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25 anos de trabalhos de Pedro Gomes, no MNAC

Com a curadoria de Emília Ferreira e Hugo Dinis, de Encontro às Cegas, permitam-me afiançar, é preferível apenas reter a possibilidade da expectativa não corresponder à realidade. Caso contrário, no fim, poderemos sentir-nos legitimamente enganados. Isto porque se um encontro pressupõe o presente e uma presença, nas salas do MNAC, corremos o risco de não achar nenhum dos dois. A exposição de Pedro Gomes no Museu Nacional de Arte Contemporânea realça não só a diversidade de soluções plásticas que o artista tem explorado ao longo dos últimos 25 anos como, também, a coerência da sua linguagem imagética e conceptual.

A obra de P. Gomes revela um universo fragmentário, que oscila entre os estados de decomposição e de construção (ou formação). Dessa dicotomia instável a única certeza que prevalece é mesmo a noção de que tudo é ruína: as figuras – que desvanecem, ardem ou são feitas de lixo -, e os lugares – intangíveis ou resultado da violentação da superfície (o papel). No entanto, a ruína não surge aqui ligada a um qualquer saudosismo romântico, é antes o resultado possível e limitado da incapacidade da memória humana. Nenhum dos trabalhos expostos evoca directamente um tempo que não o seu; são parte de um presente abandonado, vazio, desprovido de humanidade, mas que ainda assim nos é familiar.

O corredor da entrada estreita-se à medida que nos deparamos com os 5 desenhos Linha de Fogo (2000). As figuras, escondidas no anonimato pela ausência de um rosto, “captam” quem passa, notando a sua superioridade na relação que estabelecem com o espectador. A câmara é o objecto de poder. Mas, apesar de ser a arma que intimida aqueles a quem é dirigida, quando é disparada faz arder o seu próprio portador. Cartier-Bresson enquanto professor de fotografia pedia aos seus alunos nas primeiras aulas que lessem a obra Zen in the Art of Archery, de Eugen Herrigel, a qual versa sobre a aprendizagem física e mental necessária a um arqueiro, num evidente paralelismo entre o exercício do disparo do arco e a captação de uma imagem. Nos desenhos de Pedro Gomes essa relação é paradoxalmente corroborada e boicotada, uma vez que a câmara em vez de gerar uma imagem é responsável pela sua destruição – o fogo inscreve as figuras no branco do papel, mas também as apaga.

Fugindo para já das câmaras, o refúgio é a série Masturbações (2003), prova de que a desumanidade latente na obra de P. Gomes não só não se esgota na ausência de um lado íntimo – que, aliás, está bem presente no constante jogo entre intimidade e exposição, privado e público – , como se torna ainda mais notória nesta sala. Quer se tratem de representações de figuras ou de lugares, a subjectividade emocional é substituída pela dimensão simbólica. As telas compostas por lixo e pó rigorosamente aglomerados formam figuras masculinas, negras, arenosas, que se excitam sexualmente, ainda que sem qualquer sinal de prazer. São ícones, parte do imaginário comum, mas confinados ao tal território da “intimidade”, e talvez por isso ganhem forma através da acumulação da sujidade doméstica.

Nas restantes salas da exposição que tem curadoria de Emília Ferreira e Hugo Dinis, foca-se sobretudo a particularidade de um percurso intimamente ligado ao desenho – excepção feita à escultura Estarei sempre contigo (1995) e ao notável conjunto de retratos em alumínio fundido [Sem título, 1997] que se diluem na abstração da própria matéria. Contudo, as séries de trabalhos mais recentes (os espaços arquitetónicos e expositivos) exploram também elas uma tensão, chamemos-lhe, “semi-escultórica” no sentido em que é evidente a atenção do artista às potencialidades matéricas da superfície. O desenho somente emerge quando o papel é rasgado, opondo a brancura do seu interior à cor uniformemente pintada. E tanto as arquiteturas como os espaços expositivos, pela concentração e pela ortogonalidade das linhas e formas, esboçam aproximações à herança da arte abstrata, quer geométrica quer especificamente de Maria Helena Vieira da Silva. São espaços inabitáveis, sem entrada, que, finda a ilusão perceptiva, nos remetem inevitavelmente para o plano. Assemelham-se a muros com as sucessivas camadas de tinta descascadas pelo tempo. Sendo, aliás, essa ideia de intransponibilidade reforçada pelos próprios painéis compostos por desenhos-módulo.

Quase em sentido oposto, os três desenhos de grandes dimensões feitos a esferográfica, num gesto largo que falseia o descomprometimento de um rabisco – doodle, em inglês -, representam espaços interiores vagamente reconhecíveis, quase atmosféricos, mas que nos oferecem uma perspectiva vincada que atrai tanto o olhar como o corpo. Embora, ao aproximarmo-nos, nos voltemos a deparar com a superfície, a imagem esfuma-se, e só resta esqueleto; desta vez as linhas circulares.

À luz dos dias de hoje, em que a identidade dos indivíduos é seriamente ameaçada pela profusão informativa e tecnológica, é tão impressionante como desconfortável a pertinência do trabalho que Pedro Gomes desenvolve há mais de duas décadas. Tal como o é a utilização que faz dos elementos básicos das linguagens do desenho ou da escultura, numa lógica de permanente cruzamento de modos de fazer.

Face à atual situação pandémica apenas aconselhamos a visita virtual da exposição:

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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