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(Ainda) o Desconforto Moderno, de Miguel Palma

Assim que descemos para o piso -1 do Museu Coleção Berardo começamos imediatamente a ouvir os ruídos de maquinaria de (Ainda) o Desconforto Moderno, exposição com curadoria de Miguel von Hafe Pérez. Antes disso, passámos por Accident Motion Pictures (2003), uma ambulância e por Think Anti-Tank (2014), composta por um tanque militar utilizado a última vez na guerra do Iraque e por um vídeo. Quando entramos na zona expositiva propriamente dita, o desconforto já se apoderou de nós. Ao ruído junta-se a escala imensa da maior parte das peças que transformam o espaço numa espécie de estaleiro onde convivem aviões, montanhas de metal, pneus gigantes, bombas de napalm ou simplesmente pequenas maquetes, vídeos de animais de estimação ou desenhos técnicos do tempo em que eram feitos com régua, esquadro e compasso com legendas a escantilhão.

Assim é o corpo de obra de Miguel Palma: ruidoso, bruto, enorme, mas onde convive uma sensibilidade extrema e uma atenção ímpar ao detalhe. A partir do poder transformador da máquina, Miguel Palma opera sobre modelos próprios da modernidade: o carro, o avião, o comboio, até a película cinematográfica, para nos apresentar uma espécie de revolução industrial moderna em que ao objeto é retirada a sua função útil para lhe ser dada a fruição sensorial e intelectual.

Há um lado quase infantil na forma como Palma manobra as suas esculturas e como as expõe e as pensa. Qualquer coisa que lembra aquelas crianças que toda a gente diz que serão, um dia, engenheiras. Este lado de jogo é notório em obras como Ludo – Cubo e Ludo – Dominó (1989), dois jogos em betão armado a uma escala que não são manuseáveis. Mas Palma opta por transformar objetos do quotidiano em arte, embora não se limite a retirar-lhes a função primeva antes reposicionando-os no contexto artístico e de uma obra específica ou no contexto expositivo ou até performativo.

O acto de construir, de manusear ferramentas (quaisquer que sejam) é um acto visceral. É a primeira coisa que os bebés fazem quando começam a dominar o movimento manual: sobrepor, construir, destruir, construir novamente. Neste século, temos progressivamente vindo a perder esta capacidade (ainda não de forma física), visto termos auxiliares computorizados, robotizados, que nos facilitam as tarefas manuais, incluindo a escrita. Mas para Palma, o acto construtivo enforma-se na própria máquina. Miguel Palma não usa máquinas para o ajudar a produzir as suas esculturas, o artista produz máquinas que são esculturas e instalações, que fazem parte de performances como é o caso do registo vídeo Suspenso (2013) em que vemos o artista a ser puxado e suspenso por cabos ou de Engenho (1993) um veículo-escultura aerodinâmico acompanhado por um vídeo que mostra o carro a circular, conduzido pelo próprio artista no percurso Lisboa – Porto pela A1. Esta obra resulta de um intrincado trabalho de equipa. Disse-nos, aliás, a propósito de outra exposição que, para si, a escultura é um trabalho de equipa que permite a contaminação, ao contrário do desenho (que Palma produz amiúde quer como suporte das esculturas quer como exercício gráfico).

Notam-se também algumas preocupações ambientais nesta antológica em obras como Projecto Sementeira (2006) ou Carbono 14 (1998) ainda que a natureza em Miguel Palma seja uma natureza domesticada pelo Homem, através do poder da máquina.

O processo de produção conceptual e físico das obras é para si essencial e faz parte da exposição das várias obras. Seja o registo fílmico, o desenho técnico ou os esboços, o processo é tão importante como a obra final, pois é ele, muitas vezes, que nos dá pistas sobre as intenções do artista e é também esse processo que origina a obra. Muitas vezes através do acidente também como em Lisboa-Roterdão (2001) em que uma maquete de uma vila costeira e respetivos habitantes dentro de uma caixa acrílica, com uma zona de água, foi rebocada entre Lisboa e Roterdão com a água a invadir a pequena vila numa demonstração das dificuldades de viver perto do mar.

Ainda sobre viagens, o filme Travelling With Pets (2003) mostra-nos um cão a viajar no tejadilho de um carro dentro de uma transportadora adaptada. Para quem tem animais domésticos e sabe que as viagens com estes amigos nem sempre são fáceis, a gargalhada é espontânea. A filmagem em suporte Super 8, transporta-nos para os filmes caseiros que tiveram grande expansão por volta dos anos 70, com o advento da vulgarização das câmaras de filmar manobráveis e acessíveis ao público em geral.

Mas não se pense que todas as peças têm este caráter de uma certa leveza quase humorística. Obras como Little Boy (2007), Upa! União dos Povos de Angola (2006) modelo original de uma bomba de Napalm, ou Think Anti-Tank, já mencionada, lembram-nos a capacidade humana para a destruição e para a guerra.

Miguel Palma é um dos artistas mais significativos da arte contemporânea. Com um corpo de obra assinalável que colide diferentes tipos de manifestações como a escultura, o desenho, a instalação e até a performance, o seu trabalho em escultura é facilmente reconhecível, mas a sua obra é no seu conjunto de grande coerência nas preocupações sociais, políticas, ecológicas, no seu sentido de humor e nas suas referências. Escreve Miguel von Hafe Pérez no catálogo da exposição que “Como no Tao, Palma promete uma oportunidade de equilíbrio e de aprendizagem com a sua arte”. Acrescentaríamos que, tal como no Tao, em Miguel Palma o caminho faz-se caminhando.

(Ainda) o Desconforto Moderno está patente no Museu Coleção Berardo até 19 de janeiro.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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