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Resposta Aberta: Gavin Gamboa

Resposta Aberta é uma série especial de entrevistas com artistas, curadores, escritores, compositores, mediadores e “fazedores de espaços” internacionais. Atendendo aos temas que rapidamente emergiram como consequência da pandemia de Covid-19, oferecemos, aqui, uma perspetiva diferenciada e honesta de compreensão. Semanalmente, várias serão as portas abertas à vida dos colaboradores e às suas experiências de prazer, produtividade, metafísica e mudanças de paradigmas. Idealmente estas conversas poderão servir de caixas postais e conduzir a uma maior empatia, unidade e cocriação. Resposta Aberta vai ao encontro da necessidade de tecer a autonomia de uma rede de comunicações consciente, em tempos de extrema perplexidade.

Gavin Gamboa é um compositor, pianista e artista vídeo residente em Los Angeles, interessado na intersecção de composições improvisadas e pré-mediadas, com as novas tecnologias a servirem de base a uma praxis estilística multifacetada. Nascido em Mérida, Yucatán, atualmente compõe para uma série orquestras, cria música para filmes e apresenta trabalhos novos e clássicos internacionalmente. Gamboa é um dos diretores criativos do The Teaching Machine, um coletivo de artes media especializado em instalações, música e performances de cinema ao vivo. Tem dado concertos de música clássica e contemporânea a solo em Los Angeles, em vários festivais no Méxicos (Festival de las Artes Otoño Cultural Mérida e Cultura Mazatlán), e tem acompanhado Erykah Badu com a Dallas Symphony Orchestra e o tenor Leon de Castillo em Viena, Áustria. As suas composições têm sido tocadas para a Pacific Standard Time LA/LA na Kleefeld Contemporary California State University Long Beach, durante o La Bibliothèque Fantastique na Basic Flowers em Los Angeles da Four Larks; para o Primavera Festival no Schikaneder Kino em Viena, durante o 2016 Miedzynardowe Spotkania Teatrów Tańca, em CK Lublin, Polónia; e para a exposição V, de David Lamelas, na Kunstahlle Basel, Suíça. O seu trabalho para filmes foi exibido no Slamdance Film Festival 2019, no The Getty em Los Angeles e no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA), Argentina.

 

Josseline Black – Nesta fase de isolamento forçado, como articula a sua resposta num discurso público? Qual é o seu papel nesta conversa mais ampla?

Gavin Gamboa – O meu ponto de entrada mais ativo no discurso público durante o autoisolamento tem sido o Fediverso, onde tenho vários relatos diferentes do Mastodonte, e consumo um conjunto internacional de ideias bastante interessante, que provém de um espaço online descentralizado e, portanto, mais livre; uma linha de tempo que se inclina para o mundo queer/poc/anarquista/esquerdista/artista/ambientalista/FOSS/científico. Dito isto, diria que minhas contribuições para o discurso são mínimas; contribuo com pensamentos e reflexões pessoais (como os meus próprios desafios de resistência contínua contra as entregas da Amazon, já que tenho feito boicote à Amazon nos últimos 7 meses), bem como vídeos informativos sobre a COVID-19.

JB – A sua prática artística mudou com o isolamento?

GG – A minha prática estagnou recentemente (ou entrou numa quase-hibernação), em parte devido ao autoisolamento longe do estúdio e, em parte, devido à interrupção da minha rotina e interação com os outros. Estou a começar a pensar mais sobre os tipos de trabalho criativo que estão à mão, onde quer que me encontre. Ou seja, com ou sem computador, com ou sem internet, com ou sem piano. Cada cenário permite oportunidades para explorar diferentes facetas do esforço criativo. Mas a ênfase tem sido o computador enquanto principal local de trabalho. Não tanto no ato de fazer, mas mais no de receber, pois sou permanentemente empurrado para dentro de espaços de informação digital. Por necessidade de descobrir, aprender, de me familiarizar e entender o que está a acontecer a nível global, apesar de um conhecimento tão amplo estar claramente fora da capacidade de qualquer pessoa de contextualizar e compreender em pleno.

JB – Como é que a sua capacidade de produzir foi afetada pela pandemia?

GG – À medida que navego na pandemia, ao mesmo tempo que estou com alguém de quem gosto (basicamente, ao estar no espaço pessoal de outra pessoa), descubro que estou a reaprender/renegociar o que é mais necessário para produzir um trabalho honesto. Isto atualmente significa respeitar os limites das pessoas em casa, reconhecer que o tempo ininterrupto é limitado, e lidar com a realidade de que os meus próprios materiais (livros, instrumentos) não estão disponíveis. As prioridades mudaram.

JB – Atualmente, qual é a sua abordagem à colaboração?

GG – Estou aberto a colaborar, mais do que tenho estado. Encaro até a mais básica das interações como uma potencial cocriação. Mesmo na partilha destas potencialidades, encontro a compensação e o entusiasmo pelo que poderá surgir, apesar da situação terrível que os criativos podem vir a encontrar ao virar da esquina.

JB – Como definiria o momento presente, do ponto de vista metafísico/literal/simbólico?

GG – Descrevê-lo-ia como uma limpeza ambiental; um restabelecimento metafísico intrapessoal; um reconhecimento simbólico da incestuosa vanguarda do capital financeiro monopolista americano como *a medida* da prosperidade económica. Há uma sensação de recalibração que muitos de nós, que olhamos para o mundo com profunda empatia e compaixão, sentimos ser necessária (mas também reconhecendo que esta recalibração não deveria ter surgido à custa do sofrimento humano provocado pela COVID-19). Basta olhar para os ambientes construídos nos Estados Unidos e torna-se claro que este sistema não foi criado para a resiliência e sobrevivência, mas para a imitação barata de sonhos, onde o indivíduo tem um potencial ilimitado de crescimento à custa de todos à sua volta, e para as obsessões pornográficas com a gratificação instantânea e riqueza – que se lixem os recursos preciosos.

JB – Acha que existe um potencial de apoio renovado para a produção cultural, apesar das macro e microeconomias estarem em rápida reestruturação?

GG – Eu acredito na necessidade de união das pessoas. Quer seja fisicamente na camada Terra/Cidade da The Stack, ou até na camada Interface, acabará por haver uma motivação ulterior e um esmagador fator de união coletiva. Precisamos uns dos outros. Este confinamento pôs a nu a necessidade que muitos têm de conexão e interação humanas e o termos dado como adquirido o espaço real, ou termos subestimado a sua importância, atraídos pelas novidades de interação 2D. O que, em última instância, não dá aos nossos cérebros o estímulo que eles biologicamente necessitam. A transferência está a ocorrer agora, pois as economias de ontem precisam de se adaptar. Isto passa por reavaliar os nossos próprios papéis nessas economias e determinar onde as nossas competências encaixam coerentemente no mundo. Ou mesmo a forma como uma economia se deve comportar. Esse percurso será diferente para todos, mas o tecido conjuntivo não descontrolado da produção cultural continuará a ser a incessante motriz que nos vincula ao nosso trabalho. Já estamos a ver eventos rádio-drive-thru, a proliferação de live-streams, e invenções artísticas viradas para os fãs, que visam essa reconfiguração microeconómica. Parece algo promissor, mas também avassalador, e incapaz de garantir apoio suficiente para todos.

JB – E.M Cioran escreve: “nas grandes perplexidades, tente viver como a história foi feita e reagir como um monstro repleto de serenidade”. Como responde a esta proposta?

GG – Parece uma forma exemplar de viver a vida, de fato. Na verdade, estou a tentar desviar a minha ansiedade do dinheiro, que pode ser sempre encontrado novamente, para me focar no T – E – M – P – O, que nunca será recuperado. É aí que a serenidade pode ter uma palavra a dizer.

JB – Como é que este tempo está a influenciar a sua perceção de alteridade no geral?

GG – Estou a encarar o pavor que sentia em relação à minha própria morte iminente (uma resposta ao trauma do qual ainda recupero, provocado pela morte do meu melhor amigo no final de 2018), como algo que tem menos que ver com a morte da minha entidade física e mais com a morte de um antigo eu. Preparo-me atualmente para desistir de grande parte daquilo que foi o foco do meu trabalho, em particular o repertório de música clássica, para embarcar na busca das minhas próprias composições musicais e interesses.

JB – Como é que a sua utilização da tecnologia e do virtual está a fazer evoluir o paradigma da sua produção?

GG – Com a hipernormalização da interação virtual, estou a abraçar o isolamento e a ver os meus períodos anteriores de retração autoimpostos com menos ceticismo e dúvida em relação ao sentimento de culpa social, que me acompanham ao não estar “presente”, mesmo que esse estar presente muitas vezes me afaste da integridade com o trabalho que pretendo conceber. Agora, sinto que há uma justificação e alguma liberdade para manter os elos de ligação e, ao mesmo tempo, comprometer-me com o trabalho de forma mais intensa.

JB – Qual é a sua posição sobre a relação entre catástrofe e solidariedade?

GG – Podemos unir-nos por força da calamidade. E, mesmo nessas interrupções profundas, o coletivo pode emergir mais forte e mais impenetrável após termos ultrapassado as ameaças. Ao olhar para as formas como o nosso ambiente nos mostrou a importância de colocarmos de lado algumas coisas (por exemplo, a qualidade do ar em Los Angeles está muito melhor, a poluição na zona industrial em Wuhan está a diminuir devido às paragens na produção, as imagens da água límpida nos canais de Veneza), acredito que podemos encontrar formas de subverter os hábitos desastrosos desse modo de vida venenoso.

JB – Qual é a sua utopia agora?

GG – A minha utopia tem sido lavar pratos no apartamento de alguém que me é próximo. Tem sido cozinhar e fazer massagens. A utopia ganha forma nos prazeres da conversa, do toque e da intimidade. É a atenção à distância dada à família e aos amigos. É a ideia de que um futuro melhor pode ser reconhecido e alcançado – para uma convivência global diferente.

 

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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