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Lusofolia: A Beleza Insensata

Lusofolia: A Beleza Insensata, com curadoria de António Saint Silvestre, patente no Centro de Arte Oliva até 15 de março, reúne obras de autores portugueses, brasileiros e angolanos, históricos e mais recentes, no contexto da Arte Bruta/Outsider.

A exposição surge da vontade dos colecionadores Richard Treger e António Saint Silvestre, divulgarem e aumentarem a representatividade de artistas lusófonos e, assim, diversificarem e expandirem ainda mais a representação geográfica da sua coleção internacional de Arte Bruta/Outsider [3], reunida ao longo de quatro décadas e em depósito desde 2014 em São João da Madeira.

O conceito de Arte Bruta foi introduzido pelo artista francês Jean Dubufett em 1945, com o objetivo de designar uma prática artística livre, afastada dos sistemas da arte instituídos e da cultura dominante. As vanguardas da arte moderna de início do século XX tentavam alcançar um processo criativo autónomo e autêntico. O surrealista André Breton destaca-se pelo seu interesse por estas produções, tendo colaborado com Dubuffet na criação da Companhia de Arte Bruta.

Dubuffet constituiu uma vasta coleção de trabalhos realizados por pacientes psiquiátricos, reclusos, por círculos espíritas franceses e por outros indivíduos à margem da sociedade, que vieram a fazer parte da chamada “Collection de L’Art Brut”, em Lausanne (Suíça) – instituição que se encontra ainda ativa atualmente.

Em 1972 foi introduzido pelo teórico e escritor britânico Roger Cardinal o termo Arte Outsider, com o objetivo de criar um equivalente para Art Brut na língua inglesa. O conceito não se enquadra num movimento artístico, pois as suas práticas são identificadas pelo contexto psicológico, sociológico e biográfico. As suas variações não podem ser identificadas por partilharem uma estética semelhante, pois há variantes nos materiais, estilos e conteúdos. A adaptabilidade do conceito, proporcionou a sua utilização de forma mais abrangente, para designar obras entre a Arte Naïve, Folk, Visionária, Singular ou Contemporânea.

Atualmente, estas práticas passaram a integrar os contextos expositivos, museológicos e o mercado da arte. No ano de 2013, a Bienal de Veneza, apresentou obras de Arte Bruta/Outsider. A sua designação maleável aglutina as práticas de artistas provenientes de grupos sociais, culturais e geográficos distintos. A expressão individual e os mundos simbólicos próprios de cada autor potenciam a reflexão sobre o primeiro ato da criação, mas também um discurso plural construído a várias vozes.

O percurso expositivo de Lusofolia demonstra e permite um maior entendimento sobre o universo da Arte Bruta/Outsider, assim como clarifica a elasticidade do seu conceito. Se partirmos da reflexão sobre o primeiro gesto da criação e à necessidade de cada um em comunicar, concluímos que o desenho é um dos veículos imediatos para nos expressarmos. Marilena Pelosi (Brasil, 1957) nos seus desenhos biográficos e simbólicos, imprime as suas memórias vividas num culto vudu. Jaime Fernandes (Portugal, 1900-1969), por outro lado, funde homem e animal e realça a necessidade do preenchimento da folha de uma forma obsessiva, repetitiva e direta. Ressalvando que ao longo da exposição esta expressividade é recorrente em desenhos preenchidos na frente e no verso de uma folha, com movimentos circulares, ou formas mais fechadas, nas obras de Artur Moreira (Portugal,1967), Raimundo Camilo (Brasil, 1935-2015), ou ZMB (Rui Lourenço) (Portugal, 1973). A multiplicidade de materiais e estilos está presente se compararmos os bonecos esculpidos em madeira e objetos recuperados de Ti Guilhermina (Portugal, 1909-2004), com a escultura fantasiosa em cerâmica Dishes Stories de Mónica Machado (Portugal, 1966), ou ainda os azulejos de Ana Carrondo (Portugal, 1967).

Lusofolia: A Beleza Insensata pode ser vista até 15 de março de 2020 no Centro de Arte Oliva e oferece-nos uma panorâmica inédita de Arte Bruta/Outsider lusófona.

Ana Martins (Porto, 1990) é licenciada em Cinema pela ESTC do IPL, Gestão do Património pela ESE do IPP e mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)”. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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