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Armanda Duarte e Elisa Montessori, Um lugar desenhado pela passagem do corpo

Armanda Duarte (Portugal, 1961) trabalha entre escultura, arquitetura e instalação, procurando geralmente uma relação quase dialética com o espaço que recebe as suas obras. Elisa Montessori (Itália, 1931) trabalha entre o desenho e a pintura, entre o abstrato e o figurativo. Na galeria Monitor Lisbon, a curadoria de João Silvério junta ambas as artistas num diálogo que se estende ao espaço que as acolhe.

A primeira obra que vemos quando entramos é um livro encadernado a cabedal, Foglie e fiori (2011), de Elisa Montessori, que nos remete para os antigos herbários que hoje em dia podem ser vistos em museus, mas que muitos de nós, em crianças, ainda fizemos. Porém, dentro deste herbário não existem plantas ou flores verdadeiras, mas antes as suas representações, algumas mais figurativas, outras mais abstratas, que nos remetem para motivos vegetalistas. Também esercizi naturali 3 é, como o próprio título indica, um exercício de desconstrução do real em direção a uma abstração. Neste caso, um conjunto de canas dispostas na vertical deixa progressivamente esta aparência para passar a ser uma série de riscos a tinta-da-china que, com diferentes espessuras e intensidades, proporciona um ritmo visual e modular abstrato.

Armanda Duarte convoca a memória do corpo em diálogo com a arquitetura do espaço da Monitor Lisbon, em obras como Desenho com modelo desconhecido (2019) ou Desenho com modelo: cotovelo (2019). Em ambas as obras, dois planos horizontais saem da parede para suportar os desenhos com modelo. Estes planos não são exatamente prateleiras, pois não têm nem a dimensão nem a cota ideal – apenas servem como base para os desenhos que também não são exatamente desenhos, pois são tridimensionais. Acresce que tanto o desenho como a base são feitos em cartão. Mas está lá o desenho em linhas a carvão, que percorrem as peças como se fossem memórias dos traços que ligam a obra ao desenho, tanto como a tridimensionalidade dos planos a ligam à escultura.

Armanda Duarte não nos quer quietos. As suas obras exigem-nos movimento. Exigem que nos aproximemos, que nos baixemos, que rodemos para um lado ou para o outro, contornando, como possível, as suas peças para retirarmos algo mais. Algo do muito que nos dão, mas que um espectador inquieto está sempre pronto a descobrir. Este traço aqui, aquela dobra acolá… Assim é Juntos (1996), um conjunto de pequenos quadrados que remetem para a ideia de caixa e de guardar. Caixas pequenas guardam habitualmente coisas valiosas. Assim, temos de nos aproximar destas caixas que se encontram mais ou menos sobrepostas num plano ao nível do chão. E talvez não nos aproximássemos o suficiente para ver os minúsculos e suaves desenhos que contêm, não fosse a folha de sala registar nos materiais da obra “grafite e resíduos de moluscos gastrópodes (caracóis)”. Dentro destas caixas há finos papéis que contêm pequenos rasgos abertos pelos pequenos gastrópodes, depreendemos. Mas contêm também os pequenos desenhos, aparentemente, da morfologia animal ou vegetal de tal minúcia, que parecem equilibrar a escala da obra no seu conjunto.

Armanda questiona com frequência a escala das coisas: da arquitetura, da escultura, mas fá-lo de forma fenomenológica, sem criar respostas ou mapeamentos fáceis. Questiona ainda a perenidade: a passagem de um caracol por uma caixa deixa resíduos visíveis, mas não facilmente identificáveis da mesma forma que Paninho encardido (2019), retém a memória de um corpo enrolado no chão, de forma pouco visível, obrigando-nos a um reposicionamento físico perante a obra de arte.

Um lugar desenhado pela passagem do corpo é um convite a um percurso sensitivo e curioso, onde a liberdade artística e de receção e fruição é generosa. As obras de Armanda Duarte na Monitor Lisbon retiram a escultura do plinto, criam consolas a alturas diversas da linha do olhar, colocam obras no chão ou dispostas num canto e obriga-se o visitante a relacionar-se com o espaço que o envolve. Entretanto, os desenhos e pinturas de Elisa Montessori sublinham este carácter de efémero e de quase fragilidade da natureza seja a humana, a do espaço ou a da fauna e flora.

Até 14 de março, na Monitor Lisbon.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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