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O Bigode Escondido na Barba: O Coração e os Pulmões, de Francisco Tropa

À noite, duas paliçadas, dois polícias, um pedaço de carne e um candeeiro a gás onde se encontram suspensos dois cartazes que reproduzem publicidade de imagiologia médica. São estes os elementos constituintes da peça O Coração e os Pulmões de Francisco Tropa, em exposição na galeria Quadrado Azul em Lisboa, que incorpora a última parte do projeto O Bigode Escondido na Barba, iniciado em 2017.

O título evoca duas entidades que se encontram à volta da boca, o bigode e a barba, e é assertivamente escolhido para o projeto que gira em torno do modo como a linguagem atua na construção da obra de arte. Para além disto, existe nestes dois elementos, segundo o artista, uma ideia implícita de movimento perpétuo, referindo Paul Scheerbart e o livro The Perpetual Motion Machine, já que, “o bigode e a barba se fundem um no outro para sempre, num movimento contínuo, sendo que um vai dar ao outro, que vai dar ao outro, e assim sucessivamente”. Ideia Russelliana que vai beber à obra de Marcel Duchamp e que está muito presente no corpo de trabalho de Francisco Tropa.

O Bigode Escondido na Barba constitui assim o fio condutor de três momentos distintos que deram origem a um grupo de trabalho. O primeiro Coleção teve lugar em 2017 na Fundação Carmona e Costa e impulsionou todo o projeto. No segundo momento em 2018, Café, no Le grand café centre d’art contemporain em Saint-Nazaire, Francisco Tropa partiu da ideia “de um café à antiga” para conceber trinta peças que foram dispostas no espaço do café que outrora ocupou o do centro de arte contemporânea, recriando um ambiente diurno.

O terceiro e último momento, que se encontra agora em exposição na galeria Quadrado Azul em Lisboa, pelo contrário, recria um ambiente noturno e foca-se em questões relacionadas com o corpo. O título, O Coração e os Pulmões, refere os dois órgãos essenciais para o seu movimento remetendo para uma espécie de maquinaria, a máquina do corpo. É, pois, uma “escultura-mecanismo” composta por vários elementos, pistas que em conjunto constroem um discurso, um enigma que sugere inúmeros assuntos que apontam em diversas direções.

Os protagonistas da peça são duas esculturas que se assemelham a duas figuras antropomórficas que vigiam, duas sentinelas ou dois polícias, como o artista lhes chamou. As suas cabeças são dois capacetes concebidos à imagem do capacete colonial, que rodam a partir de um aparelho e de motores. Os seus corpos são estruturados por ramos de eucalipto em latão pintados com as cores das bandeiras de Portugal e da Alemanha. Ambas as personagens foram retiradas do filme Les Mâitres Fous de Jean Rouch, documentário em torno das cerimónias do movimento Hauka através das quais jovens trabalhadores em África são possuídos por administradores coloniais.

É praticamente imediato associar esta cena, claramente passada em África, a questões pós-colonialistas ou ainda relacionar os cartazes publicitários de imagiologia médica, cujas cores foram editadas pelo artista, às grandes indústrias farmacêuticas. Por outro lado, o interior do corpo é sugerido não só pela estrutura dos ramos de eucalipto, que lembra as ramificações dos pulmões, ou pela especialidade médica que permite visualizar o interior do corpo, mas também pelo pedaço de carne em bronze pintado a óleo suspenso a partir do teto que ao mesmo tempo poderá remeter para um isco de caça grossa que aqui é apresentado como uma espécie de natureza morta.

Existe uma panóplia de possibilidades para a construção de imagens a partir da peça de Francisco Tropa, que se encontra supostamente escondida atrás de duas paliçadas, que na verdade pouco ocultam – ao invés revelam. Revelar não no sentido de mostrar, mas no sentido fotográfico da produção de imagens em estúdio, quando a luz vermelha se encontra ligada.

Na sala imediatamente antes encontra-se uma única peça, Máscara, que mostra o interior de uma máscara em bronze, ou seja, a parte que toca o rosto e que normalmente não é visível quando usada para esconder a face. É assim apresentado o lado da máscara que nada esconde e “não aquilo que se dá, nem aquilo que se esconde, mas sim aquilo que toca” como refere Francisco Tropa. Máscara é ela própria uma pista diretamente dirigida ao visitante para aquilo que está na próxima sala, para aquilo que seguidamente irá ver.

Como é frequente no trabalho do artista, nomeadamente nas exposições passadas que integram o mesmo projeto, O Coração e os Pulmões reúne pistas que permitem a construção de discursos que são rapidamente destruídos e reformulados por outros despoletados por outras pistas. Entramos no referido movimento contínuo em que uma pista vai dar à outra, que vai dar à outra e assim sucessivamente. Nos pontos comuns a todos estes indícios, existe um fio condutor que os une, uma entidade que lhes é implícita, sendo neste terceiro momento, o corpo ou um olhar para o interior do corpo.

Embora aparentemente distintos, todos os três momentos de O Bigode Escondido na Barba apresentam a mesma estrutura. Em cada um existem várias entidades sobrepostas, há sempre um bigode e uma barba. Todos são enigmáticos e incorporam uma espécie de jogo de pistas para serem desvendadas. Pistas essas que sugerem um movimento e que funcionam como uma espécie de máquina de produzir relações, de produzir imagens. Interessa ao artista o modo como nos relacionamos com imagens no geral e com as obras de arte em particular assim como o modo como as imagens são produzidas e consumidas interfere com a nossa perceção da realidade.

O Coração e os Pulmões constitui uma verdadeira charada trágico-cómica repleta de sugestões a assuntos da atualidade cuja carga é pesada e triste mas que é apresentada ironicamente por intermédio de elementos enigmáticos. Nada é dado de imediato. A observação requer tempo, para desvendar este “gato escondido com o rabo de fora”, como refere o artista.

O trabalho de Francisco Tropa poderá ser visto na galeria Quadrado Azul em Lisboa até ao dia 21 de março, preferencialmente a partir das 17h00, altura em que a luz do candeeiro a gás, única fonte de iluminação da peça, é ligada e o ambiente melancólico noturno se instala.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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