Mares sem Tempo, exposição integrada no programa “Gulbenkian Itinerante”, no Palácio da Galeria/ Museu Municipal de Tavira
A Fundação Calouste Gulbenkian marca presença a sul do país, no Palácio da Galeria/Museu Municipal de Tavira, numa exposição dedicada ao mar – valor tão caro para a região – patente até 23 de fevereiro de 2020, num ano especial para Tavira, o ano da comemoração dos 500 anos da sua elevação à categoria de cidade.
Dividida em três partes – Entre a Terra e o Mar (e o Céu), Mediterrâneo e A Descoberta do Mundo/Fim de Viagem –, a exposição coloca em diálogo diferentes épocas e diferentes estilos artísticos, demonstrando sempre a importância que o mar teve e tem na nossa cultura e na criação de diálogos com o que está para lá dele.
A exposição começa por nos apresentar uma importante obra de Paula Rego, O Tempo – Passado e Presente, onde desde logo vemos retratadas várias gerações, vivências e motivos marítimos, vividos por todas as figuras de modos com certeza muito diferentes.
O primeiro núcleo da exposição, Entre a Terra e o Mar (e o Céu), fala-nos do momento da criação, sendo a ligação ao divino algo central.
Um exemplo de um artista que podemos encontrar nesta primeira parte será Ângelo de Sousa, que apresenta uma pintura despojada e monocromática na qual podemos observar uma linha que marca uma fronteira que sugere uma primeira divisão.
Noutras peças é já visível o mar e a paisagem que o cerca, por exemplo em obras de Luís Noronha da Costa, Adriano de Sousa Lopes ou de Amadeo de Souza-Cardoso.
No segundo núcleo, Mediterrâneo, vemos já um pouco da figura humana e dos caminhos por onde se aventurou, de cidades litorais, portos, ou celebrações da arte, nesta zona que é o “berço da civilização ocidental”.
Podemos observar obras de Francis Smith, ao lado de obras do pintor do século XIX Félix Ziem – que retratou a Praça de S. Marcos, em Veneza, ou o porto de Marselha –, ou da obra Veneza, de Nadir Afonso.
Também Nikias Skapinakis marca presença, com Égina e a Águia Arrebatadora, retratando um episódio da mitologia, à luz da época contemporânea; ou José de Almada Negreiros, numa homenagem ao pintor Luca Signorelli.
Por último, o núcleo A descoberta do mundo/ fim de viagem mostra os lugares longínquos descobertos pelos portugueses e as suas novidades para o mundo Ocidental. É já o “fim de viagem”, e talvez a sugestão de novo começo.
Vemos uma escultura de João Cutileiro ao centro de uma das salas da exposição; pinturas de Álvaro Lapa, que evocam viagens marítimas; uma pintura de Eduardo Batarda sobre o combate de Marracuene; ou uma face africana, de Amadeo de Sousa Cardoso.
Chegados à última sala da exposição, vemos ao centro uma instalação de Ana Vidigal, Penélope, onde a artista mostra uma colcha de cama feita de cartas enviadas pelos seus pais durante a guerra colonial, cozidas umas às outras. Tal como Penélope, a mãe da artista esperava pelo seu marido, ausente na guerra, não tendo a certeza do seu regresso.
A toda a volta da sala, vemos maioritariamente pintura que retrata a cidade de Nova Iorque, o Brasil, Japão ou o próprio Algarve.
Uma peça um pouco diferente das demais pode ser vista por último: duas imagens do mar convivem lado a lado, uma fixa e uma em movimento, num vídeo de Fernando Calhau. O mar é assim: ao mesmo tempo uma ideia estática e algo dinâmico, navegável e através do qual é possível descobrir novos lugares.
Para atravessar culturas através dos tempos, é por vezes também necessário atravessar o espaço, trazendo do que de melhor há na capital e que representa aquilo que nos une, dos acervos das coleções do Museu Calouste Gulbenkian – a Coleção do Fundador e a Coleção Moderna, dando assim visibilidade a artistas e episódios da nossa história que merecem ser (re)lembrados, em regiões menos centrais.
Mares sem Tempo. Para ver até dia 23 de fevereiro de 2020, no Palácio da Galeria/ Museu Municipal de Tavira.