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Dreamers Never Learn (Tidal), de Vasco Barata, no MAAT

Vasco Barata apresenta no MAAT, mais concretamente na sala Cinzeiro 8 (sempre tão especial como desafiante), um conjunto de obras que nos chegam sob a forma de despojos, que comunicam entre si e com as particularidades deste espaço, definindo o ambiente taciturno e onírico que o título indicia.

No entanto, ainda sem a visão da curadora Carolina Grau, nem qualquer informação explicativa, a ponte metafórica para a fantasia, para o sonho e para os sonhadores fica algo longínqua. Ao contrário, a identificação do subtítulo da exposição, tidal, é imediata e não deixa quaisquer dúvidas: o cascalho espalhado no chão da galeria é vestígio do movimento da maré, que nos alerta para o seu iminente reaparecimento. Daí que haja uma dimensão profundamente concreta neste cenário onde emergimos. As fotografias e as instalações, sobretudo as obras From differentiation to sameness (2019) composta por objetos e fragmentos suspensos em fios verticais, e Low-level clouds (2019), juntamente com a configuração da sala, sugerem o rasto de uma presença humana, efémero e inconstante tal como a maré.

Vasco Barata transforma o Cinzeiro 8 num refúgio semiabandonado, talvez uma gruta junto ao mar, onde são colecionados despojos. O que vemos são fragmentos de uma realidade urbana desprovida de significados que vai chegando aos poucos. Restam soluções inesperadas – The Small Reign (2019), onde o tecido negro impresso e suspenso possibilita a visualização de nuvens ­– e associações insólitas – as fotografias Clarity (slow learner) (2019), as que mostram peças de lego acopladas a outras matérias, criando um jogo de impossibilidades, uma vez que as estruturas vagamente arquitetónicas são destruídas por massas informes.

Em Dreamers never learn, segundo o texto de Carolina Grau, Vasco Barata propõe-se ainda versar sobre questões associadas com o capitalismo, com a especulação imobiliária, com as fronteiras ou com as vagas de imigração. No entanto, e apesar da notória procura por estruturas (espaços potencialmente habitáveis), em todos os diferentes media que utiliza, o artista revela-nos, sobretudo, um ou vários lugares abandonados ou em construção – provavelmente ambos e num movimento perpétuo. A própria exposição apenas nos é revelada por causa dessa oscilação: a da água do mar, que recuou temporariamente, permitindo uma descoberta.

Curiosamente as temáticas sociais parecem distantes do interior do abrigo/refúgio que Barata nos dá a ver. No fim de contas talvez seja mesmo este o lugar onírico que logo à partida nos é anunciado: o lugar dos sonhadores que rejeitam o mundo real, que fogem, mas que observam ao longe, a partir de uma gruta possivelmente, e que se propõem a experimentar e a remisturar os fragmentos que vão chegando da mainland.

Dreamers never learn (tidal) está patente no MAAT (Central Tejo), até dia 27 de janeiro de 2020.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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