensável, mais tarde, uma visita presencial. Contudo, a quem interessar, é melhor ver pelo ecrã do que não ver de todo.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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