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A obra-total de Christian Boltanski, no Centre Pompidou

Faire son temps (life in the making), de Christian Boltanski no Centre Pompidou, propõe a imersão num universo singularmente concreto que ao longo de 50 anos parece não ter sofrido desvios significativos quer conceptual quer plasticamente. Isto é, apesar das constantes mudanças de mediums, um pouco à semelhança de outros artistas como Giacometti por exemplo, Boltanski tem procurado o aprofundamento da sua narrativa através da variação mínima, de um modo de fazer assente no olhar demorado sobre a vida e as suas questões primordiais. Meio século depois, é possível afirmar que o seu projeto máximo é a construção de uma mitologia, na qual as obras são símbolos, e onde o artista se dilui, desaparecendo enquanto entidade autoral para se tornar parte do todo.

O facto de a exposição ter sido desenhada pelo próprio artista, compondo uma obra-total, levou o museu a frisar que esta não se trata de uma retrospetiva, mas de uma “viagem ao coração do seu trabalho”. A verdade é que ao longo do percurso, no ambiente escuro, maioritariamente iluminado pelas próprias obras, tive a sensação de estar no interior de um grande organismo, algures entre o real e o artificial, capaz de reproduzir fragmentos pertencentes a uma qualquer narrativa colectiva. Talvez tenha sido depois de Misterios (2017), onde três ecrãs enormes mostram o projeto de Boltanski no norte da Patagonia, no qual trabalhou com um grupo de engenheiros de som no desenvolvimento de três dispositivos capazes de reproduzir sons semelhantes aos das baleias (que em certas alturas do ano ali se reúnem), quando ativados pelo vento, numa tentativa utópica de comunicar com elas. Ou talvez porque a meio da exposição está a peça Coeur (2005), uma lâmpada suspensa que reproduz o batimento cardíaco de Boltanski, acendendo e apagando a luz com a mesma cadência.

A familiaridade com todos aqueles objetos, com todos os rostos e  com memórias que julgamos não serem nossas, despertam o lado acutilante e até sinistro destas obras que lidam sobretudo com a morte; com a nossa relação humana com a morte. Boltanski conduz-nos a um movimento de estranhamento dos rituais e da cultura que constrói, mas simultaneamente esconde, as estruturas de preservação do outro, da memória, e da identidade – as poderosas instalações Animitas Chili (2014) e Animitas Blanc (2017).

Interrompendo a hipnose à qual nos vamos entregando, lembramo-nos do quão bem orquestradas são estas ligações entre pequenas estórias e os próprios objetos, como se de uma peça de teatro, ou de uma coreografia, se tratasse. Boltanski não se imiscui de tirar partido dos vários artíficios da linguagem (e da arte) que tem à sua disposição, nomeadamente a possibilidade de romper os limites entre ficção e realidade. Há o célebre episódio em que alguém descobriu que na obra 364 Suisses Morts (Coleção Berardo) nem todos os rostos, supostamente refotografados da secção de obituário de um jornal Suíço, pertenciam efetivamente a defuntos, ao qual Boltanski respondeu, “espere uns anos e será verdade”. Ou mais tarde, quando afirmou inequivocamente que para si a realidade factual não importa. É nessa relação com a verdade que o seu trabalho ganha força. A tensão entre a história – a sua e a do mundo – e o exagero ou a deturpação teatral, transporta-nos para o campo da fantasia –  das sombras, como na obra Théâtre d’ombres (1984-1997) –, por sua vez responsável pela criação dos mitos que desde os primórdios subsistem para lá das imagens e das palavras.

Assim, tendo toda a mitologia o ciclo da vida como base, Boltanski assinala com dois grandes letreiros à entrada e à saída respetivamente, o nascimento (Départ, 2015), e a morte (Arrivée, 2015).

Faire son temps é uma exposição-instalação fascinante onde as obras se constituem enquanto energia em potência, activadas pela tal narrativa/mito que nos faz mergulhar em memórias, que não sendo nossas, podendo não ser reais, são-nos inexplicavelmente próximas.

No Centre Pompidou até 16 de março de 2020.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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