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Modo de uso, de Claire de Santa Coloma

A escultura nasceu pública, entre a arquitetura e o ornamento: “the smaller the object the closer one approaches it and, therefore, it has correspondingly less of a spatial field in which to exist for the viewer.”[i] Na Galeria 3+1, Modo de uso, de Claire de Santa Coloma, é um percurso estabelecido por nove peças, mas é também uma viagem íntima em que a artista nos pede para que nos relacionemos com as peças expostas. Claire transporta-nos de volta a um tempo em que, tal como as crianças, nos relacionamos fisicamente com os materiais resultantes da natureza, nomeadamente os diferentes tipos de madeira. Mas, ao mesmo tempo, obriga-nos a questionarmo-nos acerca das relações que estabelecemos com as peças e de que forma os nossos sentidos interferem nesse processo.

E ao mesmo tempo que o trabalho sobre a madeira nos remete para a fisicalidade e manualidade do trabalho de escultor, há em Claire um processo de conceptualização que não pode ser destrinçado desse trabalho manual. Em Modo de uso, a folha de sala é, afinal, um manual de instruções que nos acompanha no percurso, mas com uma advertência: “Não é obrigatória a sua leitura nem o seu cumprimento. Pode observar outros visitantes que estejam familiarizados com o manual e seguir o exemplo. Pode também ignorá-lo por completo e relacionar-se com as obras como bem entender.” responsabilizando, assim, o visitante pelo tipo de fruição mais ou menos satisfatória que poderá ter da exposição.

Há, portanto, tudo isto na 3+1. Peças em que podemos tocar, cheirar ou até usar, e um manual bilingue com instruções acompanhadas por desenhos, algumas para o visitante outras para o galerista ou o comprador da obra e ainda sobre como reciclar uma peça que se tenha adquirido e já não se queira.

Este discurso permite-nos refletir sobre o lugar da obra de arte e sobre a forma como nos relacionamos com museus e galerias (será que num museu esta exposição poderia ser pensada da mesma forma?) e com as obras expostas, que no caso da escultura, estão normalmente vedadas ao toque do visitante. Até o título remete para uma desconstrução do que é a fruição habitual de uma obra de arte escultórica: para ver, não para tocar e muito menos para usar. Aqui, a artista dá-nos essa oportunidade de poder tocar numa obra de arte e, através das suas qualidades tácteis torna-a até irresistível.

Logo no início, duas peças lançam o mote para o tato: Enter (CSC176) (2020), e Absorb (CSC177) (2020), respetivamente de carvalho francês sem polimento e de Azinheira polida, que nos permitem, entre outras coisas a fruição bravia de um tronco onde quase podemos sentir as farpas e o cheiro da terra e uma peça de azinheira polida e tratada, com acabamento envernizado, suave ao toque e sem odor. Recline and release (CSC182) (2020) é a última obra do manual e do percurso expositivo e vai mais longe ao incluir um tapete onde duas peças estabelecem um diálogo que permite ao visitante sentar-se reclinado, descalço (condição essencial para aceder à obra), sentindo o fofo da alcatifa debaixo dos pés, enquanto se recosta em peças que não sendo fofas, também não apresentam rugosidades relevantes.

Modo de uso continua e amplia um trabalho que tem sido desenvolvido por Claire de Santa Coloma de quase mapeamento de um material como a madeira (que já vimos em Chuva na Galeria Appleton Square) e que aqui se expande para o domínio da utilização e da perda de um certo hieratismo artístico da escultura, na relação direta com o fruidor da obra. Claire de Santa Coloma retira a obra de arte do pódio e do lugar sério, contemplativo e intocável e acrescenta-lhe fruição física e humor sem, contudo, adulterar o carácter conceptual e artístico da própria obra. Permite-nos de alguma forma usar as obras, sem que deixem de ser esculturas, e isto torna-se óbvio numa peça como Reflect (CSC181) (2020), uma cadeira onde não é possível sentarmo-nos embora nos seja feito o convite. Assim, a escultura na sua qualidade estática e imutável, passa a compor uma instalação onde a fruição física efetiva conforma uma qualidade da própria obra.

 

[i] Art in Theory 1900-2000. An anthology of Changing Ideas, ed. Charles Harrison & Paul Wood, Oxford, Blackwell Publishing, 1992, p.831

 

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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