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Alto Nível Baixo, na Galeria Zé dos Bois

Alto Nível Baixo anuncia desde logo a falta de uma medida (talvez até uma impossibilidade métrica), mas o mais importante: a ideia de paradoxo que ecoa pela Galeria ZDB. Poder-se-ia dizer que se tratam de duas exposições fundidas numa só – Cinema de Invenção, Brasil (1968-78) e Desenhos de Guerra de Manoel Barbosa, Angola (1973-75) -, porque o cruzamento é abrupto e muito demarcado; porque a rigidez geométrica dos desenhos contrasta com a organicidade dos audiovisuais. No entanto, a maior estranheza é a capacidade comunicante entre ambos os blocos que se misturam ao longo das salas e que partilham a força disruptiva da contra-cultura dos anos 60 e 70. Tanto os vídeos como os desenhos são vislumbres de caminhos marginais, numa época em que os contextos político-sociais (diferentes entre si, é certo) ameaçavam aquela que sempre foi a matéria central da arte: a liberdade.

Se a marginalidade é o ponto de contacto, o tipo de expressões é evidentemente distinto. Por um lado, os desenhos de Manoel Barbosa, realizados entre 1973-75 na solidão atormentada da guerra colonial – que partilhou com António Palolo -, são compostos por linhas que se metamorfoseiam de folha em folha, revelando formas que se assemelham a cristais ou a naves. As oscilações entre a possibilidade da representação minuciosa e o mapeamento de grandes estruturas, permitem-nos um breve acesso à interioridade do artista, perturbada pela guerra e despressurizada pelo uso de psicotrópicos. Este conjunto de desenhos simboliza uma tentativa de evasão interior. São a uma saída “para dentro”, em pleno campo de tiro.

Ao contrário, os audiovisuais dos autores brasileiros podem ser vistos como atuações no seio do tecido social. A promulgação do AI-5 (Ato Institucional n.º 5), que marcou os anos mais críticos da ditadura militar e que impôs a censura no Brasil, despoletou o surgimento de propostas artísticas bastante arrojadas e precárias, que punham em causa o poder político, dentro do próprio meio artístico. Como no caso do cinema “da boca do lixo”, que rompeu brutalmente com a tradição ao dar a ver tudo aquilo que não era “suposto”. Aliás, a própria narrativa cinematográfica – toda ela historicamente assente na relação de poder entre quem filma e o que é filmado -, foi arrasada aquando da democratização dos meios técnicos de gravação. Ao mudar quem podia filmar mudou também aquilo que era filmado. O pobre, o feio, a opressão política, a mulher, a sexualidade ou a homossexualidade passaram a figurar na tela, como podemos ver na presente exposição, em contraponto com a sociedade filtrada que o cinema novo propunha.

A organicidade dos vídeos – alguns muito rudimentares, da autoria de artistas com trajetos intermitentes – enaltece o tom desafiador face a um período negro da história do Brasil. São gritos de revolta que se faziam ouvir por meio da alegria e da irreverência. A vida em ebulição opunha-se à ameaça aos direitos individuais.

Por toda a exposição, desenhos e vídeos intercetam-se, abrindo o leque de interpretações, através do cruzamento de duas linhas que, apesar de formalmente paradoxais, partilham a força da marginalidade. A sua confluência é inesperada, mas poderosa.

Um dos pontos mais surpreendentes da curadoria, partilhada entre Marta Mestre e Natxo Checa, é precisamente a fusão de diferentes tipos de discurso, desconstruindo a opacidade que a determinados temas é imposta.

Alto Nível Baixo, no seguimento das exposições organizadas pela ZDB que focam o trabalho de pesquisa e divulgação de autores e momentos-chave, não só dá a ver o que não é mostrado, como esboça também uma reflexão acerca da atitude inerente aos discursos não-dominantes. Dar voz a autores divergentes é sempre uma questão premente. Ainda para mais, num momento como o atual em que, como Marta Mestre refere no texto, a marginalidade foi esteticizada e funciona em prol do entorpecimento social, amortizando a sua força potencialmente disruptiva.

Daí o desconforto sentido face a estas duas produções que, sem terem uma agenda definida, muito menos uma pretensão ilustrativa, desafiaram o seu tempo, e tocam o nosso. Acima de tudo, são ambas a semente do pensamento crítico; são testemunhos da procura incessante pela liberdade individual.

Alto Nível Baixo pode ser visitada até 11 de janeiro na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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