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Ao descer a escada há um degrau p’ra me sentar.

Tonio Kröner nasceu em 1984, em Datteln na Alemanha, e desenvolve o seu trabalho repartindo-se entre a Alemanha — actualmente, vive em Berlim — e a Áustria, onde se tem exposto frequentemente. Esta exposição é o culminar de uma residência na Maumaus, em Lisboa, e é um exercício de transgressão plurifacetada. Nela, Tonio Kröner desdobra-se, sem nunca se comprometer univocamente, entre o papel de artista e o de curador, mas, acima de tudo, evidencia o papel supradisciplinar do indivíduo, que se posiciona no eixo da tensão entre o revivalismo nostálgico e a prática contemporânea mais escorreita.

A sua produção é difícil de aprisionar numa fórmula, porque aquilo que anima o seu trabalho é a consistência do gesto crítico face ao edifício institucional e à própria praxis artística sem, contudo, se deixar aprisionar pelos discursos críticos correntes — as questões de género, o feminismo, a ecologia, a decolonialidade ou a contestação à economia neoliberal assente no consumismo. Ao não se comprometer com as vias dominantes, o trabalho de Tonio Kröner adquire uma originalidade e uma frescura de saudar.

Apesar de o seu trabalho ser, sem sombra de dúvida, um trabalho de galeria, há nesta exposição uma transgressão na opção de apresentar uma peça do conjunto nos escritórios da Maumaus, no centro de Lisboa e distantes da galeria, que parece ter a função de preservar uma ligação material entre a residência artística e a sua consumação material na exposição na galeria. Tonio Kröner recusa qualquer purismo nos meios ao incluir na exposição três matérias que, no mundo natural, não se intersectam: as pinturas de grande dimensão, que reclamam a ligação ao passado disciplinar, um texto poético de Alexander Milne, que estabelece o desconcerto e a permissividade surrealistas e, finalmente, duas marionetas, aparentemente recuperadas do The Muppet Show, que ajudam a dessacralizar a arte e a trazer para primeiro plano a cultura popular.

A galeria Lumiar Cité não é um espaço fácil de ocupar para um artista de White Cube. Num pastiche que flutua entre a Gestural Abstraction e o Expressionismo final dos anos setenta e oitenta, Tonio Kröner ocupa as paredes com quatro grandes pinturas rosadas, aplicando as manchas de óleo, com os gestos largos e pivotados no ombro, sobre telas de juta crua esticada em bastidores de alumínio que transparecem na superfície e, com este anacronismo, questiona o progresso racionalista característico do Modernismo pós-descartiano que estava entranhado nos movimentos artísticos baseados-em-manifesto, que animaram o século das vanguardas e que tinham como condição ontológica a obsolescência inevitável. Ao recriar em 2019 práticas de um movimento que teve o seu fim bem marcado antes do nascimento do próprio artista, Tonio Kröner recusa todo esse fluxo moderno e nega a linearidade sucessiva da História da Arte, tornando evidente que há uma essencialidade nas práticas artísticas que é capaz de sobreviver ao curso ocidental da história. Estas pinturas são mais do que uma citação, são uma apropriação violenta e provocadora que institui laços oposicionais à irreverência dos artistas que, nos anos sessenta, que se bateram pelo conteúdo e pelos conceitos em oposição aos formalismos das vanguardas defendidos por Greenberg, retirando o “plásticas” das artes e abrindo caminhos ilimitados à produção artística que se seguiria. O poema de Alexander Milne, apresentado na íntegra como título da exposição e impresso num pequeno cartaz virado para o exterior na montra da galeria, adquire um sentido totalmente distinto do original impresso num livro, aporta um valor operacional, é uma ferramenta de desconstrução da taciturnidade que marca muita da produção artística dos nossos dias e faz desta exposição um espaço de animada liberdade.

Tonio Kröner constrói um diálogo de articulações e substituições sobre o qual a Psicologia teria muito a dizer. A reactualização do imaginário dos anos setenta, através da apresentação de dois grupos de objectos produzidos num processo maneirista que a condição pós-moderna admite — as pinturas e as marionetas —, é um jogo de sentidos íntimos, um gesto onde o pastiche dos objectos, sendo mais do que uma citação, assume a função de substituto de um imaginário prenhe da nostalgia de um tempo que o artista, ironicamente, não viveu e que, por isso, só se pode relacionar com ele através de mediações historiográficas. Esta exposição fala-nos, sem fatalismos, do fascínio de uma perda, da revalorização de um tempo heróico em que a pintura era ilimitada, na dimensão e na liberdade expressiva, e de um tempo em que a popularidade de um programa de televisão protagonizado por marionetas atingia uma viralização inimaginável num tempo em que não se sonhava, sequer, com o alcance e a velocidade da Internet.

De um ponto de vista semiológico a exposição encerra uma contradição fecunda que é o cerne do seu sentido: os objectos que Tonio Kröner decide usar como significantes não nos remetem para um significado linear, mas sim para um significado remoto e, também ele, desdobrado num plano da expressão próprio (as pinturas originais e as marionetas do The Muppet Show) e um plano de conteúdo autónomo (que era o próprio sentido de cada um desses objectos no seu contexto coevo dos anos setenta). É neste cavalgar permanente dos planos de sentido que reside o grande mérito de Tonio Kröner e é por isso que vale mesmo a pena visitar a exposição.

 

O autor não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Formado em Arquitetura e pós-graduado em Teoria da Arquitetura, teve atelier durante vários anos até divergir para outras práticas ligadas à arte. Em 2007 foi curador do ciclo Praxis ou como fazemos o que fazemos na António Arroio e, entre 2008 e 2014 foi cocriador e curador da Escritaria. Passou pelo cinema documental, realizando várias longas e curtas-metragens centradas na literatura e no património edificado e, no seguimento de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e de formação em fotografia no Ar.Co, focou-se na produção artística, tendo apresentado trabalhos na BoCA Bienal, Fórum Eugénio de Almeida, Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra ou New Art Fest. Neste momento, está a concluir a Pós-Graduação em Curadoria de Arte na FCSH da Universidade Nova.

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