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Hangover + be part of chaos, Carla Filipe na galeria Francisco Fino

Na sua mais recente exposição, Carla Filipe leva a cidade para dentro da galeria. Recorrendo a códigos que desvendam o imaginário comum de um centro urbano, Filipe ficciona uma cenografia caótica, simultaneamente desconfortável e fascinante.

Não é propriamente uma novidade no seu trabalho este jogo entre um ambiente – chamemos-lhe de novo – cenográfico e o contexto em que ele se insere. Basta recordar a recente exposição Amanhã não há arte (2019), na qual indagava sobre a condição de ser artista, um alerta à diluição do sujeito-autor no tecido do sistema artístico, político e social, vindo do interior de uma instituição, o MAAT. Também aí a artista demonstrou a sua sagacidade na importância do posicionamento contextual da sua obra.

Desta vez, o movimento é em certa medida oposto, uma vez que o foco está na cidade (na sua fenomenologia) e na relação mútua que ela estabelece tanto com os sujeitos que as ocupam, como com o poder instituído que as regula.

As grandes faixas de pano suspensas impõem-se pela sua monumentalidade. Ainda que com diferentes tamanhos, posicionamentos e configurações, o conjunto interpela o corpo e define percursos. São “pinturas-edifício”, que sugerem um estado de degradação, mas, acima de tudo, o registo da transitoriedade do tempo. As marcas nelas inscritas acumulam-se, sobrepõem-se – anulam-se, diria. Embora num vislumbre aparentem ser ágeis, revelam-se densas, difíceis de descodificar. Tal como numa cidade, a quantidade de estímulos visuais é excessiva e a sua totalidade certamente não processável. Assim, restam vislumbres: uma imagem ou uma frase imprecisa, gravada no caos; retêm-se sobretudo ideias e vozes que ecoam tanto pelas pinturas como pela cidade.

Nesta série de trabalhos são múltiplas as referências à história do Porto e à sua vivência citadina, quer através de recortes de revistas e jornais, imagens serigrafadas ou padrões urbanos – ainda que as pinturas não sejam reféns da sua identificação factual. Por outro lado, a predominância da palavra evoca o graffiti enquanto expressão da marginalidade (E se os marginais, não fossem marginais?, 2019).

Hangover + be part of chaos, pulsa com a violência dos ininterruptos movimentos oscilantes de conquista e destruição (sempre tão visíveis), quer da paisagem outrora natural, quer das estruturas urbanas que aí foram criadas, e se foram criando. Talvez por isso, a singularidade plástica de algumas das obras seja absorvida pelo todo, com a mesma ferocidade com que a cidade o faz.

As pinturas-edifício de Carla Filipe criam a ilusão de um lugar colectivo, multi-autoral, no qual o tempo regista cumulativamente gestos e ideias, formando com eles uma paisagem (apenas) parcialmente tangível.

Patente até dia 29 de fevereiro, na galeria Francisco Fino, em Marvila.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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