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Constelações II, ou como tentar contaminar uma coleção, no Museu Colecção Berardo

Partindo da ideia de que a obra de arte é intemporal, poderá uma coleção permanente (sem novas aquisições) não ter fim; ser infinita?

Esta parece ser uma das perguntas mais debatidas pelas instituições museológicas nos últimos anos e sobre a qual os curadores da exposição patente no Museu Coleção Berardo, Ana Rito e Hugo Barata, especulam, através da premissa de Constelações II – uma coreografia de gestos mínimos, o segundo momento de um exercício certamente sem fim.

Aliás, a palavra exercício parece-me adequada para descrever a proposta de Constelações, no sentido em que esta tenta traçar novas e diferentes ligações entre obras da coleção e outras emprestadas. Assim, sob a perspetiva de uma narrativa anacrónica, as constelações formuladas funcionam como parênteses que afetam a leitura histórica e interpretativa das obras, de que estas tantas vezes são reféns, em prol de uma função ilustrativa e/ou cronológica.

É o caso da pequena tela de Rothko [Sem título (Artista e Modelo), 1937-38], que reaviva a singularidade da fase figurativa do artista, que (talvez) por divergir das Colorfield Paintings, que esperamos encontrar em qualquer museu ou coleção de arte internacional do século XX, é tão poucas vezes explorada. Aqui, esta pintura, isolada numa parede no núcleo feminismos, adquire uma relevância completamente distinta daquela que habitualmente tem junto dos seus contemporâneos.

Ainda nessa sala, Angel Vergara, Cindy Sherman e Sarah Lucas dialogam com outras obras da Coleção Berardo, como o painel de pinturas de Chantal Joffe (Sem título, 1997-98) que não era exibido desde 2008, demonstrando a importância deste exercício curatorial. Pois além dos encontros, o dinamismo constante de uma coleção, propicia também reencontros, revisitações e, sobretudo, o estudo permanente das obras, fundamental para a melhor compreensão dos objetos e capaz de promover novas visões.

Se na primeira edição a fotografia de Thomas Ruff, à entrada da galeria -1, era nitidamente portal para o espaço constelar, desta vez esse lugar é ocupado pela obra de João Tabarra (Miroirs grotte, 2015), uma paisagem subaquática abstratizante, que enfatiza a subjetividade interpretativa que Constelações procura. À sua frente, Douglas Gordon com I cannot remember anything, inscrita na parede, corrobora ainda a centralidade do papel da memória nesta proposta curatorial; a sua horizontalidade, torna-nos capazes de cruzar ideias díspares, recorrendo à fantasia e abolindo limites racionais. É também assim que desde os primórdios concebemos o espaço sideral: infinito e absoluto. Daí, que faça todo o sentido regressar a Reinhardt e Malevich, este último com um surpreendente conjunto de desenhos dupla-face expostos corretamente, pela lateral da moldura.

O modelo da exposição explora diversos tipos de articulações entre os diferentes autores. Dom-inó (2019) d’Os Espacialistas interpela diretamente a peça de Carl Andre (144th Travertine Integer, 1985), como se de uma resposta – plena de ironia – se tratasse; o diálogo sempre inacabado dos artistas com a história da arte, poder-se-ia dizer.

Por outro lado, o vídeo-registo da performance de Jemima Stehli de 2005 regressa à origem, frente-a-frente com a escultura de Larry Bell (Vertical gradient on the long lenght, 1995), duplica o seu sentido, reproduzindo o local de realização e forçando a dicotomia entre espaço real-virtual.

Ou ainda, o encontro de Joseph Kosuth (One and three plants, 1965) com a obra fotográfica de José Maçãs de Carvalho (Beirut 06, 2007-2016), que acaba por ser curiosamente contaminada pela luz dos néones ao seu redor – como que alavancando a sinonímia entre contaminações e constelações.

São 19 as constelações desenhadas atualmente no mapa do museu, estando, para já, um terceiro momento confirmado. Desta vez a intervenção será no piso 2 (1900-1950’s), e a curiosidade aumenta à medida que as conversas vão distando temporalmente e abalando estruturas expositivas demasiadamente acomodadas. Ainda para mais em tempos conturbados, em que, não podendo nem devendo substituir a atualização da coleção, o arrojo, cada vez maior em propostas como esta, é vital para estimular instituições importantes no panorama artístico nacional, e impedir a sua estagnação.

Constelações II, para ver até dia 31 de maio, no Museu Coleção Berardo, em Lisboa.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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