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Sonae Media Art 2019: Coletivo Tiago Martins, João Correia e Sérgio Rebelo

Nas últimas décadas, as sociedades, e as entidades que as governam, têm vindo a promover uma intensa cultura de vigilância; a nossa proximidade continuada à tecnologia não só se tornou habitual como serve para nos manter vigiados a toda a hora e em todas as esquinas.

A Umbigo conversou com o coletivo composto por Tiago Martins, João Correia e Sérgio Rebelo sobre o seu trabalho Retratos de Ninguém (que lhes valeu a seleção como finalistas do Prémio Sonae Media Art 2019), a difusão entre artificial e natural e as consequências destas interações. Retratos de Ninguém está patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado até 2 de fevereiro.

 

Myles Francis Browne Para mim, a instalação acaba por evocar a cultura de vigilância e de como a tecnologia sempre criou novos meios capazes de impor um controlo e uma intromissão cada vez maiores na privacidade. Era isto que pretendiam abordar?

Tiago Martins, João Correia, Sérgio Rebelo – Sim. De facto, a representação fotográfica, graças à sua capacidade de capturar a realidade com um elevado grau de semelhança, rapidamente se tornou numa ótima forma de identificação, e por consequência, numa ferramenta para vigilância social. Porém, o contexto contemporâneo é bastante distinto. Hoje, a nossa sociedade é cada vez mais pictórica e a quantidade de imagens produzida é enorme. (Arriscamos em dizer que as nossas experiências e vivências só se tornam reais através dos olhos mecânicos das nossas câmaras fotográficas.) A grande maioria destas imagens é processada por sistemas de inteligência artificial e visão por computador cada vez mais inteligentes. Neste momento não estamos só a falar de vigilância e controlo. Falamos também de tomada e execução de ações concretas, de uma forma praticamente automática, com base nesta informação. É uma completa mudança social e os cidadãos não estão completamente informados, nem o tema tem sido discutido de forma consistente.

Seguindo esta linha de pensamento, uma das principais bases conceptuais da instalação Retratos de Ninguém é criar um espaço para fomentar a reflexão e a discussão sobre de que forma os avanços tecnológicos e a omnipresença dos sistemas inteligentes estão a mudar a nossa relação com o mundo, especialmente, a forma como olhamos para as imagens e como os nossos dados podem ser usados.

MFB – É também impossível não notar a influência da cultura das redes sociais. O espectador acaba por experienciar os retratos de outras pessoas, para além das interfaces de imensas aplicações. Contudo, a constante mutação desses retratos difere da uniformidade à qual nos acostumámos nestas plataformas. De que forma isto reflete o envolvimento e, muitas vezes, a nossa dependência psicológica dessas plataformas?

TM, JC, SR – Desde sempre, a instalação Retratos de Ninguém teve a intenção de colocar o visitante em dúvida, promovendo um espaço para a reflexão sobre a fragilidade da fronteira entre o que é artificial e real, no contexto tecnológico e social contemporâneo. Para conseguir isso, durante o processo de conceptualização e desenvolvimento da instalação tentamos, sempre que possível, explorar as idiossincrasias da sociedade contemporânea, de forma a criar um ambiente imersivo e familiar para o visitante.

A forma como as fotografias são exibidas remete diretamente para a forma como nós, habitualmente, vemos os outros e como os outros nos veem a nós. Hoje, olhar para alguém através do seu retrato (ou da sua foto de perfil) é, sem dúvida, a forma mais comum de olhar para alguém. As redes sociais tiveram um enorme impacto nisso. As redes sociais são (e continuarão a ser) um agente social muito importante e um dos grandes frutos dessa revolução tecnológica digital. Deste modo, quando temos a intenção de criar um espaço para a reflexão sobre o nosso quotidiano e a nossa relação com a tecnologia, as redes sociais e a forma como dependemos delas para ver, relacionar e julgar os outros é, claramente, uma das temáticas que queríamos abordar.

MFB – A mutação permanente dos retratos é hilariante, mas também desconcertante. Ao entrarmos na exposição, inicia-se quase instintivamente um processo de avaliação destes rostos. Mas o mais interessante é que aquilo ou quem nos avalia é, no fundo, ninguém. Acha que a instalação serve para captar não a imagem dos outros, mas a imagem dos nossos próprios preconceitos e enviesamentos?

TM, JC, SR – Podemos olhar para as projeções como um espelho para uma outra dimensão. Uma dimensão muito semelhante à nossa, pois as pessoas do outro lado do «espelho» não nos são estranhas. Isto faz com que o observador encare as caras projetadas como caras de indivíduos reais (outrora, outros observadores), observando-as e julgando-as como normalmente o fazem, mesmo que essas pessoas sejam, na verdade, ninguém. É um reflexo.

Além disso, é interessante observar a mudança de atitude quando as pessoas veem alguma das suas partes faciais (ou de alguém que reconhecem) num retrato de ninguém. Nesse momento, surge uma sensação de empatia com aquela «não pessoa» e com os estranhos que também são parte dela.

MFB – A recolha de dados tornou-se um processo bastante insidioso. Os cookies dos navegadores, mascarados como ferramentas úteis, servem para facultar dados e perfis pessoais dos utilizadores às forças digitais, para que estas extraiam vantagens económicas e até mesmo políticas. Será que a nossa realidade já não foi totalmente aumentada por consequência desta cultura digital?

TM, JC, SR – O domínio digital transformou, e continuará a transformar, a sociedade contemporânea. A realidade de cada indivíduo foi amplificada pelos meios digitais, abrindo novas portas e possibilidades. A instalação Retratos de Ninguém demonstra isso mesmo. Alimentando-se apenas da realidade das pessoas que a visitam, esta instalação consegue criar uma outra realidade digital ampliada e, assim, maior do que a original.

MFB – O trabalho estratifica-se entre as dimensões do artificial e do natural. Mas a dissolução dessa já ténue barreira entre os dois polos não é invisível, nem inaudível por qualquer outro meio. Conseguem conceber uma realidade onde o artificial substitui o natural? Será que isto já aconteceu?

TM, JC, SR – Atualmente, já nos relacionamos constantemente com sistemas artificiais inteligentes. Diríamos até que dependemos cada vez mais desta inteligência. Em relação ao natural ser substituído pelo artificial no futuro, não sabemos. No presente, acreditamos em relações de simbiose e colaboração entre o natural e o artificial.

 

Myles Francis Browne é jornalista e escritor de arte. Nascido em Londres, vive agora em Lisboa. Já trabalhou para publicações como Nicotine, TANK e Vogue Portugal. Atualmente escreve para a Umbigo Magazine.

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